No dia que a Grécia bateu com a porta

A crise do Euro aumenta e a possibilidade mais do que evidente que a Grécia vai sair do Euro é cada vez mais real. Graças a intransigência do FMI e dos governos europeus acerca das medidas de austeridade que querem impor aos gregos, os princípios  dogmáticas e políticos de parte a parte a parte levam rapidamente a construção europeia para a beira do precipício.

Uma verdade incontrolável  é que o abismo que se depara na Zona Euro não é o Syriza ter ascendido ao poder democraticamente por opção do povo grego, nem por ser de esquerda. É a incapacidade e miopia política dos lideres europeus, preocupados com ajustes orçamentais e contas de merceeiro e esquecendo na ultima década que a construção do Euro também se devia alicerçar na harmonização fiscal, um problema que todos quiserem varrer para debaixo do tapete. Os fundos de coesão são meros paliativos para a sangria e desigualdades económicas e sociais que se foram cavando.

Com políticas fiscais harmónicas, cada bandeira a saldos de impostos,  cedo ou tarde os pequenos e menos concorrenciais, tal como o Portugal sofreriam déficits orçamentais contínuos em direção a uma divida soberana insustentável.

Agora depois de um braço de ferro de gente sem grande visão de futuro a não ser o seu próprio umbigo nacional e eleições ao virar da esquina deixou-se arrastar até as ultimas consequências a luta do paga-o-que-deves-e-faz-favor-de-cortar-despesas e o já-chega-de-cinco-anos-de-sacrificios-para-estarmos-ainda-piores.

Talvez seja a altura da fuhrer Merkel, o palhaço Hollande, o Juncker dos paraísos fiscais, o Coelho amestrado e outros maus políticos perceberem que políticas econômicas restritivas não favorecem economias empobrecidas e têm danos sociais e políticos irreversíveis.

E assim que Tsipras faz hari-kari económico leva consigo a credibilidade posta nessa moeda em tempos chamada ECU e muito provavelmente consigo também os elos mais fracos da economia europeia – venha o PIGS que se segue…

No dia em que o palhaço falou

Num desabafo rápido só quero apontar que realmente neste jardim à beira-mar plantado vivemos dias muito semelhantes à queda da Primeira República, em que políticos medíocres envolvidos em guerras palacianas afundavam o país numa profunda crise económica e social.

Sem dois dedos na testa alguns esticam a corda bamba da crise com piruetas ansiando por poder, enquanto outros igualmente desmiolados impõe regras de  interpretação dúbia e impraticáveis. Só não entendem que estendem o tapete à descrença na democracia. Um Salazar disfarçado de D.Sebastião  arrisca-se a tomar conta disto não tarda nada.

Sobre as manifs

3ª parte – A panela de pressão
ou
Demoras muito FMI?

Passados estes dias e parando o turbilhão de reacções, é bom fazer uma breve meditação acerca de da motivação e impacto da manifestação de 12 Março.

Como se vem dizendo no meu programa de analise favorito, no contraditório há muito tempo que é tema de debate, a crise económica portuguesa, que é estrutural e não conjuntural, a curto ou médio prazo vai gerar mais contestação social. É inevitável. As pessoas perdem o poder de compra, perdem os empregos, as empresas vão à falência, o procura diminui, etc… As questões sociais estão à flor de pele e se as coisas piorarem é como estamos sentados num barril de pólvora…

Por outro lado um estado governamentalizado entra num estado de miopia atroz após uma década de despesismo inqualificável – entra com cortes penalizadores para as empresas e classe pobres e médias. Mas mantém o intuito de financiar obras faraónicas e elefantes brancos, pérolas a porcos e até obras de Santa Engrácia. No fundo somos governados por incompetentes e incapazes, que nos aumentam os impostos e nos retiram os beneficios que o estado nos habituou.

É neste cenário que se afigura mais gravemente a falta de cultura democrática que padece Portugal. As manifestações de rua populares – de iniciativa cívica são algo normal nas democracias sérias. Os contestatários unem-se não em volta de bandeiras partidárias e slogans sindicais ou partidários mas sim por iniciativa própria. Não são carneiros-eleitores. Espanha, Itália, França, Grécia e até Alemanha costumam ter manifestações espontaneamente, algumas até mais ou menos violentas. Os cidadãos são esclarecidos e opinativos, não apenas obedientes.

Talvez o dia 12 de Março marque um renovar de convicções apartidárias, um ponto de viragem, que una em torno do bem comum as movimentações e os novos poderes que se avizinham. Talvez um renascimento da fénix nas cinzas da falta de opinião política dos portugueses. Finalmente algo mexeu e vem fazer ondas. O país de brandos costumes pode tornar-se um vespeiro.

Afinal e ao contrario do que muitos que não querem ver, a manifestação de 12 de Março, não era um peditório de malandros que não querem fazer pela vida. É uma convulsão social, enraizada, o início do assobio da panela de pressão que começou a ferver e está prestes a estourar. 500 Mil desempregados num país de 10 milhões não é sustentável muito tempo sem que caia a compostura e se comessem a virar carros e a pilhar supermercados. Talvez os políticos actuais sejam tão autistas e dormentes de ideias que não se preocupem com isso. Talvez seja o FMI que se vai preocupar com isso…

FMI calado…

(…)
Conclusions
Before the Greek and Irish bailouts, IMF officials were quite active in general volume of discussion that also carried notable positive language. We’ve not seen this for Portugal; a potentially interesting signal of strength.
To truly judge IMF officials and their public commentary related to specific countries we should explore this over long time periods and multiple crises.
There are multiple kinds of normalization to do here including comparing bailouts, countries, non-problematic country debt situations with problematic country debt situations, etc.
Silence can be a powerful signal but obviously takes some interpretation. We will continue to watch Portugal.

in Analise de Recorded Future