Je suis Charly aussie?… Pas du tout!

O que aconteceu ao Charlie nada tem a haver com a liberdade de expressão.

No balanço do atentado ao Charlie Hebdo consigo compreender como uma iniciativa de repudio ao terrorismo abriu tanto debate. No fundo a liberdade de expressão é um tema cara a todos os nós que sentimos os valores fundamentais da democracia subjacentes à génese da revolução francesa – mas infelizmente algo que se tem vindo a perder.

Independentemente do macabro e bárbaro ataque por fanáticos religiosos, a uma redação de uma publicação ultra-satírica que todos devemos reprovar, penso que nem tudo é assim tão ”liberdade de expressão” como isso. A titulo pessoal detesto a sátira e a considero o mais mesquinha e patética forma de fazer humor, logo abaixo do de palhaços de circo. Mas quer se goste ou não da sátira, o Charlie Hebdo não era bem só isso e se supostamente não se impunha restrições de temas de cariz politico, social ou religioso isso não era inteiramente verdade. A velha questão de gozar com os judeus foi tida como anti-semita, logo racista e o cartoonista que abordou o tema foi despedido. Mas os contínuos ataques aos árabes e africanos estranhamente não eram vistos como racistas. Interessante ver como a tal liberdade de expressão parece uma bandeira que anda a favor de algumas vontades.

O terrorismo que se viu em Paris é o resultado inevitável que o ocidente tem vindo a destilar nos países islâmicos do médio oriente com as suas atitudes de supremacia e conivência com Israel ao longo de meio século. Entre jogos de poder, ânsia de matérias primas como o ouro negro invasões por armas químicas fictícias; ou anti-organizações terroristas; ou ataques militares a populações civis porque algures alguém lançou um rocket; assim o ocidente tem seguido as suas politicas de supremacia sem se preocupar de quem esta a sofrer as consequências. Impunemente mantiveram em cativeiro e torturaram milhares de muçulmanos baseados em vagas suspeitas de terrorismo e todos acharam normal. Gerações de jovens sem futuro que tem identificado os ocidentais como os grandes causadores das desgraças que ocorrem em seu redor. O ódio fervilha e logo ali há campo fértil para a  distorção manipuladora sobe o pretexto da religião.

Mas a palavra certa é manipulação. A foto dos dirigentes políticos de vários países ocidentais encabeçando a manifestação de Paris é forjada, assim como o rol de personagens desde o espanhol que quer presos os difamadores que expressão as suas opiniões no facebook, ou o turco que mantém cartoonistas na prisão por atentado ao seu nome. Exactamente os ditadores que odeiam a liberdade de expressão se colocam como defensores do Charlie.

O que aconteceu ao Charlie nada tem a haver com a liberdade de expressão. Trata-te de um ato de terrorismo. Terrorismo esse que tinha um alvo facilitado – haveria argumentos para o ter debaixo de mira. A luta de interesses velados e que podem levar a algo de mais sombrio. As massas com medo não se importam de perder a sua liberdade para terem mais segurança. Não duvido que os franceses vão através do Holland aka («c’est tres difficile» de cumprir as promessas eleitorais), rapidamente fazer aprovar leis que podem vigiar qualquer cidadão francês em especial se tiver a religião muçulmana. Isto e o tratado de Schengen vai ter umas revisões rápidas que vão visar certos e determinados emigrantes. As massas estão com medo e focam o que lhes atiram como o slogan #je suis charlie sem saber bem porque.

Como sumário deste triste acontecimento mediático a liberdade de expressão continua a ser ainda mais cinzenta e a liberdade religiosa parece que vai sofrer um duro revés. O direito à privacidade vai ser quase impossível e a presunção de inocência mais difícil. A igualdade de cidadania letra morta. A fraternidade com os imigrantes árabes um fóssil.
No fundo ficamos menos
livres, menos democratas e o Charlie mais popular. Só.

Sobre as manifs

3ª parte – A panela de pressão
ou
Demoras muito FMI?

Passados estes dias e parando o turbilhão de reacções, é bom fazer uma breve meditação acerca de da motivação e impacto da manifestação de 12 Março.

Como se vem dizendo no meu programa de analise favorito, no contraditório há muito tempo que é tema de debate, a crise económica portuguesa, que é estrutural e não conjuntural, a curto ou médio prazo vai gerar mais contestação social. É inevitável. As pessoas perdem o poder de compra, perdem os empregos, as empresas vão à falência, o procura diminui, etc… As questões sociais estão à flor de pele e se as coisas piorarem é como estamos sentados num barril de pólvora…

Por outro lado um estado governamentalizado entra num estado de miopia atroz após uma década de despesismo inqualificável – entra com cortes penalizadores para as empresas e classe pobres e médias. Mas mantém o intuito de financiar obras faraónicas e elefantes brancos, pérolas a porcos e até obras de Santa Engrácia. No fundo somos governados por incompetentes e incapazes, que nos aumentam os impostos e nos retiram os beneficios que o estado nos habituou.

É neste cenário que se afigura mais gravemente a falta de cultura democrática que padece Portugal. As manifestações de rua populares – de iniciativa cívica são algo normal nas democracias sérias. Os contestatários unem-se não em volta de bandeiras partidárias e slogans sindicais ou partidários mas sim por iniciativa própria. Não são carneiros-eleitores. Espanha, Itália, França, Grécia e até Alemanha costumam ter manifestações espontaneamente, algumas até mais ou menos violentas. Os cidadãos são esclarecidos e opinativos, não apenas obedientes.

Talvez o dia 12 de Março marque um renovar de convicções apartidárias, um ponto de viragem, que una em torno do bem comum as movimentações e os novos poderes que se avizinham. Talvez um renascimento da fénix nas cinzas da falta de opinião política dos portugueses. Finalmente algo mexeu e vem fazer ondas. O país de brandos costumes pode tornar-se um vespeiro.

Afinal e ao contrario do que muitos que não querem ver, a manifestação de 12 de Março, não era um peditório de malandros que não querem fazer pela vida. É uma convulsão social, enraizada, o início do assobio da panela de pressão que começou a ferver e está prestes a estourar. 500 Mil desempregados num país de 10 milhões não é sustentável muito tempo sem que caia a compostura e se comessem a virar carros e a pilhar supermercados. Talvez os políticos actuais sejam tão autistas e dormentes de ideias que não se preocupem com isso. Talvez seja o FMI que se vai preocupar com isso…

Sobre as manifs

1ª parte – mea culpa

Faz muitos anos desde que eu participei numa manifestação de cariz politico. Talvez mesmo duas décadas quando me insurgi como muitos da minha geração contra a introdução das provas PGAs pelo ministro da educação da altura.

Nessa altura tive a minha primeira experiência com a maquinaria político-partidária das juventudes que me mostrou que como são formados os actuais líderes deste país que desde jovens são habituados a viver de ambições e favorecimentos em vez de terem um ideal e tentarem fazer valer o seu valor e mérito para um bem comum. A opinião e o bem do partido sobrepõem-se ao bem do país. A partidocracia enojou-me muito cedo, neste pais que tende a votar nos partidos como se tratasse de um fervor clubístico e não de projectos para governar um país. Resumindo a democracia que temos não é de todos a mais correcta. O Povo está demasiadamente longe de que o supostamente representa.

Desde então não quis saber de política. E como eu, uma generosa parte da minha geração não se envolveu com questões sociais e polícias. Pelo menos não por motivos válidos. Vinte anos volvidos a política portuguesa passou a estar povoada de líderes que eram os delfins das jotinhas dessa geração: boys criados nas lutas palacianas e nos favorecimentos em vez de terem feito algo útil na sociedade. Demonstrativo desta situação e o actual primeiro-ministro que nunca fez nada a não ser politica e com isso sempre arranjou cargos e expedientes de enriquecimento para si e para a família, tornou-se poderoso por saber manipular e enganar. E não por mérito.

Faço a mea culpa por não ter participado em qualquer tipo de manifestações ou me ter envolvido de alguma forma no que não achava correcto ao longo destes anos. Fui apenas o cordeirinho democrático e fui meter o meu voto numa urna como cidadão cumpridor de uma república democrática. Foi com o meu compadrio, assim como da minha geração que deixou que este país governado por energúmenos e tachistas e que em alternativa nos partidos da oposição mais energúmenos e tachistas.

Mas a culpa não é dos politicos per si. Não é dos outros. É nossa. É minha. Eu não me mexi, eu não protestei, deixei com o meu papelinho dobrado em quatro numa urna fosse a minha única voz. Até agora.