A nascente de um rio

Hoje adormeci. Deveria ter acordado a horas, como uma pessoa responsável e empreendedora, capaz de despertar sem despertador, pulando da cama energéticamente e sem hesitações. Mas infelizmente não sou assim e maltrato-me psicologicamente todas as manhãs, na vã tentativa de me convencer que hoje vou para a cama mais cedo e amanhã e irei acordar meia hora mais cedo. Assim teria um pequeno almoço regrado e saudável, até suficientemente languido antes de entrar no carro e pacientemente enfrentar o trânsito de forma resignada e serena, como um pequeno obstáculo do dia-a-dia.

Mas não. Eu tinha que ser aquela pessoa que tem uma poderosa cola entre a face e o travesseiro durante o período matinal, e que apesar dos berros estridentes do rádio-despertador sem tons baixos, aprecia um minuto extra entre os lençóis. Depois dá-se-me um rebate de consciência e salto da cama a contra-gosto, já num atraso desesperante. Depois corro para o banho, corro para a cozinha, corro para o quarto, corro no carro, parecendo um maníaco da estrada sedento por galgar os asfalto, circulando na faixa da esquerda.

Hoje foi diferente. Fiquei fulo, mas não me maltratei com esse atraso. Senti-me mal por ter falhado em algo que eu não suporto falhar, ou seja na pontualidade e responsabilidade, mas apesar de tudo, não senti aquele aperto e ansiedade de no íntimo me auto-fustigar num misto de revolta e frustração. Fiquei calmo, como se de certa forma tenha já estabelecido intimamente que não é a correr que se vai agarrar o que se nos escapa, arcando as culpas conscientemente, entregando-me a uma penalidade sem esbracejar.

Apraz-me pensar que de facto alterei já parte da minha consciência, assim como me tinha proposto, mesmo que de forma inconsciente. No meu interior não está sempre um vulcão em erupção como dantes, expelindo lava convulsivamente, mas sim um rio com rápidos, cataratas, mas também com águas serenas e que faz a sua caminhada orgulhosa até ao oceano.

Essas águas correm lentamente no leito do rio, às vezes mais turvas e rebeldes, às vezes quase estagnadas, fruto de uma percepção mais atenta, mais focada para um quadro mais grandioso, do que para um pormenor cuja importância foi excessivamente infeccionada. E tudo se deve à luz que sinto, que brilha cada vez mais forte e faz-me contemplar o que realmente tem importância.

2 opiniões sobre “A nascente de um rio”

  1. Não consegui evitar um sorriso cúmplice ao ler a tua descrição do que consiste o teu acordar. Conheço tão bem essa preguiça de suplicar sempre “mais um minuto extra” e de, depois, saltar da cama num pulo tresloucado e correr, correr, correr. Será que padecemos todos do mesmo pecado? 😉 Beijinhos.

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