Foi sem dúvida um Sábado diferente. Ainda a ressabiar de uma noite agitadíssima, eis-me madrugador, com muitas horas de sono é dívida e neurónios ainda motivados a Gurosan, a tentar pedalar.
O que seria um fim-de-semana desportivo, tornou-se uma festa de encontro de novos amigos num local solarengo e místico, onde as ondas chocavam intensamente contra as rochas formando fogos de artificio de espuma. R. é um polo dinamizador, um carisma e encanto a que só se pode devolver genuína amizade. Assim como aos amigos que foram chegando ao longo da tarde dos mais variadas e longínquas origens. Subitamente tudo se tornou uma tarde de copofonia de loiras de esplanada… estilo Chopp.
A noite foi o reverso da medalha, em que os neurónios deram tilt apesar de estar com o irmanzito das ilhas a ver o nosso glorioso a portar-se miseravelmente. Depois de anoitecer tudo se tornou absurdamente mau!
Acho que a teoria do Búfalo, em que os neurónios mais fracos são abatidos primeiro, - neste caso através de uma analogia precária relativa à bebida - é mesmo uma piada de mau gosto. Nesta semana sinto que só os meus búfalos-neurónios mancos continuam a correr nas pradarias de uma mente incendiada. O resto da manada ou já tem as peles a secar ou pôs-se a monte…
Eu sei que ondas revivalistas não surtem grande efeito. Nem efeito, nem boas experiências. Nem em termos musicais nem festivos é aconselhavel reviver o passado, por muito bom que esse fosse.
Tal não foi o caso de rever um muito velho e querido guru de noites musicadas e dançadas. Rei e senhor absoluto do electroclash, pioneiríssimo em Portugal desse estilo musical que tanto amei, (e julgo ainda amar), voltar a assistir a uma actuação do DJ Kitten era ao mesmo tempo uma obsessão e também um enorme receio. Temia não gostar, achar os ritmos e discos demasiado riscados, a peça demasiado previsivel.
Mais uma vez o club Gourmet salvou-me, num acto de total abnegação, o meu mano mais novo insistiu para uma noite de aposta em grande. Sempre como dois mosqueteiros, N. e eu seriamos um veteranos num Kitten na terra medieval. S. essa incrível amiga e cozinheira talentosa, deliciou-nos com um bacalhau irrepreensível acompanhado por várias botelhas de um surpreendente Quinta do Javali que fiquei extremamente fã. A companhia e camaradagem que valem 6 estrelas.
Chegados ao local de actuação na hora H, fomos presenteados como os únicos veteranos indefectíveis com uma sessão que merecia um selo de aprovação a ouro, mesmo passados todos estes anos. Um repertório totalmente novo, mas na mira do que sempre foi, um som brilhante de descontracção misturado com um delirio que faz dançar até os paralíticos. Valeu a pena ser um revivalista, pois fui agraciado com uma noite muito bem passada.
Pena ter sido curto e com a dosagem de Gin Tónico a carburar lá fomos dar os parabéns ao amigo João pela sua carreira. Em breve há mais. E o resto do noite foi muito zumbi…
A maturidade não é um toque da varinha mágica da fada da meia-idade. É um estado de espírito que se constrói a pouco e pouco, baseado na nossa vivência, da nossa aprendizagem.
Quem no correu riscos e não se aventurou na grande maluqueira que é a vida, nunca pode ter uma consciência madura, pois não sentiu na pele os grandes sucessos ou as falhas miseráveis que o destino nos reserva.
Por certo nunca fui jogador. Por isso muitas das paradas altas que são precisas de por na mesa me falharam durante muito tempo. Demorei a entender a arte do bluff e de como pagar para ver, mesmo quando não se deveria ir a jogo. Faltou-me tentar limpar a mesa e sair depenado.
Mas como diz o ditado, antes tarde que nunca. E nos últimos anos acho que deixei nas mesas de Póquer muitos pares de calças. Mas é só assim se aprende a jogar.
Estar frenético e simultaneamente introspectivo é um dos estados de espírito que me ocorrem de tempos a tempos. A corrida de mata cavalos surge singularmente quando eu a menos espero, com fortes tendências para gravíssimas lesões.
Não esperava um fim-de-semana alucinante, mas a busca por um aconchego levou-me a iniciar uma ruta del bacalau nada própria para a minha sobejamente idade anciã. Durante a semana estive como um saltimbanco enlouquecido a tentar malabarismos complicados. Ter as três bolas no ar é já um karma que me persegue desde há anos e que tem resultado invariavelmente num fim de espectáculo lamentável com três bolas rolando no chão. Pior ainda, sentia um forte e inexplicável sentimento de que o céu me iria cair na cabeça de algo realmente errado me escapava de controlo.
Nesta perspectiva desorientada nada melhor que mergulhar de cabeça e lançar-me as feras. Foi o que fiz, e pelo menos tive a fortuna do meu lado, acompanhado por companheiros de combate veteranos nas andanças boémias.
O núcleo duro club gourmet não me deixou saltar para o frenesim, e deu-me rapidamente um remédio pantagruélico eficaz. Quem diria que o Chease Cake de tangerina fosse semelhante ambrosia. A anestesia local foi administrada na perfeição com uma grande abundância de louras e ainda estávamos no Sábado de madrugada.
O dia seguinte não foi excepção, com requisições proibitivas, onde tive que optar por convites menos exigentes do ponto de vista emocional. Mas as surpresas ocorrem e vi-me levado para uma cave de boa memória, agora transformada em reduto gótico pós moderno, saído directamente do imaginário da raínha dos malditos. Não admira que o Imperador se oponha ao Louco, e o Diabo ande sempre perto da Roda da Fortuna.
A lua cheia tem a fama de desencadear a maldição da metamorfose do Lobisomem. Algo de místico faz com que os pobres amaldiçoados se transformem em feras aterradoras.
Acho que eu tenho umas moléculas de lupus. Esta lua cheia pouco me faltou para uivar, algo desvairado na noite. Quase como um animal maldito.