Montanheiro no vale

Num processo de reestruturação da matriz cerebral, a alma regenera-se lentamente. Possuir a obstinação é quase sempre a forma de seguir a raiva, o lado negro da vida. É um encurtar de caminhos, onde facilmente se cai em ilusões de grandeza, onde o individualismo cego é sentido como se fosse espiritualismo.

Regenero-me lentamente, e apago a feridas dos desgostos ilusórios e da ausência de discernimento. Amadureço nas minhas convicções, mas nunca as tenho como dogmas sagrados, mas sim como um processo de iluminação.A fé é sempre importante, mas da mesma forma, a fé que liberta e dá força, a mesma também pode cegar. Cega, trás o fanatismo acéfalo do mal, como a inquisição, o medo do demo e afins típicos das seitas religiosas, ou até das principais religiões.

Tudo isso também pode ser um caminho que nos leva à perdição, por arrasto num rebanho de crentes que estavam perdidos à espera de serem salvos pelo ”guru” mais próximo.Foi nessa a ilusão onde me vi envolvido, quebrando etapas e subindo degraus inseguros. Acreditando cegamente numa luz brilhante que não era real, mas sim uma malha de mentiras. Hoje tenho plena consciência que não é construindo baralhos de cartas espirituais, que a nossa alma pode conseguir atingir uma evolução ou melhoria.

A força e a devoção não se criam sobre alicerces frágeis. É necessário perseguir o bem e a verdade, não para nós mesmos, como para os outros, passo após passo, tombo após tombo. Só assim veremos um equilíbrio que nos apresenta alguma luz. A nossa dita salvação não reside nos gurus, nem nas crenças ancestrais, meros rituais religiosos, ou produtos prêt-a-porter new wage tipo alivio rápido das dores. Somos nós que temos que descobrir essa salvação, pacientemente, amadurecendo, degrau após degrau na viagem que se chama a Vida e Amor.
Só assim podemos começar a tentar ser felizes: buscando a verdade em nós e não caindo nas ilusões fugazes ou mentiras que desejamos agarrar para que nos salvarem. Salve-se quem puder… ou souber. Parece cruel, mas não deixa de ser uma realidade intrínseca.

Buda apontou um caminho, através da meditação, do entendimento do que nós somos e na luta contra os nossos demónios internos. Jesus apontou outro caminho, salientando a bondade social, mas também evitando os pecados. São caminhos apontados, rumando à eternidade. No cerne da questão está o equilíbrio do espírito – conseguir encontrar um ponto em que não traiamos a nós mesmos, sabendo que é a verdade nos libertará, e que ela é um trilho longo e difícil, que serpenteia ao longo de uma cordilheira que se eleva até aos céus.

Os precipícios são imensos e os montanheiros menos cautelosos nunca conseguirão atingir o cume da montanha mais alta. Não devem pular de obstáculos, sobe pena de se condenarem numa queda sem fim.

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