NO STRESS pós-traumático 1 –

1 – America do Sol

Não foi a primeira vez no Brasil e com certeza também não será a última. A verdade é que necessitava assim de umas férias que me permitissem um alheamento total a todos os pequenos e grandes problemas do nosso quotidiano. E estas férias foram isso mesmo: o afastamento físico e mental de todas essas pieguices, para poder ter uma visão mais panorâmica do que tenho em mãos.

A vida é para ser vivida“, “aproveita o momento” e todos esses chavões, lá na América do Sol ganham todo o seu significado e recordam-me do quando e importante aproveitar cada momento em que o nosso coração ainda pulsa. Essa urgência sem ansiedade e importância de viver só pode ser plenamente entendida a quem testemunhou um pôr-do-sol numa praia perdida, ou sentiu a imensidão de um sertão, ou quando se bóia num mar quente e super salgado durante um hora, alturas quando apenas se sente o Criador e um calor aquece o espirito.

Claro que não há só maravilhas. Há o desespero da fome, mesmo ali ao lado da mais sumptuosa riqueza e abundância; o crime violento bota-chumbo-nele mesmo ali ao lado da mais humilde e honesta comunidade; a prostituição bem na esquina de duas igrejas protestantes apinhadas de gente. São estes contrastes que nos dão a mais forte chapada de realidade, que nos remetem para um novo horizonte de pensamento mais pragmático e menos ocidentalizoido-europeu sobre o bem-estar e a moral.
Talvez a pobreza não seja só fonte de desespero, nem a riqueza fonte de alegria. É certo que o anúncio televisivo do 1 de Maio fosse cruel e repugnante por mostrar as enormes desigualdades sociais no Brasil:

“Marcelo consegue apanhar 40 figos num minuto. Para conseguir comprar esses mesmos 40 figos, Marcelo terá de trabalhar 8 horas.”

Contudo vi mais sorrisos, simpatia, carisma e alegria de viver nas gentes mais humildes, do que naqueles bem de vida. É inesquecível sentir as gentes de um lugarejo perdido e a sua filosofia de vida simples e honesta, sem nada a esconder, sem reservas. A frontalidade e esperança com que encaravam a vida era mesmo motivante, e a sua coragem e positivismo embriagantes. Nas grandes cidades, já há mais uma lei da selva, um clima de competição que não combina com o resto, mas que mesmo assim pode ter o ar da sua graça, em particular no Nordeste.

Ainda embebido neste espírito, que por incrível que pareça, nada diferente do que eu trouxe à uns seis anos atrás. Sair do jacto após tantas horas e desaguar num Rio a amanhecer é indiscritível. Mais ainda é sentir logo no ar não só o calor térmico, mas algo mais que não se pode traduzir em palavras: o espírito da América do Sol, da terra da Vera Cruz. E isso não aparece em fotografias…