Semi-deuses

Underworld live green laser 2003

Se não estou em erro, foi algures por volta de 1996 que assisti no já desaparecido Rock’s de Gaia a um concerto quase mítico e inesquecível para quem esteve lá. Tratou-se do primeiro concerto dos Underworld em terras lusitanas e era para mim foi sem sombra de dúvida o melhor concerto que jamais tinha presenciado.
Os Underworld conseguiram algo que a maioria das bandas electrónicas jamais conseguiu fazer: tornar a sua música e estilo passíveis de serem tocadas ao vivo num concerto. Os sons inovadores e improvisos em versões adulteradas dos seu temas originais que ouvi naquela cave do outro lado do rio ainda ecoavam na minha mente. Não me cansava de repetir que tinha sido o concerto da minha vida.

Quando soube que os Underworld iam finalmente regressar a Portugal ao fim de tantos anos dei pulos de contentamento. O facto de ser em Lisboa e de ser a meio da semana não me demoveu. Queimei de bom grado dois preciosos dias de férias e de armas e bagagens rumo à grande cidade propus-me a chatear M. que por sinal também estava de férias.

Acho que estava com umas expectativas altas. Ao longo da carreira, os Underworld sofreram pequenas alterações cosméticas, mas mantiveram-se fieis a um ritmo frenético e simultaneamente rico em sonoridades e pinceladas acústicas que os catapultaram para a excelência ao longo da carreira. Um álbum ou outro menos consistente, mas como fã incondicional atento, e detentor de toda a discografia legal, e uns bons gigas de mp3 ao vivo da banda, pude sempre verificar que o grupo británico sempre foi genial a criar maxis e a fazer remakes e versões, e muito mais a
interpreta-los ao vivo do que a encher um CD. Esperava que no Coliseu dos Recreios não caíssem muito na promoção do seu último disco A Hundred Days Off, nem que focassem o Everything, everything. Mesmo depois da recente saída de Dareen Emerson, o agora duo dá mostras de todo o fulgor criativo e interpretativo, como se estivessem no auge da força.

Eu e M., que nem era muito fã dos Underworld, lá jantamos por lá nas redondezas perante uma multidão de alfacinhas que se preparava para assistir às fastidiosas e ridículas marchas populares. Para meu espanto quando chegamos ao Coliseu encontramos uma série de exilados como M., gente boa da minha cidade que também se viu obrigada a tentar a sua sorte na grande cidade.

O ar já cheirava a potência um DJ set de aquecimento e já abanava. A banda, agora um duo, fez juz ao rótulo e fama de dar concertos delirantes a que ninguém consegue resistir. Logo às primeiras vibrações numa excelente acústica, os semi-deuses revelaram-se num concerto que excedeu todas as minhas expectativas e que hoje posso dizer que foi o melhor concerto que assisti até hoje.

Abanei. Vibrei. Dancei. Pulei. Um ritmo crescente de temas reduzidos à sua essência e transmutados em brilhantes interpretações vocacionadas para um concerto como aquele. Todo o coliseu pulava rendido ao Born Slippy e Rez.
Os Underworld fizeram antes uma retrospectiva da sua carreira, sem terem as algemas da promoçãoo de um novo disco, pois já passaram um pouco a barreira da comercial que tinham caído nos dois últimos álbuns. De facto sente-se que são já uma banda para agradar aos fãs ao vivo. Por isso não há restrições, nem nada a provar pois há sensivelmente dois anos que a estrada esta sempre a rolar. Estão já divinisados, já ultrapassaram o estrelato e estão lá no outro lado.

Enquanto o meu espírito se deliciava com o som e o meu corpo se sintonizava com o ritmo, surgiu o King of Snakes em que um potente raio laser verde provou como coisas simples e até retro podem ser absolutamente geniais, num matrimónio de luz e som como muito provavelmente nunca mais vou assistir. Ficarão para sempre na retina aquelas dezenas de minutos de versão extendida.

Dois encores colossais, sendo o último após a insistência por mais de 10 minutos do público que não arredava pé, marcaram o terminus de mais de duas horas de um concerto que para a maioria dos felizados ficará como um dos melhores da sua vida. Para mim o melhor.