Dia-a-dia

A vida de um meliante em palavras

Enquanto me dirigia a pé para o meu emprego pude observar um daqueles momentos insólitos que me despoletou uma serie de pensamentos menos próprios para um início da manhã.

Enquanto um carro de lixo se afastava, vi um balão cor-de-rosa que esvoaçou do seu interior e levado pelo vento começou a saltitar pela rua, como se tivesse vida própria, escapando do mundo dos resíduos. Pinchou levado pelo vento rua acima, passo ante passo e dei por mim a pensar na fuga do balão, uma espécie de metáfora doentia da nossa realidade – como num poema-realidade em que o que é belo é levado pelos lixeiros neste mundo consumista e cheio de desperdícios.

O balão cor-de-rosa pôs-me a pensar acerca da realidade e de como ela é caótica e estranha. Aquele brinquedo jogado no lixo estava ali a esvoaçar como se o vento lhe soprasse vida e viajava para longe fugindo ao seu destino num centro de reciclagem. Uma simples rabanada de vento o fizera escapulir-se e passar a ser mais umas gramas de material tóxico no meio ambiente em vez de estar acondicionado ou reciclado em um novo objecto. O caos interviera e sem saber esse objecto inanimado, alegrava a minha manhã com uma imagem poética que me tinha despertado a curiosidade e também a vontade de escrever.

Aquele balão cor-de-rosa têm para mim um significado intenso, relembrou-me de algo que a minha mente me tem alertado continuamente neste últimos anos, de que devemos estar atentos ao que nos rodeia. Nas nossas rotinas, esquecemo-nos de estar despertos para o que nos rodeia. Vivemos sem ver e vemos sem observar. E quando vivemos embrulhados nos nossos pensamentos apressados, na nossa agenda de afazeres diários por fazer que nos esquecemos de pensar e apreciar a beleza do momento. Agradeço-te balão cor-de-rosa e também te agradeço vento, por me lembrarem que é preciso estar atento, que é preciso viver para lá da nossa azáfama diária.

Começa um novo ano e voltam as promessas de uma nova forma de estar na vida. Contabilizam-se sucessos ou fracassos dos últimos trezentos e sessenta e cinco dias e lançam-se objectivos pouco claros baseados em sonhos íntimos.

A experiência diz-me que nenhum ou quase nenhum desses sonhos objectivados se concretizara, mas mesmo assim sinto a necessidade de colocar essa atitude derrotista para trás e olhar em frente, imaginar novos horizontes que estão ao virar da esquina prontos para serem concretizados. E se o passado nos ensina algo, deveria ensinar que cruzar os braços tem sempre uma consequência expectável que é um incontrolável nada.

No sentido de parametrizar cientificamente os meus objectivos de 2019 será importante escreve-los, consubstancia-los em palavras escritas e não serem apenas pensamentos desconexos empilhados de forma desordenada. Torna-os mais eficientes e simbólicos das minhas necessidades como ser humano, homem e pai e filho. Independentemente da minha idade, das minhas convicções e do meu grau de motivação é urgente priorizar e definir aquilo que eu quero e desejo materializar para o ano corrente. A parte mais difícil é encontrar nessas listas as dificuldades que se deparam logo à partida e encontrar itens que a primeira vista parecem ter obstáculos impossíveis de superar. Eu que sempre tive uma matriz mais pessimista de encarar os obstáculos sofro e sofrerei de um síndrome de desmotivação que me mergulha num mar de preguiça e procriastinação quase incontornável.

Este ano quero encarar toda esta época deprimente de uma forma mais produtiva e realista: as grandes metas não se alcançam sem passar por metas intermédias. Como a celebre frase atribuída a Mao – Uma viagem de mil milhas começa por um passo – e é exactamente nesse passo ou passos que devo focar a atenção e vontade de superação. Começar a caminhar e não focar nas mil milhas que faltam, mas sim nos passos para a jornada diária que deveria conseguir caminhar hoje, para que num futuro próximo essa distância quase irrealizável seja atingida. Se hoje fizer um milha, amanhã estou mais perto do que hoje para atingir esse sucesso que desejo. Um marco de cada vez, passo a passo com mil pequenas vitórias rumo ao sonho que afinal não era impossível, mas que exigia trabalho e perseverança.

E é neste pensamento de encarar o copo como meio cheio e não meio vazio que se enche gota a gota que devo focar o meu animo e vontade. Afinal Roma e Pavia não se fizeram num dia.

Agora que se fazem as limpezas de Outono em casa e que a rotina estudantil dos meus pequenos entrou em velocidade de cruzeiro, é chegada a altura em que sabe bem reatar as azafamas e atividades salutares do pós-férias.

Este ano quero que algumas das boas vibrações do Verão perdurem para lá do Outono e que se estendam num novo ritmo: queria-me libertar do excesso de stress que nesta época tende-me a cobrir de preocupações. Habitualmente no fim de Setembro sou já um caffeine junkie, consumido nas horas e nos atrasos, etc… Para não naufragar neste esquema de deixar a vida fugir entre os dedos das mãos, nervoso e tenso com a correria que é a azafama diária vou tentar implementar algumas regrar às minhas células cinzentas no sentido de o que me rodeia, sem deixar que a minha mente fique presa no momento que vem a seguir.

Para conseguir este milagre, vou seguir o que a experiência (para não lhe chamar a idade) me tem ensinado ao longo dos anos que calcorreio esta Terra. Em primeiro lugar não acreditar que num momento para o outro a minha lucidez e força de vontade sobre-humana me vão tornar instantaneamente num guru imune as vicissitudes da vivência neste mundo – é antes um processo gradual em que cada dia se sobe mais um degrau. Em segundo lugar, vou evitar os acontecimentos e influências que despertam em mim o nervosismo, a inquietação e o desconforto emocional. Coisas simples como evitar noticiários de desgraças ou polémicas infrutíferas nas redes sociais, conflitos de pensamentos infrutíferos sobre visões políticas ou futeboleiras, ou ainda não ouvir músicas ou ver filmes de carácter violento. No fundo, fugir dos pequenos conflitos que assolam o nosso quotidiano e buscar um pouco mais de paz. E em terceiro e último lugar seguir o conselho de uma alma amiga e iluminada – naqueles momentos menos felizes em que o nosso lobo mau interior ameaça se soltar da sua jaula, fechar os olhos respirar fundo e imaginar aquele momento especial de relaxamento e de profunda felicidade que nos inundou a alma. Basta recordar esse sentimento por alguns segundos e os nossos demónios se desvanecem e a nossa pulsação se regra novamente.

Este ano vou trazer os bons vibes do Verão até quando o frio começar a apertar. E talvez escrever um pouco mais aqui também me ajude nesses exorcismos. A ver vamos…

Estava um dia de Sol de Setembro e viam-se já as folhas das árvores a amarelecer quando me apercebi que o Verão tinha acabado e estava novamente num inicio de outono ameno.
Nesse dia, recordo-me seria aniversário de algum amigo intimo e não seria apenas um dia como os outros. Era um dia em que estava um alinhamento celeste estranho, isto para quem acredita no zodíaco – mas não era por aí que as minha intuição iria de mau a pior. Não era o trânsito caótico, nem a embraiagem do carro a roncar a necessidade de ser substituída,  nem a fraca prestação desportiva do meu clube no dia anterior que me estavam a angustiar.
O que me incomodava era uma notícia. Tão somente era uma noticia, semelhante a tantas outras, relatando um conteúdo que de tantas vezes repetido estava já banalizado. Tratava-se de mais um naufrágio nas águas do Mediterrâneo, onde uma embarcação com centenas de pessoas se afundara perto da costa da ilha de Siracusa. A marinha italiana resgatara dezenas de sobreviventes incluindo crianças. Os números as centenas e dezenas assim normalizado. A precaridade e a falta de interesse de sobre um drama que se repete continuamente e que de tão revivido deixou de fazer arrepios nas espinhas de quem toma consciência dos factos.
Aqui nas portas da ocidental e desenvolvida Europa morre-se por afogamento em viagens marítimas clandestinas, onde imigrantes desesperados fugindo à guerra e a miséria buscam para si e para os seus filhos refugio numa terra firme distante onde não são bem-vindos. Tentam entrar sub-repticiamente num El Dourado cercado por um mar impiedoso, onde os corpos dos afogados dão à costa. E isso já não é noticia para os autóctones que apenas se preocupam com cotas de refugiados que é preciso distribuir pelos estados membros.
Senti novamente um arrepio na espinha. Depois não voltei a ouvir falar nisso. Era em Setembro e hoje não me recordo do dia que ouvi pela última vez nas noticias da rádio que um barco ou jangada se tenha afundado. Talvez não haja mais afundamentos no Mediterrâneo. Talvez seja apenas mais uma notícia que ninguém quer saber. Ou que têm receio em saber.

A simplicidade de um dia passado entre quatro paredes, quando lá fora o frio e chuva invernais costumavam ser sinónimo de tédio absoluto. Hoje no entanto passou a ser sinónimo de amor e alegria, tudo graças aos meus dois rebentos e à minha delicada cara-metade.

Nos últimos anos tenho aumentado o meu interesse pelo desporto das massas. O novo ópio do povo, ou se preferirem o futebol, acaba por nos apanhar como uma espécie de polvo.

Para onde quer que vamos, qualquer jornal que abrimos, qualquer noticiário que vemos na TV, somos bombardeados com informação irrelevante acerca  do futebol nacional e internacional, debates semanais acerca de clubites entre os três grandes.

Se por um lado estou meio farto de todo esse futebol, não deixo de deixar apaixonado pelo meu clube de eleição, o FCP.  Este infelizmente atravessa um mau momento, depois de uma época intensamente dourada, deixou-se cair em mares mais revoltos. A incapacidade de um treinador hoje deu-me mais um desgosto, porém não será por isso que vou abandonar o meu amor. Só não quero é ouvir falar em futebol até ao carnaval…

Via o seu sorriso rasgado de satisfação enquanto tinha a sua aula de bateria, e como pai fiquei de coração cheio.

A minha filhota surpreendeu-me com uma súbita paixão por um instrumento tão invulgar para meninas. De tenra idade foi ele que tratou da inscrição e averiguar na possibilidades de horas para que pudesse ter aulas de bateria. Então foi apreciar uma aula dela, após um pedido irrecusável da jovem aprendiz – em apenas meia hora apanhado todas as batidas da nova música dos Coldplay fiquei totalmente enternecido.

Por um lado tenho a sensação que minha filha cresce rapidamente que temo perder a minha linda princesa. A sua paixão pela bateria alegra-me mais por ser capaz de criar interesses novos por sua própria iniciativa, por tentar ser autónoma e seguir os seus interesses.

Ontem foi um dia que terminou sob o auspicio da saudade e de velhas amizades. E regado a Number Ten no seu final como recordando algumas façanhas menos honrosas de grande apreciador de gin tónico.

O meu maninho veio fazer as suas férias de Natal da sua grande aventura africana e junto com o meu colega da faculdade G., jantamos ao som do futebol. Uma francesinha típica da nossa cidade com o cenário da derrota do verdadeiramente glorioso frente ao Sporting que estimulou um ar de desilusão. Porém esse desaire em casa do adversário não foi o suficiente para ensombrar uma noite de reencontros e de por a conversa em dia enquanto sorviamos as Sagres de lei.

Velhos amigos e veteranos de guerras académicas e afins recordamos episódios caricatos e memoráveis sentido a saudade de uma juventude física que já não temos, mas sabemos que os nossos ossos não são o estigma do nosso envelhecimento. As nossas mentes são bem abertas e do futebol à política mostramos a nossa abertura a jovens ideias e ideais. As questões existenciais, a paternidade, os planos de futuro polvilharam a conversa deste terno de jovens que se recordaram dos tempos idos com encanto e humor. Os ossos podem estar mais perros mas as mentes estão ainda afiadas. Pena que a noite se esfumou tão depressa.