A grande hipoteca

Estou politicamente desiludido. Raramente me perco em discussões políticas, nem tenho paciência para troca de apupos dogmáticos ou esgrima de argumentos ortodoxo-partidários. Isto não quer dizer que não me interesse pela política no sentido que os seus resultados têm consequências profundas na nossa vida, quer queiramos quer não.

Seguir as rixas políticas em Portugal foi sempre um segundo desporto nacional. Basta ler Eça e perceber que nos ultimos 120 anos pouca coisa se alterou na maneira de estar na política portuguesa. Nunca entendi porquê, mas isso está intrincado na cultura lusa, de forma quase doentia.

Contudo não posso deixar de desabafar, pelo estado em que a p´stria se encontra e para onde se dirige. Se analisarmos com alguma distância emocional, aqueles que têm governado Portugal na última boa dúzia de anos, podemos observar erros económico-sociais de palmatória, que mostram a sua mediocridade da liderança e incapacidade de gestão desses políticos. Este primeiro-ministro, tal como os seus três antecessores nunca mereceram ser designados pelo cargo que têm ou tiveram. Deveriam antes ser intitulados como primeiro-coveiro.

Na actual situação nacional, em que se dá como principal prioridade de desenvolvimento através de gastos governamentais em obras faraónicas, leva-me a crer que nenhum destes governantes, tem noções básicas de economia. Nem estes nem nenhum dos seus assessores sequer domina os conceitos de livros como The Complete Idiots Guide to public finance. Qualquer caloiro de Economia, que estude o básico da cadeira de Macroeconomia pode facilmente perceber que as grandes obras públicas, só servem para catapultar o consumo, algo que Keynes intuí durante a Grande Depressão dos Estados Unidos e serviu para arranque da recuperação económica com grandes obras como a Hoover Dam e a Golden Gate.

Esta política económica só se deve aplicar em raras ocasiões em que o fraco consumo e os preços estrangulam a Procura. Ora tal não é o caso do que se passa em Portugal. Exactamente o inverso.
O combate ao desemprego, também não se justifica nestas obras. Gerarão apenas empregos temporários na Construção Civil que serão imediatamente destinados a emigrantes de Leste.

O pior é que sucessivamente se vem a utilizar esta polótica de obras públicas de arranque económico, quando estas apenas aumentam a desgraça orçamental do estado português. E por conseguinte levam a aumentos dos impostos! Veja-se o caso das Pontes da grande cidade, e quanto o estado paga anualmente para subsidiar o preço das portagens; note-se o caso da derrapagem milionária e corrupção que a Expo 98 teve; e mais recentemente o impacto do PIB de 0.05 % do Euro 2004, quando o seu custo foi sensivelmente trinta a quarenta vezes superior!

Pode-se especular que obras como o Aeroporto da Ota e o TGV trazem benefícios estruturais à economia, que multiplicam o investimento. Isso é perfeitamente absurdo. No caso de construir um novo Aeroporto em Lisboa, o actual é a Portela e parece-me mais do que adequado. Se o comparar-mos com o volume de tráfego aéreo do seu congénere espanhol – o labiríntico Barajas – está mais do que subaproveitado. E nuestros hermanos não pretendem fazer um aeroporto maior.
O argumento que o tráfego continua a aumentar não é exactamente verdade. Tem estagnado, apenas se registando crescimentos anormais com os eventos em Lisboa e a política concertada da Ana e de certos operadores aéreos de desviarem as suas rotas internacionais para Lisboa, aumentando assim os voos internos de Faro e Porto que aumentam a sustentabilidade operacional de certas companhias aéreas. Assim uma parte significativa do trâfego faz-se apenas artificialmente, não por razões de racionalidade económica, mas sim por interesses comerciais monopolistas.

Quando ao TGV seria mais imperioso seguir a linha de transportes europeus, uma vez que em principio seria uma via de comunicação essencial dentro da UE. Mas discordo da necessidade de tantas linhas. O eixo Badajoz-Lisboa-Porto-Vigo seria sem dúvida o único necessário, e o formato mais económico, mais ajustado à sua utilização futura. Isto porque não nos devemos esquecer como a Refer e até a Renfe são sorvedouros de capital público de grande ineficiência e custos abismais. Recorde-se a linha pendular portuguesa que já absorveu muito mais de 100 milhões de contos e só conseguiu tirar 10 minutos em relação ao Foguete de 1960 para percorrer a linha do norte!

E quando se irão pagar estas obras? Normalmente serão pagos ao longo de dezenas de anos, com títulos de divida pública e empréstimos internacionais que vão servir de maior garrote financeiro ao estado, e por conseguinte aos nossos filhos e netos, que ainda estarão a pagar impostos por estes disparates mal pensados.

Para tornar a situação mais grave, é preciso perceber que o sustentáculo da economia portuguesa, a nível de competitividade externa das Exportações é o tecido empresarial das PMEs. PMEs essas que não tem incentivos e que são as que maior impacto negativo sentem na subida de impostos e custos energéticos. Assim dá-se uma boa machadada na nossa última esperança, sobem-se os impostos indirectos como o IVA para 21%, quando em Espanha, o nosso maior parceiro comercial, está nuns simpáticos 16%. Temos também os piores impostos directos da UE, que não só desincentiva o investimento estrangeiro, como também se repercute nos preços que as empresas cobram às famílias, já de si completamente endividadas e na bancarrota. Desta forma continuamos um suicido económico sustentado!

Resumindo o meu raciocínio:

  • a política de investimento público em grandes obras não beneficia o presente e hipoteca o futuro.
  • não existe sequer a necessidade que estas obras sejam feitas, nos moldes que estão a ser planeadas (não é necessário novo aeroporto- nem tantas linhas)
  • as medidas urgentes de retoma económica não são sequer equacionadas, e pior se segue uma linha em direcão é destruição do tecido empresarial.

Sendo assim pergunto-me:

Até quando Portugal vai ser governado por incompetentes demagógicos que mais não fazem que hipotecar ainda mais o futuro de Portugal?

6 opiniões sobre “A grande hipoteca”

  1. Parece corriqueiro, mas Portugal e os portugueses têm os políticos que merecem. Afinal de contas, todos temos exemplos na família ou na vizinhaça da forma como foram utilizadas os fundos europeus…
    Quem me dera que os Filipes voltassem outra vez a reinar por estas bandas…Aprender com os espanhóis e ficar às suas ordens?
    Por mim, quero ainda nesta vida ter uma experiência com uma ou várias espanholas! Vai uma espanholada?

  2. nada de novo…..o que posso dizer é que muitas vezes me apetece mudar para as terras de nuestros hermanos ou outras quaisquer, onde pudesse construir algo com pricípio meio e fim, pois aqui torna-se muito difícil lutar seja pelo que for. só nos arranjam problemas ! é a selva de que tanto falam não é? salve-se quem puder !Ainda não percebi porque me custa a ideia da mudança, mas a verdade é que gosto do meu cantinho e das pessoas que tenho na minha vida 🙁

  3. Se o país está nesta situação também se deve á miopia e brandura do povo português. Primeiro porque não sabem votar senão no PS ou PSD, já sabemos que esses são uma praga de incompetentes, porque não experimentar CDS ? Para mim o Paulo Portas apesar de não ser um génio era bem capaz de governar melhor que estes parasitas do PS, o Sócrates pode ser tudo menos inteligente, as medidas que tomou e vai tomar só servem para desiquilibrar e afundar ainda mais a nossa economia. Alterar a reforma dos 60 para os 65 só denota falta de capacidade e burrice já que retira a muitos jovens possibilidades de emprego, para não pagar reformas mais cedo vai pagar mais fundos de desemprego, inteligente não é ?

  4. Francamente vejo a política nacional como um enorme jogo de crianças mimadas na faixa dos 8/9 anos(que é uma fase bem complicada delas).
    A sede de protagonismo e de um bom ordenado, seguro e de um rendimento vitalício parecem ser os motores da corrida ao poder.
    Eu não sei gerir uma junta de freguesia. Por isso não me candidato. Não sei gerir uma cidade. Por isso não me candidato. Muito menos sei gerir um país. Nunca me candidataria.
    Gente mal formada científicamente, gente mal formada intelectualmente, gente mal educada… São esses que mais querem e mais aparecem em cargos que nunca lhes estiveram destinados por natureza.
    Irra, é complicado entender o ser humano português…

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