Dou-me conta que as intempéries emocionais na minha vida são tão pouco tempestades passageiras. Muito vulgar-me formam-se furacões de intensidade 5, mas que mais tarde ou mais cedo, vão perder a força e tornarem-se tempestades tropicais.
As chuvadas e vendavais não perduram. E tal como existe um clima dinâmico também no meu intimo sucedem-se as chuvadas e o sol resplandecente. De nada serve contrariar os elementos. Quando cai granizo, resta-me abrigar-me e esperar pacientemente que o Sol volte a brilhar. De nada adianta ameaçar as nuvens negras, dar murros ao vento, ou praguejar com os trovões. Basta esperar. Não tarda a bonança chega. Como num equilibro majestoso, por cada gota de chuva que cai, por cada baixa de temperatura, haverá sempre um raio de sol, um calor aconchegante.
Tudo está baseado num ponto de equilibro, tarde ou cedo o êmbolo tornará ao ponto de partida. Resta saber o Boletim Meteorológico com as previsões para os próximos dias.
A música sempre foi importante para mim. A música para mim é um modo de extrapolar a alegria ou de travar a tristeza, um remédio sempre pronto a ser administrado directamente do ouvido e que chega ao cérebro numa dosagem diária.
Mais importante é que tenho a mente sempre em busca de doces novos, palatos revigorantes de melodias frescas. Uma fome insaciável. Amar a música não e só agarrarmos as canções da nossa vida, mas sim deliciar-se com a textura e genialidade de novas batidas ou vibratos. Admirar a deambulação jazzística, ou as batidas electrónicas, os fantásticos efeitos vocais ou ainda até a velha gaita-de-foles. Do D&B ao Raggie, do Euro Dance ao Acid Jazz.
Porém nem tudo que vem à rede é peixe. Demasiadas vezes a música de consumo não passa de um hambúrguer de consumo imediato, para entupir as veias, e neste caso os tímpanos. Há quem prefira um hambúrguer a um coq au vin. Eu não.
Fico triste que se designe como música portuguesa o género musical dito pimpa. Não concordo que aquilo seja música, mas sim um produto embalado. Uma caixa de som de 1998, um estúdio, um microfone. Basta isso. Uma espécie de cachorro quente em que só variam os condimentos que a senhora da roulotte coloca em cima e que apenas serve para disfarçar que a salsicha é das mais baratas possíveis e o pão é de anteontem. E assim se faz o Pimba em Portugal.
Recordo-me daquele calor abafante em que ao nos aproximarmos do hunting ground de areia, esboçávamos pateticamente os gestos de levantar os braços no ar, como se uma onda de estádio de tratasse. Era já um prenúncio de umas horas como lagartos incrustados nas rochas, aconchegando-se na grelhadeira, e buscando com olhos os assimétricos direcções diferentes, como se de refeições se tratassem.
Habitualmente termino do Verão coloca-me num espaço de ansiedade e melancolia. Setembro some-se rapidamente e os dias encolhem passo-a-passo anunciando o fim do estio e o inicio da reentre do frio.
Este ano contudo o Verão foi atípico, aguentando-se de unhas e dentes por Setembro fora. Isso evitou-me aquele sentimento ríspido do início do Outono e de me sentir cilindrado pelas primeiras ausência de Sol.
Fazendo o balanço contabilístico dos últimos meses não posso deixar de considerar que provavelmente todas as erupções e descargas emotivas que me assombram constantemente, tornaram-se menos intempestivas. Como que se a alma estivesse já calejada de um fluxo de atribulações tão permanente que agora qualquer tsunami não passasse de um ligeiro ondular.
Qual homem-bala, presencio a minha personagem, como alguém que se habituou a ser cuspido de um canhão a 160 kilómetros/hora para gáudio da multidão num circo com uma assistência cada vez exigente. O perigo e as lesões tornaram-se um local comum tão habitual que cada disparo e mais um ribombar rotineiro do maior espectáculo do mundo.