No exílio

Não nos devemos apegar às recordações nas alturas difíceis, mas quando as lembranças são recentes e intensas e nos dão tanta força e coragem acabam por ser um sustento, um escudo contra as intempéries que se abatem sobre nós.

Julgo que o destino abriu-me muitas portas nas últimas semanas, e mostrou-me insistentemente sinais de que terei uma caminhada nada solitária, abençoada e repleta de satisfação. Nada que fosse capaz de procurar com esperança de encontrar, mas que se deparou comigo como se eu fosse impelido em seu rumo de forma inevitável.

Agora que a distância atormenta, num desconforto de que parte de nós ter sido retirada, e que não estou em minha casa, nem tenho o meu carro, e todas as coisas que considero minhas, mas que são um mero nada, sofro uma espécie de desterro que me recorda do que me faz pulsar.

Neste exílio de forçado, resta-me, como a todos os exilados, a esperança de voltar a pisar a terra que é nossa, acalentando ferozmente essa saudade forte para que ela ressurja em vontade consumada do retorno.

Só um amor tão grande é capaz de nos dar a beber essa esperança, esse fulgor de vida, como se estivesse predestinado a existir e abraçar-nos, fazendo que o mundo cesse de ser e acontecer ao seu redor.

Com as chuvas cinzentas de Outono, forçando já ao frio e as folhas que vão cair da árvores, exilado e longe dos confortos, surjo mais forte e pleno, mais intransigente, mais iluminado numa certeza que me aquece.

Tarde em Itapuã

Um velho calção de banho
O dia pra vadiar
Um mar que não tem tamanho
E um arco-iris no ar
Depois na praia Caymmi
Sentir preguiça no corpo
E uma esteira de vime
Beber uma água de côco
É bom
Passar uma tarde em Itapuã
Ao sol que arde em Itapuã
Ouvindo o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã

Enquanto o mar inaugura
Um verde novinho em folha
Argumentar com doura
Com uma cacha de rolha
E com olhar esquecido
No encontro de céu e mar
Bem devagar ir sentindo
A terra toda a rodar
É bom
Passar uma tarde em Itapuã
Ao sol que arde em Itapuã
Ouvindo o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã

Depois sentir o arrepio
Do vento que a noite traz
É o diz-que-diz-que macio
Que brota dos coqueirais
E nos espaços serenos
Sem ontem nem amanhã
Dormir nos braços morenos
Da lua de Itapuã
É bom
Passar uma tarde em Itapuã
Ao sol que arde em Itapuã
Ouvindo o mar de Itapuã
Falar de amor em Itapuã

Música de Vinicius de Moraes / Toquinho

A nascente de um rio

Hoje adormeci. Deveria ter acordado a horas, como uma pessoa responsável e empreendedora, capaz de despertar sem despertador, pulando da cama energéticamente e sem hesitações. Mas infelizmente não sou assim e maltrato-me psicologicamente todas as manhãs, na vã tentativa de me convencer que hoje vou para a cama mais cedo e amanhã e irei acordar meia hora mais cedo. Assim teria um pequeno almoço regrado e saudável, até suficientemente languido antes de entrar no carro e pacientemente enfrentar o trânsito de forma resignada e serena, como um pequeno obstáculo do dia-a-dia.

Mas não. Eu tinha que ser aquela pessoa que tem uma poderosa cola entre a face e o travesseiro durante o período matinal, e que apesar dos berros estridentes do rádio-despertador sem tons baixos, aprecia um minuto extra entre os lençóis. Depois dá-se-me um rebate de consciência e salto da cama a contra-gosto, já num atraso desesperante. Depois corro para o banho, corro para a cozinha, corro para o quarto, corro no carro, parecendo um maníaco da estrada sedento por galgar os asfalto, circulando na faixa da esquerda.

Hoje foi diferente. Fiquei fulo, mas não me maltratei com esse atraso. Senti-me mal por ter falhado em algo que eu não suporto falhar, ou seja na pontualidade e responsabilidade, mas apesar de tudo, não senti aquele aperto e ansiedade de no íntimo me auto-fustigar num misto de revolta e frustração. Fiquei calmo, como se de certa forma tenha já estabelecido intimamente que não é a correr que se vai agarrar o que se nos escapa, arcando as culpas conscientemente, entregando-me a uma penalidade sem esbracejar.

Apraz-me pensar que de facto alterei já parte da minha consciência, assim como me tinha proposto, mesmo que de forma inconsciente. No meu interior não está sempre um vulcão em erupção como dantes, expelindo lava convulsivamente, mas sim um rio com rápidos, cataratas, mas também com águas serenas e que faz a sua caminhada orgulhosa até ao oceano.

Essas águas correm lentamente no leito do rio, às vezes mais turvas e rebeldes, às vezes quase estagnadas, fruto de uma percepção mais atenta, mais focada para um quadro mais grandioso, do que para um pormenor cuja importância foi excessivamente infeccionada. E tudo se deve à luz que sinto, que brilha cada vez mais forte e faz-me contemplar o que realmente tem importância.

Montanha russa

montanha russa

É reconfortante sentir que estou numa montanha russa de dimensões épicas, capaz de em questões de minutos levar-me desde o quinto dos infernos até ao sétimo céu .

Todos esses impactos gravitacionais e goladas de adrenalina, fazem-me ter consciência que tenho sangue a pulsar nas minhas veias, à medida que subo vertiginosamente e desço abruptamente.

Faz-me viver, sentindo a comoção acelerada, repleta de bombadas de sangue a ferver, arrepiado e tremendo pela deslocação arrebatadora que tanto desejo.

Mais desperto

Dou-me conta que muito se passou há minha volta nos últimos meses sem que eu tenha aberto os olhos convenientemente. O Verão sempre me deixa algo desatento, absorto no calor, no Sol, na alegria de desfrutar a vida, e esqueço-me das pequenas coisas ao meu redor.

Acabo por reparar menos nos adereços do palco em que nos encontramos durante o estio. Agora que a poeira assenta e se transforma em lama outonal, há mais tons cinza que cegam menos a vista. Por exemplo: só ontem reparei que o meu local de trabalho é paredes meias com um apartamento de meninas universitárias que metem anúncios no JN na secção de lazer, muito embora em ache que nenhuma delas está matriculada em qualquer faculdade ou instituto de ensino…

O facto do pessoal do armazém, dar bastantes sinais de agitação, trocando bastantes comentários entusiastas sobre o nº 49 tinha-me passado totalmente despercebido até agora, apenas achando estranho aquele frenesim de sorrisos malandros.
Como é que posso estar tão desatento nesse campo e em tantos outros campos do que me rodeia, permitindo-me estar algo alheio ao mundo da realidade que me rodeia?

Sinto uma vontade havida de voltar a rever tudo, apurando todos os sentidos para focar a minha atenção no que me rodeia, não permitindo que algo de importante fuja ao meu conhecimento. Quero estar atento e desfrutar como deve ser a minha esfera, agora que tenho a maior razão do mundo para isso. Quero vibrar a todos os momentos, desperto, consciente de cada pequeno pormenor, por mais pequeno que ele seja.

Um novo patamar

A fatalidade nada fatal de sentir que um Destino mais forte me arrebatou para um patamar de luminosidade interna, deixa-me arrebatado, pensando que afinal talvez, tudo esteja escrito, que tudo tivesse um sentido que não nos cabe a nós perceber.

Mesmo quando nada parece estar no seu devido lugar, num amplo caos sem significados, até um bater de asas de uma borboleta, pode desencadear todas as metamorfoses e condicionar um caos que afinal se desmonta num emaranhado de traçados intencionais muito precisos.

Como se eu fosse levado para um sétimo céu abraçado a um anjo que me transporta de amplas asas, transbordando amor, sinto-me leve, quase incrédulo, como se tratasse de um sonho do qual não queremos acordar, rumo à luz. Afinal o Caos tinha a causalidade que escapava a nossa cegueira. Ou talvez a causalidade seja tão complexa que nós assusta pensar que exista uma razão, ou uma lógica por detrás dela, prefirindo acreditar num Caos anárquico.

Sentir que paira sobre mim uma benção muito rara, como que se todo o puzzle existencial se resolvesse quando se encontra aquela peça que faltava, ou que teimava em não encaixar naquele enigma. Por fim as cortinas abrem-se um pouco e deixam antever muitos mistérios, muitas formas escondidas, muitas vontades veladas, que agora à luz podemos olhar e tentar perceber.

No Olimpo

Estou ainda embriagado por o mais puro dos néctares. O seu sabor escorre ainda lentamente pela minha boca, prendendo o meu pensamento nesse gosto profundo de prazer, plenitude e felicidade.

Estou a beber o néctar dos deuses num cálice trasbordante, capaz de saciar o insaciável, convicto de que nada mais necessito, além dessa ambrósia divina que me transporta ao Olimpo. Que mais posso desejar?

Nova bissectriz

A vida nunca nos deixará de nos surpreender. Esse é um postulado fundamental da nossa breve passagem por este mundo. As surpresas que a vida nos reserva são tão inusitadas e inesperadas, tão abruptas que não as podemos antecipar. Só as podemos abraçar e sentir que uma nova etapa recomeça, reconhecendo que o destino nos reserva um caminho diferente do que tínhamos antecipado.

É necessário encarar estas mudanças de norte, com um espírito aberto e atento, observando os obstáculos, não com pânico e desespero, mas sim como fasquias a serem ultrapassadas ou contornadas. É fácil esquecer que nenhum parto é sem dor, nem nenhuma transição se faz esforço. Mudar não é um facto calmo, mas sim uma revolução sangrenta que regurgita todos os fantasmas, que faz rolar cabeças e reclama todas as gotas de sangue que pode, para que o que necessitava transmutar-se, mude de facto a sua realidade e essência, nem que estale, ou se quebre em mil minúsculos pedaços.

Faz anos que a minha vida sofreu um volte de face surpreendente. Dou-me conta que foi nesse ponto distante está na precisa bissectriz da minha história, da minha viagem no tempo. Foram duas metades tão diferentes e intensas, com tantas coisas de positivo e de negativo, mas tão equitativas na formação do que sou hoje. Foram duas etapas distintas dilaceradas com mais profunda ruptura física e intelectual, que me alicerçou para a minha caminhada mais entusiasta em que agora me encontro. Numa nova bissectriz, desta vez tão plena, consciente e doce, mesmo que escorra o sangue revolucionário.

Tempestades Internas – III

3 – Um sorriso da Lua

Sinto que vou ganhando lentamente a liberdade através de um parto difícil e doloroso, mas que mesmo assim me proporciona a maior das felicidades. Por muito que custe, por muito que me seja angustiante, a força que me atraí para ser finalmente livre, encoraja-me e preenche-me.

Sou um ser que viveu nas sombras da noite demasiado tempo, agrilhoado aos mais fúteis e mais isolados conceitos de vivência, ansioso por uma luz, por uma escapatória de um labirinto da banalidade. Enjaulado no medo de ser aquilo que sou, enquadrado em mil formas de camuflagem.

Mas bastou um raio de luz da Lua para que todos os esconderijos e prisões começam a desabar, deixando-me pronto a fugir, ainda preso perante um milagre tão doce. Infelizmente, sou um prisioneiro quase que já esqueceu o que era a liberdade, e imagina que fora da sua prisão que não conseguirá sobreviver num mundo a que não estava habituado.

Mas quando se deseja, quando se vê esse sorriso da Lua, e se sente essa libertação, e se é alvo dessa dádiva imerecida, um prisioneiro pode ser livre. Estarei em breve livre das prisões graças à fé e amor purificador, à luz de uma Lua Cheia que me renova, preenche e sorri para mim.

Tempestades Internas – II

2 – Na corda bamba

um receio que se vai vencer

Tenho que aprender a não sucumbir com alguma facilidade à pressões e sentir-me como se estivesse numa corda-bamba que abana, perdendo o equilíbrio que me sustenta à vida.

Culpo-me por não ter essa experiência, essa capacidade de me equilibrar quando o vento sopra mais forte e temendo a queda, forçando movimentos mais bruscos e perigosos de pânico, movidos a uma estupidez irreflectida.

Num futuro próximo vou com mais confiança e certeza, ignorar o abismo que se estende debaixo do arame, seguindo pé ante pé, sem pestanejar, seguro que nenhum vento, seja qual for a sua intensidade, não me fará precipitar numa queda fatal.

Tempestades Internas – I

1 – Marés vivas

Com a chuva miudinha de uma manhã fria, tenho a sensação que o verão recebeu uma estocada mortal e está já ausente num céu de tom cinza que prende a luz, devolvendo apenas a claridade pálida.

Abruptamente no inicio do fim-de-semana meus diques transbordaram num manancial de emoções não esperadas e intensas. Não estava à espera por ser atingido por um relâmpago tão ofuscante, seguido dum terrível ribombar ensurdecedor. Os elementos internos entraram numa arrasadora tempestade, numas vagas encrespadas, num vento uivante.

O mar sacudiu-me e mergulhei na profundidade de um abismo negro, onde o salitre da renuncia enegreceu toda a luz que a custo me sustenta. As vagas de uma maré viva revoltada abalaram todos os diques, todos as barras, todos os portos seguros onde me refugio das tempestades, e para meu desespero, toda a negritude fétida das profundezas, das sombras tomaram conta de mim.

O desnorte momentâneo de um marinheiro frágil não se pode repetir como as marés intensas do fim de verão. Ora cheias sugando a terra costeira, ora baixas pondo a nu, o fundo lamacento sempre coberto por mar, essas são as marés de uma tempestade sempre anunciada, sempre natural. E as ondas fortes e intensas chocam com este cristal que se desfaz em mil pedaços logo envoltos em espuma e sugados na corrente.

Esqueci-me momentaneamente que a minha bússola não falha, nem que o meu farol jamais se apagará e por isso as marés são apenas um ponto de passagem de retorno infinito que sempre se repetiram e sempre se repitirão.

Destino

Estou algo alarmado e receoso. Tudo porque no meu âmago estou a pressentir que o meu futuro se modifica de forma abrupta. Todos os pequenos planos, todos os passos a curto prazo parecem não fazer mais sentido, num volte de face muito delicioso do destino, que me envolve e transforma.

Como se um vendaval se abatesse sobre mim tudo esvoaça em meu redor, sem que eu consiga discernir do que se trata. É rápido como o vento quente que rodopia à minha volta e me abraça e sacode numa nova sensação. Páginas do meu diário esvoaçam por preencher roçando o meu corpo, circundando-me e questionando-me se vou escrever novas passagens cheias de fulgor e mudanças. São páginas em branco, níveas e espessas, que numa coluna de redemoinho se cruzam e revolvem, questionando-me. Perguntam-me por novas passagens, novas encruzilhadas do destino, por um novo plano de existências, mutações e destinos.

O Sol brilha e como num sonho a luz invade todo um horizonte azul, pleno de serenidade e calor, enquanto o vento transporta as folhas numa espiral interminável dum branco intenso cortando o céu azul como uma faca de gume afiado.

E levando a pena, hesito olhando um tinteiro de ouro, repleto da tinta negra com que vou elevar-me com uma nova musa esplendorosa e generosa. Tanto por escrever, tanto por viver!