Puzzle

Podemos muitas vezes esquecer-nos de como a vida é um conjunto emaranhado de momentos. Momentos sem consonância se os enquadrarmos isoladamente, se os remexermos apenas cronologicamente na nossa memória.

Por vezes dou-me conta de que situações aparentemente despropositadas acabam por se tornar peças de um grande puzzle, que isoladamente nada representam a não ser um quebra-cabeças. Mas se tivermos a boa-ventura de sobreviver muitos obstáculos afinal estamos apenas perante mais uma peça da engrenagem que vai funcionar perfeitamente no fim.

Tenho vivido muito quebra-cabeças cujas soluções só se encontram quando chegou a vez de serem solucionadas, e é importante relembrar-me que o puzzle que é a vida é um conjunto de peças que se têm que juntar. Mais tarde ou mais cedo.

Feliz és minha?

Era tempo de sentir
Esse rescaldo de paixão
Num amor audaz e pleno
Cabal de fé e certeza
Fico sereno a sorrir

Abre-se o céu e o sentimento
Não chora mais o meu coração
Limpo-me do veneno
Passado de uma alma mártir
Bruscamente feliz

Sinto esse afecto
Dentro da contemplação
Esse Amor eterno.
Deixam-se as flores
As pétalas caem

E pergunto:
Feliz és minha?

Desafinado

Se você disser que eu desafino, amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados tem ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar
Meu comportamento de antimusical
Eu, mesmo mentindo devo argumentar
Que isso é bossa nova, que isso é muito natural
O que você não sabe, nem sequer pressente
É que os desafinados também tem coração

Fotografei você na minha Rolleiflex
Revelou-se a sua enorme ingratidão
Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar, viu!
Você com a sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados,
No fundo do peito, bate calado…
No peito dos desafinados
Também bate um coração!

Redutor

Quem se questiona, quem tem a capacidade de imiscuir-se no seu próprio mundo interno dos porquês existenciais tem tendência para se perder num labirinto metafísico que escapa a capacidade da mente humana.
Nunca se encontraram certezas ou axiomas acerca do que nos define ou qual o nosso trajecto na vida.Buscando as razões, ou se preferirem o sentido da vida, esquecemo-nos das sua essência.
Porém há algo que devemos entender, ou pelo menos tentar entender:não estamos aqui por mero acaso. Isso seria muito redutor…

Faz três meses

Voltei até à grande capital medieval – era um projecto que eu acalentava à muito, não só porque eu falhara o seu ex-lí­bris como também uma bebida fumegante me ficara no imaginá¡rio, entre muitas outras actividades lúdicas.

Mas o essencial e que eu estava munido de duas estrelas polares da minha vida, que me iriam guiar com certeza a momentos únicos. Catedral de SantiagoE assim foi. Com sofrimentos de frio, peripécias de devaneios temporá¡rios, com barriga cheia e bem regada, muitos quilómetros muitos momentos de calor. Mas a cereja foi mesmo ir até à antecãmara onde o relicário se encontra. Foi comovente não pelas relí­quias em si, mas sim pela ideia de me encontrar no âmago do alvo incontáveis peregrinações ao longo de séculos, algo que gerou tanta fã, exigiu tantos sacrifí­cios e de certa forma tocou tantas vidas. E só pude presencialmente ver o cubí­culo que gera tanto atracção. Solene posso afirmar que me impressionou. Gostei daquele frio galego e faço questão de repetir se faz favor.