E restaram as cinzas

Depois do grande cataclismo que foram os incêndios do Verão, ficou em mim um enorme ressentimento acerca da catástrofe que se abateu sobre o meu país. Não só pelo número de vidas perdidas, não pelos prejuízos monetários e ecológicos, nem pela incapacidade governativa e estatal de intervir neste desastre. O que a mim me faz sentir uma profunda tristeza e até vergonha é sentir que nada de realmente importante foi feito nas últimas décadas para evitar, que em anos de seca e calor como este ano, Portugal se transforme num braseiro incontrolável.
Para minha surpresa, cheguei a desejar o que nunca tinha antes desejado: que chegasse o frio e a chuva.

Agora que só sobram as cinzas deste Verão longo e seco, onde uma centena de vidas foi ceifada pelos fogos que consumiram quase meio Portugal, que o luto se foi e os políticos fizeram as suas politiquices, ministros demitidos e anúncios de novas medidas, cenas que todos queremos esquecer, fico com o amargo de boca de saber que tanta tinta tem corrido, do que não se fez e do que deveria ter sido feito.
Nas redes sociais e nas conversas de café não faltaram acusações aos supostos responsáveis dos incêndios e da incapacidade de combate aos dois domingos negros que tantas lágrimas fizeram derramar. Um infindável apontar de dedos as causas da catastrofe: aos incendiários, à falta de meios de combate aos fogos, aos eucaliptos, a falta de lipeza das matas, a desorganização da proteção civil, as falhas de comunicação, os interesses ocultos dos madeireiros, da industria da celulose e da industria de aluguer de meios aéreos no combate a incêndios.

No meu mosdesto ponto de vista a grande falha de toda esta tragédia não foi um cenário de perfect storm, um conjunto de eventos e entidades mal preparadas que contribuíram para este nefasto resultado de cinzas.
O grande contributo no meu ponto esse sim foram as décadas de incúria do estado e desertificação do interior, fruto de políticas que ano após ano não investem no interior do país, nem no bem estar das populações do interior, assim como a total incapacidade de formar uma política florestal e ecológica adequada ao clima em que se insere Portugal continental. Nenhum governante português nas ultimas legislatura teve o mais pequeno interesse em resolver os problemas estruturais da floresta portuguesa, que representa uns impressionantes 10% das exportações do país e cobre cerca de 30% do território.

Um país que não gere os seus recursos eficazmente, e que deixa um terço do território por regulamentar, ordenar e fazer a sua manutenção é um país gerido por gente incauta e sem visão. Há dinheiro para os valentes bombeiros, mas não há fundos para guardas florestais. Alugam-se canadairs mas não se fazem as limpezas das matas do estado.
Depois, quando as desgraças acontecem, a falta de antecipação para os problemas de quem lidera o país é notória. Só se apagam incendios, nada se faz para os evitar Talvez se revermos o história de Portugal entendamos esse problema ao longo dos séculos, fomos quase sempre órfãos de lideres capazes de vislumbrar o futuro e os problemas de gestão que se colocam ao estado. Desenrasca-se e nunca se antecipa. Concerta-se mas não se prepara.

O clima Portugal e a sua flora autóctone são semelhantes ao resto da orla mediterrânea, onde no pino de verão existirá sempre temperaturas elevadas e tempo muito seco propicio ao aparecimento de incêndios. E se os castanheiros e sobreiros ardem com menos intensidade, o mesmo não se pode dizer de um eucalipto em cultivo incentivo e desordenado, ou de pinhais onde não são feitas limpezas e se acumula durante anos caruma.
No fundo tudo é deixado ao abandono. Depois arde. E restam as cinzas.

E o presidente da junta é…

No rescaldo das eleições autárquicas, às quais prestei talvez demasiada atenção, sinto uma enorme repulsa para o nível de debate político que assisti, não só na minha localidade assim como para todo país. Na minha cidade de residência – onde pelas minhas contas terá tidos os potenciais eleitores inundados por 10 euros de campanha eleitoral por cabeça, e depois de abstenção deverá rondar 20 euros a cabeça – segue já para o tribunal constitucional a impugnação do resultado eleitoral. Se a campanha tinha tido momentos de podridão então o seu rescaldo passa por arrastar de ressabiamento jurídico.

Lembrei-me entretanto de alguns textos que li há uma boa vintena de anos atrás, quando devorei de uma assentada uma dúzia de obras de Eça de Queirós e que tive o prazer de me deparar com «Uma campanha Alegre», onde aquele grande mestre da escrita retratava com tom critico e jocoso tão peculiar, aquele Portugal de 1890. Encontra-se passados mais de 120 anos enormes paralelismos, não da democracia per si, mas dos líderes e políticos que se apresentavam a votos. Desde os principais partidos que não tinham nada que os diferenciasse em concreto e que reuniam muitos votos de fieis e ferrenhos apoiantes, até a uma cultura do cacique que se mantém no poder e o transmite aos seus herdeiros, onde o seu nome representa votos da sociedade analfabeta da altura. Tal como hoje, a sociedade iliterada e de parcas noções de civismo, onde autarcas condenados e presos por corrupção quando exerciam os seus cargos são reeleitos e onde certas cidades continuam feudos de determinados partidos independentemente de quem der a cara pelo cargo, ou se reelegem um presidente tenha ou não ter tido um bom desempenho no cargo.

Nesta cidade os outdoors surgiram como cogumelos exibindo um nome de família a negrito de um novo candidato à câmara municipal, que por sinal tinha trocado de cores partidárias. Uma campanha recheada de fundos onde o candidato exibia o nome do seu falecido pai como uma mais-valia, apesar de não mostrara sua carreira de cargos conseguidos com a intermediação do famigerado Senhor Cunha que deram frutos catastróficos a duas instituições da cidade, com inclusivamente a falência de uma delas. Mas como falamos de Portugal, o politiqueiro tachista, o vira-casacas e o corrupto, são provavelmente os lideres políticos mais abundantes.

Era em setembro

Estava um dia de Sol de Setembro e viam-se já as folhas das árvores a amarelecer quando me apercebi que o Verão tinha acabado e estava novamente num inicio de outono ameno.
Nesse dia, recordo-me seria aniversário de algum amigo intimo e não seria apenas um dia como os outros. Era um dia em que estava um alinhamento celeste estranho, isto para quem acredita no zodíaco – mas não era por aí que as minha intuição iria de mau a pior. Não era o trânsito caótico, nem a embraiagem do carro a roncar a necessidade de ser substituída,  nem a fraca prestação desportiva do meu clube no dia anterior que me estavam a angustiar.
O que me incomodava era uma notícia. Tão somente era uma noticia, semelhante a tantas outras, relatando um conteúdo que de tantas vezes repetido estava já banalizado. Tratava-se de mais um naufrágio nas águas do Mediterrâneo, onde uma embarcação com centenas de pessoas se afundara perto da costa da ilha de Siracusa. A marinha italiana resgatara dezenas de sobreviventes incluindo crianças. Os números as centenas e dezenas assim normalizado. A precaridade e a falta de interesse de sobre um drama que se repete continuamente e que de tão revivido deixou de fazer arrepios nas espinhas de quem toma consciência dos factos.
Aqui nas portas da ocidental e desenvolvida Europa morre-se por afogamento em viagens marítimas clandestinas, onde imigrantes desesperados fugindo à guerra e a miséria buscam para si e para os seus filhos refugio numa terra firme distante onde não são bem-vindos. Tentam entrar sub-repticiamente num El Dourado cercado por um mar impiedoso, onde os corpos dos afogados dão à costa. E isso já não é noticia para os autóctones que apenas se preocupam com cotas de refugiados que é preciso distribuir pelos estados membros.
Senti novamente um arrepio na espinha. Depois não voltei a ouvir falar nisso. Era em Setembro e hoje não me recordo do dia que ouvi pela última vez nas noticias da rádio que um barco ou jangada se tenha afundado. Talvez não haja mais afundamentos no Mediterrâneo. Talvez seja apenas mais uma notícia que ninguém quer saber. Ou que têm receio em saber.

A vergonha

É com uma enorme vergonha e até repúdio que descubro nas redes sociais tanta gente expressando a sua xenofobia. Tudo porque nos é pedido, a nós portugueses, para darmos acolhimento aos refugiados sírios.

No meio do desastre humanitário que é guerra civil Síria é confrangedor ler tantos disparates acerca de emigrantes árabes como se todos fossem uma cambada de adeptos do ISIS infiltrados na Europa. A santa ignorância faz com que pessoas pacatas mostrem a fraca fibra moral. A Síria é das poucas regiões do médio oriente onde conviviam várias religiões, inclusive a cristã. E a julgar pelo andar na guerra naquele país, serão esses cristãos que mais temem pelas suas vidas a ponto de tentarem chegar apesar dos inúmeros perigos aos tolerantes países europeus. Mas ao que parece, para muitos países europeus essa tolerância está só escrita nas suas constituições. O medo e o ódio acerca destes acontecimentos muito me recorda o pesadelo de há 70 anos com os senhores das suásticas.

Neste caso, a estupidez humana não para de me surpreender: muito porque a falta de cultura e a iliteracia imperam cada vez mais na era da Internet – e ao contrário do que eu suponha – quanto mais informação (e desinformação) a circular, mais fácil é manipular os estúpidos. É para piorar tudo, os estúpidos têm voz nas redes sociais e as suas afirmações ignorantes chegam sempre aos ouvidos de outros patetas que preferem ler mensagens de medo e ódio, do que simplesmente consultarem a wikipedia.

Ajudar quem está em perigo de vida é um dos lemas teóricos da racionalidade humana, a solidariedade uma das premissas da vida em sociedade, seja qual for a religião ou credo. E manifestamente isso está esquecido.

No dia que a Europa começou a chorar

O conflito da Síria já se iniciou em 2011 e tem escalado numa guerra civil hedionda com radicais islâmicos a cometerem as atrocidades que têm vindo a público. A triste realidade dos refugiados sírios inunda os nossos telejornais há anos, e nós europeus não quisemos saber.

Inicialmente chegaram os clandestinos tunisinos e líbios oriundos de uma primavera árabe – que se tem vindo a revelar um dos piores pesadelos do século XXI – é que os europeus começaram a ver com outros olhos o problema que era o mediterrâneo.

Não tardou para que se vislumbrasse as tragédias sucessivas da travessia do Mare Nostrum. Poucas foram as semanas que não houvesse noticias de naufrágios e barcaças atoladas de gente desesperada com crianças e que ceifavam vidas as centenas. As imagens da guarda costeira italiana a recolher os tais clandestinos ou os seus corpos foram frequentes.

Só quando começaram a chegar barcos carregados de refugiados sírios os dirigentes políticos começaram a mostrar preocupações acerca da catástrofe humanitária que decorre há já cinco anos no médio oriente.

Durante 2015 começou-se a dar outro êxodo e este agosto milhares de refugiados e «clandestinos» terão perdido a vida nessa travessia desesperada. Não vi grande contestação e repudio pelo que estava a acontecer. Os europeus estavam de férias provavelmente.

E eis que se deu uma pequena tragédia entre muitas, mas que foi fotografada de uma forma icónica: o corpo de criança afogada numa praia na Turquia resultado dessa travessia desesperada. Só então, parece que nós europeus despertamos. Não eram números nas noticias, não eram refugiados que tentavam saltar cercas ou atravessarem túneis. Eram os restos mortais de um pequeno menino morto no mar. Uma imagem que valia por mil, ou melhor, milhões de palavras. E finalmente , nós europeus percebemos que existe uma catástrofe humanitária em que centenas de milhar de seres humanos tentam fugir à morte e entrar na pacifica Euripa e no seu desespero de atingir um porto seguro estão dispostos a correr todos os riscos pois já não têm nada a perder.

E o que ainda me custa mais é que se discutem quotas entre os líderes europeus acerca de quantos refugiados cada país da união europeia está disposto a receber, enquanto outro menino e seus pais tentam fugir da morte e entram numa outra barcaça.

Je suis Charly aussie?… Pas du tout!

O que aconteceu ao Charlie nada tem a haver com a liberdade de expressão.

No balanço do atentado ao Charlie Hebdo consigo compreender como uma iniciativa de repudio ao terrorismo abriu tanto debate. No fundo a liberdade de expressão é um tema cara a todos os nós que sentimos os valores fundamentais da democracia subjacentes à génese da revolução francesa – mas infelizmente algo que se tem vindo a perder.

Independentemente do macabro e bárbaro ataque por fanáticos religiosos, a uma redação de uma publicação ultra-satírica que todos devemos reprovar, penso que nem tudo é assim tão ”liberdade de expressão” como isso. A titulo pessoal detesto a sátira e a considero o mais mesquinha e patética forma de fazer humor, logo abaixo do de palhaços de circo. Mas quer se goste ou não da sátira, o Charlie Hebdo não era bem só isso e se supostamente não se impunha restrições de temas de cariz politico, social ou religioso isso não era inteiramente verdade. A velha questão de gozar com os judeus foi tida como anti-semita, logo racista e o cartoonista que abordou o tema foi despedido. Mas os contínuos ataques aos árabes e africanos estranhamente não eram vistos como racistas. Interessante ver como a tal liberdade de expressão parece uma bandeira que anda a favor de algumas vontades.

O terrorismo que se viu em Paris é o resultado inevitável que o ocidente tem vindo a destilar nos países islâmicos do médio oriente com as suas atitudes de supremacia e conivência com Israel ao longo de meio século. Entre jogos de poder, ânsia de matérias primas como o ouro negro invasões por armas químicas fictícias; ou anti-organizações terroristas; ou ataques militares a populações civis porque algures alguém lançou um rocket; assim o ocidente tem seguido as suas politicas de supremacia sem se preocupar de quem esta a sofrer as consequências. Impunemente mantiveram em cativeiro e torturaram milhares de muçulmanos baseados em vagas suspeitas de terrorismo e todos acharam normal. Gerações de jovens sem futuro que tem identificado os ocidentais como os grandes causadores das desgraças que ocorrem em seu redor. O ódio fervilha e logo ali há campo fértil para a  distorção manipuladora sobe o pretexto da religião.

Mas a palavra certa é manipulação. A foto dos dirigentes políticos de vários países ocidentais encabeçando a manifestação de Paris é forjada, assim como o rol de personagens desde o espanhol que quer presos os difamadores que expressão as suas opiniões no facebook, ou o turco que mantém cartoonistas na prisão por atentado ao seu nome. Exactamente os ditadores que odeiam a liberdade de expressão se colocam como defensores do Charlie.

O que aconteceu ao Charlie nada tem a haver com a liberdade de expressão. Trata-te de um ato de terrorismo. Terrorismo esse que tinha um alvo facilitado – haveria argumentos para o ter debaixo de mira. A luta de interesses velados e que podem levar a algo de mais sombrio. As massas com medo não se importam de perder a sua liberdade para terem mais segurança. Não duvido que os franceses vão através do Holland aka («c’est tres difficile» de cumprir as promessas eleitorais), rapidamente fazer aprovar leis que podem vigiar qualquer cidadão francês em especial se tiver a religião muçulmana. Isto e o tratado de Schengen vai ter umas revisões rápidas que vão visar certos e determinados emigrantes. As massas estão com medo e focam o que lhes atiram como o slogan #je suis charlie sem saber bem porque.

Como sumário deste triste acontecimento mediático a liberdade de expressão continua a ser ainda mais cinzenta e a liberdade religiosa parece que vai sofrer um duro revés. O direito à privacidade vai ser quase impossível e a presunção de inocência mais difícil. A igualdade de cidadania letra morta. A fraternidade com os imigrantes árabes um fóssil.
No fundo ficamos menos
livres, menos democratas e o Charlie mais popular. Só.

E o meu voto vai para…

Estas eleições europeias afligem-me profundamente. Estas batalhas politicas pelo eleitorado prenunciam um perigoso desagregar da democracia. A partidocracia portuguesa está esvaziada de idealismos politicos e não se sabe o que está ser discutido ou votado. É um mero ajuntamento de pessoas que trocam a sua pretensa ideologia por um caciquismo politico à boa moda portuguesa – que sempre existiu desde a monarquia constitucional.

Depois de um barão laranja e a brasa da esquerda virarem a casaca ao que sempre apregoaram, parece-me cada vez mais patente a prostituição evidente que as figuras públicas fazem por um bocado de poder. Não é nada de novo, recordo-me de Zita Seabra e de Helena Roseta que mudaram substancialmente de cores partidárias. Mas era noutro contexto e com um pouco mais de pudor. Estes casos de assumido vira-cassaquismo rápido, sem periodo de nojo ou atravesia do deserto, já não são propriamente inusitados nem nos espantam tanto como seria suposto.

A ideologia partidária desapareceu ao longo dos anos. Os lanjanjas e os rosas, apesar dos nomes, são meramente liberais. Pouco se sabe do que separa o programa eleitoral dos partidos do centro (se é que existe sequer um programa e ideias) e as diferenças saldam-se por um conjunto de discursos demagógicos e não por um ideal ou programa e que mudam ao sabor do vento e da opinião pública.

Por tudo isso. acredito cada vez mais no deficit democrático português que já é crónico . A democracia ficou refém de um conjunto de caciques que orquestraram a subida ao poder através de compadrios, padrinhos, afiliações em sociedades semi-secretas como a Maçonaria e a Opus Dei. O poder não caiu à rua, nem esta na Assembleia da Republica, mas sim nos jogos de interesses colectivos de grupos selectos de jotinhas e seus patronos e patrocinadores.

Os partidos financiam-se como entidades mafiosas de lavagem de dinheiro com donativos que não se sabem as origens e como entidades fornecedoras de poder aos seus líderes. Estes chefes, parecem mais capos, que são os mais apadrinhados e os que mais favores devem, incapazes de ter ideias, mas tão só verborreia demagógica que desmentem passado 24 horas. É vergonhoso perceber que vivemos numa denominada democracia que está podre de sentido e de verdade e que num ciclo vicioso tende a piorar.

É neste clima que vou votar nas eleições europeias, tão importantes e que tanto impacto têm no nosso futuro, mas que porém ainda não vi uma linha sequer do que os euro-deputados pretendem fazer no europarlamento. Que vão votar, em que ala vão alinhar. Nada. Zero de conteudo politico democratico. Por isso o meu voto deverá ir para o partido com o logotipo mais radicalou até piroso uma vez que se vou votar no escuro, prefiro que seja num grupo radical com falta de sentido de estetica. Ou talvez vote no que tenha mais Cs ou Os. Venha o Diabo e escolha!

Votar ou não votar, eis a questão

No rescaldo das eleições autárquicas fico com a noção que a democracia tal como a entendemos desde o 25 de Abril chegou a um momento de profunda degeneração e desarticulação.

A descrença na classe politica e da tal partidocracia,  ou seja desses clubes de tachistas, compadrios e associações semi-criminosas,  chamados partidos políticos,  atingiu tal nível que os votos nulos e brancos duplicaram.    Isto porque tudo somado as opções partidárias capazes de governar são do estilo da Coca-cola versus Pepsi-cola: ambas fazem mal à saúde, são um combinado de açucares e corantes e vivem à custa de publicidade para venderem o seu equivoco.

Eu cá vou começar a  preferir água da torneira.

História de uma vigarice

1. As Scut começaram mal e ameaçam acabar muito pior. Um Governo socialista idealizou-as como “as auto-estradas que se pagam a si próprias”. À época, muitos denunciaram a fantasia. Os socialistas, designadamente os ex-ministros João Cravinho e Jorge Coelho (nunca se esqueçam!), juravam que não: tudo estava planeado e as vozes que requeriam mais ponderação e cautela não passavam, dizia-se, de incertezas colocadas por quem não tinha imaginação para mais. Quando Guterres fugiu e nasceu o Governo de coligação PSD/CDS, fizeram-se finalmente as contas e percebeu-se a inevitabilidade das portagens como esforço de compensação para o negócio ruinoso para o Estado que os socialistas tinham engendrado.

Algum tempo depois, um outro Governo socialista chegou. Voltou a prometer a gratuitidade – muitos acreditaram e a vida das empresas e das pessoas daquelas regiões servidas pelas Scut foram-se compondo ao seu redor.

2. Depois, Sócrates fez o que mais o notabiliza: alegremente, pontapeou essa promessa eleitoral. Sem pestanejar, repetiu tudo aquilo que parte da Oposição dizia desde o início e afirmou a urgência das portagens.

Os consórcios privados cedo perceberam que o fluxo de trânsito iria diminuir após a introdução das portagens. De imediato, quiseram a renegociação da fórmula de pagamento que era baseada, precisamente, no número de viaturas que transitavam nessas vias. E, pasme-se, conseguiram todos os seus intentos – até os devem ter superado. Obedientemente, o Estado socialista renegociou o que as empresas queriam e como estas desejavam: a base da compensação às empresas (rentabilidade) passou a ser um conceito indeterminado, poeticamente denominado de “disponibilidade”. A partir desse funesto momento, o fluxo de veículos nas Scut era indiferente para os consórcios – estes, recebiam “rentabilidades” desmesuradas em qualquer situação.

3. O resultado foi desastroso. De acordo com uma auditoria preliminar do Tribunal de Contas (TC), realizada graças a uma réstia de vergonha que ainda consegue subsistir por aqueles lados e cujos resultados provisórios terão escapado para os jornais antes do tempo politicamente aprazado, os consórcios privados ficaram a ganhar (e o Estado a perder) 58 vezes mais com a renegociação do novo modelo de pagamento a pretexto da introdução das portagens. Se as notícias agora conhecidas se vierem a confirmar, a retribuição que o Estado terá de ofertar aos privados terá crescido 10 mil milhões de euros…

4. Quando as portagens surgiram, quiseram convencer-nos de que se tratava de um esforço imprescindível para ajudarmos o país a sair do buraco onde tinha sido enfiado pelos maus governos que nos têm assolado. Afinal, afundámo-nos ainda mais.

Já vi realizarem-se maus negócios mas nada que se assemelhasse a isto. Caso esta auditoria do TC seja autêntica, o desnível entre a inteligência dos privados e a gritante obtusidade dos negociadores do Governo é excessivo e suspeito: tudo indica que se trata de uma vigarice legal.

O processo das Scut revela que a incompetência deste Governo está muito para além da redenção. E constituirá um exercício de cidadania ficarmos atentos, nos próximos anos, aos destinos profissionais daqueles governantes, pretensos defensores do interesse comum, que participaram nesta marosca deplorável.

Sempre que os leitores passarem por debaixo de um dos pórticos e ouvirem o irritante sinal sonoro do identificador, quando descobrirem os débitos nas suas contas bancárias, lembrem-se de quem criou e prometeu aquelas estradas “sem custos para o utilizador”. Evoquem as promessas mil vezes repetidas pelos mesmos que as quebraram. Recordem os argumentos da necessidade do país nesta hora de aflição que nos foram impingidos quando nos fizeram pagar aquilo que tinham jurado ser gratuito. E recapitulem os números: o dinheiro dos nossos impostos, após as portagens, vai ser imolado 58 vezes mais dolorosamente do que antes.

Pois, como dizia o sempre presente ex-ministro Jorge Coelho, hoje do outro lado da ditosa barricada, “há pouca memória na política portuguesa”…

Opinião de Carlos Abreu Amorim no JN

Sobre as manifs

2ª parte – As razões
ou
Um basta à falência

Sábado dia 12 de Março, no dia que fazia dois anos de casado foi com satisfação e esperança que me dirigi até a Batalha para participar na manifestação. O porquê de me incluir nos protestos não foi por estar à rasca, uma vez que felizmente me posso considerar um desenrascado, mas sim por não poder compactuar com o meu silêncio com as políticas que transformaram Portugal, mais uma vez, num país sem futuro. E como eu, grande parte dos manifestantes. As palavras de ordem não eram muitas, mas nunca ouvi frases tipo «quero um emprego» ou algo dessa índole, mas sim só sobre a incapacidade dos políticos.

Grande parte desta ausência de futuro se deve à minha geração, que encarou a intervenção politica (muito erradamente) como coisa de fanáticos – uma reminiscência dos abusos do PREC a meu ver. Mas o que eu não entendo é que ainda haja a imagem nalguns meio que a manifestação de 12 de Março foi geracional e só acerca da precariedade dos empregos. Não foi só acerca disso. A manifestação não foi só contra a crise económica. Nem até só anti-governo. Foi tudo isso e muito mais. Espanta-me que muitas pessoas queiram reduzir tudo a pequenas parcelas da questão, a uma questão de jovens desempregados. Nas rua eles não estavam sós. Estavam as pessoas que ainda se interessam!

O que me levou a participar nessa manifestação – e que me encheu de orgulho e esperança por ter tanta adesão com a mesma motivação que eu – foi a necessidade de começar a dizer basta à actual falência politica. A falência que não é só governativa mas sim política, onde os nossos decision makers são caducos e personagens da nomenklatura partidária, agentes em última analise do status quo das últimas duas décadas. E isto sejam quais forem as siglas e cores que vestem, têm apenas o intuito de servirem o partido e os interesses e ambições pessoais e não o chamado servir a pátria e o bem-comum.

Manifestei-me contra a mediocridade dos políticos e a ausência de ideias políticas que possam regenerar o país, coisas que não abundam num regime podre e decrépito – o modelo democrático português precisa de uma transfusão sanguínea urgente. Precisa de ideias e ideais novos, e essencialmente de líderes que não estejam afastados do povo e dos cidadãos após anos de corrupção do poder partidário.