4 noites em 10

Enfrentar contrariedades ou algo desse género, gera em mim uma espécie de antítese comportamental. Já há muito tempo que sem estar em férias não passava tão poucos serões em casa. Creio que estou a atravessar uma fase de relativa popularidade, que sem dúvida me faz encarar de forma objectiva o reino da subjectividade e emoções. Como se focasse a meta e não o percurso.

Ser cavalo de corrida não é propriamente o que desejo da vida, mas por vezes precisamos de percorrer as duas léguas sem pestanejar, forçados a um galope que não dá para espumar ou sequer para sentir as rédeas, arreios e o chicote. É só galopar até à meta, com todo o empenho, sem ter tempo para dúvidas.
Os momentos que antecederam a partida eram de tensão extrema e nervosismo. Mas quando as cancelas se abriram, nada mais importa, a não ser aquele momento de adrenalina total, onde o instinto nos derruba toda a consciência e nos leva.
O desgaste da corrida vem depois, não importa. Mesmo que os danos da corrida sejam irreversíveis, e os ligamentos fiquem inutilizados, um cavalo de corrida não vai deixar de correr até ao seu limite.
N. e eu estamos num hipódromo, e só vamos parar quando passarmos a meta, quer em últimos ou primeiros. Isso não importa. Basta que nos deixemos levar pela suprema vontade e satisfação que a corrida dá.

Tarot

Seriamente mas não serenamente, só sei que nada disto faz sentido. O poço de emoções trasbordou e alagou sem piedade as minha fronteiras de raciocínio. Talvez porque não estivesse à espera, talvez porque não quisesse ver, o facto é que a Torre de Babel em X mostrou-se impiedosa, arrastada pela Roda do Destino em I. Face a mim está o Eremita em VII, e o desfecho é o Diabo em XII dando a confusão e ilusões. O Pendurado em XI é evidente prenúncio destes atritos. Certo e sabido tudo se escapou tudo ao meu discernimento, como uma bala que já tinha sido disparada, e o seu alvo, eu, estava estático, sem poder de reacção, incapaz de me desviar do seu trajecto.
E foi assim que antevi incrédulo. Era demasiadamente tortuoso, excessivamente lacónico e frio. E era para já, não tardava, com cavaleiros de mau agouro.
E a bala atingiu-me em cheio.
Porém os ferimentos não são mortais, nem apanharam sequer qualquer ponto vital. Mesmo assim doeu que se fartou e urrei de dor ao ser trespassado pelo metal incandescente. Mas a convalescência é rápida e não tarda estarei de novo pronto a dar o peito a outras miras telescópicas. E sem qualquer tipo de receio.

Podem me abater, mas não me conseguirão submeter.
Afinal gosto de Viver, e não de viver.

Poemas, astros e risos

A poesia descansa as almas pesarosas e atormentadas. Por vezes basta ouvir alguns poemas solenes e também castiços, para alimentar e saciar a alma, purgando alguma fome ou sede do espirito.
As palavras são medicamentos de acção rápida na nossa alma, dando alivio e conforto, mesmo que falem em fúria e desalento. Ou mesmo alguns lirismo excessivo, mas que mesmo assim produz um sorriso.

N. e eu falamos bastante com Pete, um brilhante astrólogo, feliz por sentir que os seus 20 anos de estudo e o livro que está a escrever, estão a dar o seus fruto. Um após outro, o nosso círculos de amigos ficam extasiados com a precisão das suas leituras: Ju agradeceu-me imenso, N. ainda em choque quer levar toda a gente a Pete. Pete revela-se uma pessoa sensível, e obviamente tinha que ser peixe como eu.

Na noite seguinte N. e eu tivemos um jantar na Foz, por sinal excelente, óptimo para falar nas coisas da vida e retemperar forças, fazer planos de viagens. Depois fomos rir, ouvindo anedotas entre amigos em Mira-Gaia.

É pena que essas noites se repitam apenas uma vez por semana e a horas proibitivas, mas sei que contudo vou repetir a dose. Esta medicação deve ser cumprida até ao fim.

Krakatoa

Nunca ninguém nos prometeu nada que perdurasse para sempre. Se o fizeram, apenas estavam a assumir com boa vontade ou com alguma motivação enganadora ou ilusão. Uma das constantes da vida é que nada é imutável. Nem mesmo as rochas, as memórias, os deuses e nem mesmo a velocidade do tempo de acordo com novas teorias da física. As mudanças ocorrem, mais cedo ou mais tarde, ao seu passo, ao seu ritmo. Inexoravelmente a metamorfose voluntária ou involuntária, cobre tudo com seu manto.

Muitas dessas mutações são lentas, levando por pequenas etapas, quase imperceptíveis, quase milimétricas, mas que acumuladas são mutações profundas e gritantes. As mudanças nem sempre são evolutivas ou benéficas. As mutações podem gerar da crisálida a borboleta ou podem gerar um Godzilla.

Como dois continentes que colidem, muitas vezes a pressão e atrito das placas teutónicas não se liberta para formar cordilheiras sumptuosas, ou largar suas energias formando novas ilhas e mostrando-se em pequenos abalos sísmicos. Essa dinâmica das mutações, por razões que a razão desconhece, provoca terramotos devastadores e vulcões à espera de entrarem em erupção em explosões arrasadoras.

Podemos durante muito tempo ignorar as fumarolas e os tremores, pensando que são meios naturais que a Terra tem para lidar com as suas mutações e as forças internas contrárias, de forma positiva: podemos até pensar que é uma fase passageira e que a energia libertada é a resolução do problema em sí. Está a libertar pressão, a mexer-se sem partir. O problema é quando esses sinais não são sinónimo da libertação passageira mas sim prenuncio da catástrofe vingativa vinda do interior da terra que se acumula.

Pensei que todos aqueles abalos eram benesses e que afinal estava mais perto da borboleta. Mas na crisálida apenas cresce um Godzilla, para meu desgosto. Para meu e de todos que do fundo do coração queriam ver uma borboleta feliz na primavera prometida e não um Godzilla num pesadelo apocalíptico japonês, que passo após passo, destrói tudo que o cerca, até quando nada mais tiver para destruir.