Outubro, 2003

16
Out 03

Foto do micro-cosmos

sangue

16
Out 03

Rebound

As últimas semanas têm me dado uma série de lições de vida muito importantes. Novos valores pessoais, uma nova capacidade de apreensão e sobretudo um gosto mais elevado pela vida.

Mesmo assim estou a passar o rebound habitual do fim do Verão e começo do Outono, como se estivesse também a murchar como as folhas castanhas-douradas nas copas das árvores esperando por cair finalmente.

Balanceio freneticamente entre a alegria desmesurada e a nostalgia do fim de estação.


15
Out 03

ardentia verba – 2

II – Frases que se perpetuam

Esqueço-me que as palavras também se materializam, que passam de um pensamento a um estado visível de transmissão. Quando são ditas, as palavras apenas passam à distancia que o som e o ar as permite transportar e são actos efémeros audíveis, completamente momentâneos e raramente reproduzíveis novamente na sua essência, timbre como são proferidos e conotação com a língua, a boca e os lábios o emitem.

Quando as palavras passam por uma caneta, uma máquina de escrever, um teclado, tomam outra alma, são já um compromisso materializado de um pensamento, ideia ou emoção. Podem ser lidas repetidamente e os seus significados circunscritos dissecados, pondo a nu toda a sua expressão e mensagem.

Mesmo que sejam destruídos o seus suportes, como o papel, ou estas pacatas páginas, essas palavras atingiram uma substância eternizada que se perpetua, sendo eterna mesmo que já não existente, pois ouve uma prova palpável da sua presença.
Essa marca de que as palavras são para todo o sempre fustiga hoje a minha leveza de escrever. Toda a ânsia e escassez de tempo com que matraqueio o teclado, não me dá a lucidez de transportar a clareza do que pretendo enviar numa simples mensagem.

Quando as minhas memórias e emoções são aqui depositadas não estão escritas na areia à espera de uma onda que as apague, nem estão só marcadas a canivete na cortiça do tronco de uma árvore. Essas memórias e emoções serão depositadas transportadas numa capsula do tempo, para sempre incorruptíveis num vácuo temporal. E quando é assim, deixa uma efeito semelhante a uma ponte para a eternidade e que depois de ser lançada não pode mais ser alterada, rectificada ou repensada, como a placa que viaja na sonda Pioneer 10 a 12,5 mil milhões de kilometros da Terra, uma mensagem da humanidade que muito provavelmente sobreviverá a extinção da humanidade e civilização que a concebeu.


14
Out 03

foto do tunel

a luz ao fundo do tunel

13
Out 03

ardentia verba 1

I – O peso das palavras

As palavras têm muitas vezes um significado muito peculiar e forte, dependendo em muito do momento e do contexto em que são pronunciadas ou escritas.
Eu infelizmente dou excessivo valor a algumas e menosprezo outras frequentemente, dando-lhes uma relatividade muito própria na minha personalidade muitas vezes sombria. Esqueço-me que as palavras são meros objectos de transporte e significação de actos e imagens, que apenas pesam uma tonelada, ou são leves como uma pluma, em função do que vai na alma de quem as solta ao vento.

As palavras devem ser medidas apenas quando chegaram ao chão, desnudas da emoção da pressa de serem ditas ou escritas, funcionando apenas como um marco momentâneo de circunstancias e alvoroços. Quando tal acontece, a sua beleza ou fealdade sublima-se transportando-nos para significados mais profundos dos pensamentos e emoções, num campo intervalado, sem maquete, luzes, câmara e acção.

Não existindo o barulho nem as falhas de um pensamento irreflectido e contingente, é fácil por de lado aqueles conjuntos de vogais e consoantes, de verbos, pronomes e sujeitos. As palavras são então coadas de sarcasmo momentâneo, dissolvidas do vocabulário impertinente, decantadas de impuseras gramaticais, escoadas de subterfúgios de incompreensões.

Depois da alquimia da purificação das palavras fica a mensagem velada, o seu verdadeiro significado. Onde estava um insulto, pode antes estar um pedido de compreensão; onde estava um impropério estava antes uma chamada de atenção; onde estava um rosnido estava antes um pedido de afecto.

Tenho que começar a fazer uma alquimia às palavras que me ecoam, agarrando a sua essência, não me deixando levar no seu tom áspero, e antever por detrás de um grosseiro véu, o linho, o veludo, o cetim e a seda que transportam. Desejo também que a minha língua e a minha caneta se desprendam, não calculando sempre os quilos, gramas e miligramas que as frases que profiro contenham, de forma a não me prender, nem me conter de soltar gritos e actos falhados ou palavras feridas, pois elas são um podre fruto parido de cuja semente floresce num novo e luxuriante jardim.


10
Out 03

Sonhando acordado

Completamente rendido ao sono, qual zumbi, após duas noites de privação do adormecer. Uma noite em branco num pesadelo asfixiante, outra no mais doce sonho.

N’importe quel nuit

8
Out 03

latim – IV

ardentia verba


8
Out 03

Ducineia à venda

À VENDA NA FNAC!!!

Estou muito feliz por M. ter finalmente o seu livro à venda na FNAC e por também ter tido um raio de sol na sua vida profissional. Já chega de ser Lello!
Além do livro que lí quase em primeira mão, é com muito gosto que partilho o Dulcineia no meu servidor, assim como o antigo site D.Quixote.
Tu mereces, amigo poeta!


8
Out 03

As correntes

rendilhado da corrente

8
Out 03

Early morning song

Quase chorei quando na Vox começou a passar uma música que me dava sempre um estímulo de maratonista na minha adolescência.
Sol a dar, desperto e a ouvir “Fai un sol de carallo” dos galegos Os resentidos, numa alegre combinação entre a gaita de foles festiva tão enebriante, corretamente assimilada por um eletro muito 80´s. Só me apetecia dançar cheguei mesmo a acreditar que a Vox me dedicava aqueles minutos de supresa e alegria expontânea.


7
Out 03

Plano de recuperação

Estou descontente com o meu próprio corpo por me deixar absorto e quase incapaz de reagir ao que me é proposto e desejo fazer. Tenho uma urgência anormal em tentar repousar ou dormir que depois se traduz numa mera apatia de tartaruga, que me enerva a ponto de sentir raiva das minhas carnes e dos meus ossos.

Desejo recuperar o “pique“, melhorar a forma física, voltar a voar como um anjo sem asas, deixar o vicio degradante do tabaco que me tolhe os pulmões e a auto-estima. Desejo não mais acordar cansado, não mais transpirar sem razão aparente, saciar-me mais casualmente sem necessidade de carne assassinada.

A minha saúde foi descurada durante demasiados anos, assim como os meus neurónios submetidos a duras provações e afogamentos em gin tónicos desmedidos e mal servidos. Agora que não posso reviver a energia da juventude tenho que me contentar com o minimizar dos estragos nas veias, arterias, pulmões, pele, vista, ouvidos, coluna, articulações, coração, mas essencialmente na alma, para que se mantenha jovem mesmo quando as rugas e o cabelo grisalho (ou a falta dele), assim como os carnes descaídas sem músculos forem o meu habitat físico.

Em breve começarei, um tardio mas exigível, plano de recuperação da fachada e ruínas deste edifício, antes que a fadiga estrutural ameace toda a contrução de derrocada.


7
Out 03

imagem da correria

correndo