Pitadas de new age

Sem me aperceber, há pequenas coisas que se modificam na nossa maneira de ser, após um pouco de consciencialização. Não se trata de algo que lemos e nos altera a filosofia de vida, nem uma experiência mística que nos renova de fé. É antes uma caminhada lenta, uma absorção continuada de uma aprendizagem crescente.

Creio que sou um autodidacta cauteloso, pronto a refutar certezas e a ter um espirito aberto a novos conceitos, buscando uma iluminação não dogmática. Não que caia nas escusadas asneiras da espiritualidade feita à medida, a gosto do freguês, nem partindo do nada existencialista até chegar ao crente fanático.

A vida é talvez demasiado efémera, como um par de minutos para que nos possamos dar conta da sua razão, desaproveitando muitas vezes o seu desfrutar por razões de temores ou ilusões. Por isso à medida que cresço vou-me desabituando sem menor esforço de pequenas facetas menores da existência. Creio que dou de facto menos valor aos bens matérias, do que dava há uns anos atrás. Assim como as crianças vibram de ansiedade por um novo brinquedo, tal gosto diminui à medida que crescem, e torna-se algo menos interessante ou crucial para a sua felicidade. Se pensarmos bem, nestes dois minutos que nos são atribuídos, deve dar alguns gosto desfrutar de uns brinquedos bonitos, como casa, carro e todas essas coisinhas, mas nada disso nos acompanha para lá da vida, nem é interiorizado por nós. Apenas nós podem dar algum conforto aparente, mas não nos pode realizar interiormente apesar da nossa sociedade estar construída ao redor deste conceito de propriedade e posse.

Dou por mim a ter cada vez menos vontade de ingerir diariamente carne e peixe, não por qualquer mania de dietas, mas porque vou sentindo que a satisfação atinge-se sem a necessidade diária de tecidos de animais. Somos uma espécie de omnívoros, capazes de ingerir produtos animais e vegetais. Provavelmente os nossos antepassados das cavernas, apesar de apreciarem e se babarem por carne, não se podiam dar ao luxo de andarem a correr atrás de manadas todos os dias para alimentarem a tribo. Talvez não necessitemos assim de tantos alimentos animais para sermos saudáveis.

Ao ouvir numa entrevista na rádio o escritor canadiano Yann Martel, que anseio ler o mais urgentemente possível, apercebi-me dessa realidade. Hoje não temos responsabilidade. Não matamos um animal para o comer: somos apenas consumistas e vamos até ao talho recolher toda a carne que nos aprouver, muito para além do nos faria ficar saciados. Não necessitamos de correr atrás da manada, nem degolar e esfolar um animal agonizante para termos carne à mesa. É muito simples ir ao supermercado e comprar umas embalagens de costeletas, uns hamburgers ultra-congelados ou salsichas. Não há sangue, vísceras, pelos, olhos gelados, coices agonizantes, espasmos de estertor, urros de dor. Só há uma textura vermelha e suculenta, agradável a um preço relativamente acessível. Basta desembolsar uns euros e temos toda a carne que quisermos. Se o desejemos, podemos empanturrar-nos em gordura animal, e entupir as nossas veias em colesterol mortal.
Não nos responsabilizamos pela carne que comemos e deixamos essa questão para as fábricas e matadouros.

Quando era miúdo, a professora primária, pela qual eu tinha um fraco, como é normal em todos os pequenos, levou-nos à já falida fábrica da Avecar, onde se produziam produtos de suínos, ou seja, salsichas, presuntos, fiambres…
Pudemos ver o corredor da morte, em que os pobres porcos, depois de já totalmente doridos e feridos de viagens longas onde estavam apinhados, esperavam com pavor o abate. Dei-me conta que o horror dos animais não se baseava apenas na tortura da viagem e do sítio diferente onde se encontravam. Sentiam os grunhidos bem à frente dos seus irmãos e o cheiro da morte. Pressentiam o matadouro e nem mesmo os tacos de basebol com que os funcionários os agrediam, os obrigavam a avançar. Forçavam com toda a violência um-a-um aqueles animais focinhentos e terrivelmente sobrealimentados, até à máquina de electrocussão, enfileirados a poucos metros de distancia entre duas cercas metálicas exíguas. Não grunhiam, antes gritavam. E vários caminhões chegavam todas as horas, juntando novos membros para a hecatombe contínua.

Há quem diga que somos o que comemos. Quem sabe se hoje somos também, toda a angustia, adrenalina, stress e sofrimento dos animais que são levados para abate nas linhas de montagem, aparecendo à nossa mesa por artes mágicas…

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