Apercebi-me com alguma comoção que o terceiro calhau a contar do Sol completou 20 orbitas em redor do mesmo desde que comecei a escrever aqui . Vinte anos é um número redondo, talvez redondo demais para se deixar passar em branco.

Estava eu na grande cidade e recordo-me como alimentava desencantos, desejos e aspirações a milhares de eventos que nunca que se cumpririam e tive a necessidade de ter um elo que me ligasse aos meus amigos e colegas na minha cidade. Existia a necessidade egocêntrica de afirmar que eu ainda existo, de partilha de vivências e até algum exibicionismo. E foi nesse registo que embarquei na escrita do Diário de um meliante.

Confesso que batismo deste blog/díario não foi muito feliz, em primeiro lugar porque eu nunca padeci de psicoses e em segundo lugar porque de meliante tinha muito pouco. No enredo da época, onde a internet era um campo de anonimato e se vivia a liberdade digital que o 11 de Setembro desse ano veio por fim, talvez apimentar o titulo do blog me desse o distanciamento para aliviar algum pudor ou timidez na linguagem e pelo menos isso foi conseguido.

Vinte anos passados recordo com nostalgia aquela data, mesmo que fosse um período da minha vida, carregado de emoções fortes e desencantamentos de um jovem adulto. À luz do que sei hoje posso afirmar que todo aquele histerismo fazia parte dos conturbados anos que se seguiriam. Por isso me confesso: muitas das razões que me compeliram para escrever o Psicótico resultavam de uma enorme tempestade interna e incapacidade para gerir o que eu desejava e o que estava disposto a abdicar para obter o que queria, quer na carreira, quer ma vida amorosa. E não foi fácil, manter como um bom malabarista todas as bolas no ar, tentando manter todas as encruzilhadas do destino em aberto sem me comprometer com uma direção definitiva que só existia na minha mente histérica. Claro que as bolas acabariam por cair uma por uma mas felizmente mantive a minha sanidade a custo de algumas tristezas e desilusões.

Volvidos vinte anos encontro a satisfação de ter tido a sorte de ter atingido um dos principais trofeus a que me tinha proposto: a mulher pela qual eu era secretamente apaixonado e que eu desesperadamente tentava chamar a atenção (inclusivemente escrevendo aqui) está agora casada comigo. Talvez não haja maior vitória sobre o destino que o facto de ter deambulado e batido com a cabeça nas paredes, a minha vida amorosa é recompensada com uma medalha de ouro. A família que constituí é o meu mais precioso tesouro que tinha desejado há exatamente 20 anos e presumo que poucos podem afirmar o mesmo.

Mesmo que algumas personagens, apenas referidas pelas suas iniciais tenham sumido da minha lista de contactos, apraz-me dizer que a esmagadora maioria faz parte do meu cotidiano. Algumas estão perto do meu coração, espalhadas pelo mundo mas dando sempre o pulsar da amizade que só se vai desvanecer na campa. A vida me é assim suave, felizmente.

Mesmo que a minha vida profissional não seja um mar de rosas, e que não esteja nem perto do que tinha imaginado há vinte anos, não me posso queixar muito. Mesmo que eu tenha envelhecido há ainda alguns bons resquícios de juventude e a maturidade não tem estragado em demasia o meu espirito sonhador. Ao fim ao cabo tudo é transiente e estou feliz e em paz.

Parabéns Psicótico.

50. Que ninguém procure o defeito nos outros; que ninguém observe as omissões e acções dos outros. Mas observemos os nossos próprios actos.


Dhammapada Tradução portuguesa de Bhikkhu Dhammiko

Acho que quando me lancei num evoluir de carreira mal ponderado e troquei a minha cidade pela grande cidade há já dezanove anos necessitava de um suporte emocional para não me sentir só.  Eu trabalhava na área de ponta e prestes a colapsar da dot.com, numa prodigiosa e meteórica empresa, Nela conheci novas personagens longe da velha economia que estava a trabalhar antes e lá formei fortes amizades e até paixões. Patrões mais jovens que eu, crescimento exponencial, permanentes projetos de trabalho envolventes e satisfatórios, ausência de horários rígidos.  Mas naquela primavera tudo começara a desmoronar-se, tão rápido como tinha surgido e que agora tinha que deixar para trás. Foi assim que o serviço blogger me pareceu uma ideia viável para estar em contacto com os meus colegas de trabalho, relatando a minha pequena aventura.

Já que gostava de escrever sobre temas íntimos, aos poucos tornou-se um espaço intimista, porém descontrolado, um blog/diário/whatever que necessitava para descarregar alguma carga emocional e em simultâneo e em público e que mesmo com alguns soluços se mantém como um fóssil de pensamentos que vou revisitando. Parabéns psicótico.

3 . Pintando o arco-íris

Quando a porta permanecia fechada a sete chaves e os dias teimavam em se repetir em clausura, a vida continuava. Para minha grande surpresa, viver fechado podia não ser assim tão mau. Junto das almas que mais amo, não me faltava o que de verás é o mais precioso podemos possuir: amor.

Preocupando-me no entanto com as notícias calamitosas acerca do alastrar do bicho, com a economia e o ganha-pão do nosso lar não podia respirar paz. Às vezes à noite acordava sentindo-me preso num pequeno pesadelo que afinal era a realidade. Talvez o que me prendia mais o peito era a segurança dos meus pais e dos meus sogros que não víamos nesse período. We are all going to die someday. Era talvez a ideia recorrente que me trazia a insónia insidiosa daqueles dias.

Não foi fácil enquadrar todos os pensamentos que me corriam na cabeça, a forma descabida de estar desocupado. Felizmente nós humanos, muito embora sejamos animais de hábitos, somos também muito versáteis. Estava já em contacto diaria via telemóvel com os meus amigos mais chegados, numa forma, qui çá, de entreajuda de comunicação e desabafo à distancia – memes, longos diálogos. piadas e pornografia q.b. . Já que não conseguia correr do outro lado da porta, dei por mim a fazer um plano de crossfit caseiro bem austero para manter a forma física. Quanto à mente aumentei a dosagem da meditação e fui mergulhando aos poucos no fascinante muito espiritual budista, algo que me deu ferramentas concretas de combate mental pandemia. Em particular o budismo tailandês da tradição da floresta, ouvindo os ensinamentos da Ajahn Chan e Ajahn Brahm que começaram a ser regulares nos meus headphones enquanto fazia as tarefas domesticas.

Logo depois tive a incumbência de pela primeira vez me aventurar além portas, buscar viveres que não chegavam pelas entregas ao domicilio. Isso e ir comparar mascaras e desinfetantes, algo que hoje já faz parte do nosso novo normal, mas que na altura ou estavam esgotados ou eram vistos como aberrantes. Colocar o pé no corredor fora de casa e calçar-me tentando não tocar em nada, além de me deixar semi-aterrorizado era de facto estúpido. O Estado de Emergência estava prestes a ser decretado nessa altura e quando peguei no carro e ver as ruas ainda cheias de gente, desprotegidas e sem distancia social pareceu-me algo saído de um livro do Stephen King, mas com esteroides. No supermercado, já com muitas prateleiras vazias mas sem máscaras sentia um pavor que nunca tinha sentido antes. Ainda para mais a minha cidade liderava o top de casos positivos. Quanto regressei a casa, e me despi depois depois de me encharcar de álcool para de seguida tomar banho fiquei com a sensação que aquilo não era um estilo de vida decente e que ninguém podia viver assim muito tempo.

Enquanto as crianças pintavam arco-íris com as inscrições de vai ficar tudo bem, eu senti uma amalgama de emoções. Pensar positivo faz bem, mas a realidade não é escamoteável. Não deixariam de haver mortos, doentes, empregos perdidos, e todo uma parafernália de comportamentos diferentes. Mas colocar à janela esse desenhos coloridos dá um sentido de comunidade de que não enfrentamos sozinhos estes tempos diferentes, mas sim em pé de igualdade com todos. E fazer parte de um todo é sempre mais fácil, mesmo que a mensagem de esperança fosse enganadora.

2 . Quando se instalou o pânico

Logo quando me vi em quarentena senti uma estranha combinação de emoções.  Já as escolas fechavam e as incertezas eram muitas, que o que me preocupou inicialmente foi colocar em segurança os meus. Ao sentir que o isolamento era a única via eficaz de se estar seguro, no meio de tanta informação errónea e pavor difundido nos média apercebi-me que havia a necessidade de me acalmar. Estávamos seguros. Isto na eventualidade de já não estar contaminado. Sentia um misto de pânico e alívio: mergulhávamos numa grande incerteza mas ao mesmo tempo eu sabia que estava a tomar a atitude mais sensata.

Quando surgiu a primeira segunda-feira que não saí para trabalhar nem levar as crianças para escola, a minha mente baralhada não assumia um registo de vida doméstica voluntária nem de descontracção. Afligia-me com a óbvia incerteza dos próximos dias e semanas (sem imaginar que seria mais indicado contabilizar meses). Primeiramente o terror pelo medo de adoecer com o vírus ou de o já ter transmitido aos meus pais, à minha mulher ou aos meus filhos, depois com a possibilidade de colapso económico que se poderia abater.  E aqueles pequenos prazeres da vida que me são tão caros, como correr ao fim do dia teriam de ficar em suspenso: era algo que estava do lado errado da porta de casa.

A primeira semana foi talvez a mais complicada. A minha mente não se adaptava e não queria dar sinais de preocupação aos meus entes queridos. Sei hoje porém, que apesar de tudo, era apenas uma mera nova realidade que me custava a assimilar e a entender. Todo o ser humano teme a incerteza, por muito aventureiro e corajoso que seja o seu temperamento. A grande questão que se coloca prende-se de como o encaramos. Se é algo que não podemos controlar isso motiva dentro de nós um turbilhão de pensamentos, expectativas e ansiedades que nos consomem.

Há mais de dois anos numa altura de bastante desassossego interno decidi tentar meditar. Eu pensei que fosse uma boa forma de apaziguar a mente, combater as depressões sazonais e diminuir o stress. Para meu espanto, a tarefa revelou-se bem mais difícil do que tinha imaginado. Meditar em si, não é muito fácil – estar quieto, a sós com a nossa mente liberta o tal cérebro primata que se recusa a serenar ou a obedecer a vontades. Mas com o hábito e com algumas meditações guiadas, a prática começa a dar alguns frutos. Agora que medito regularmente desde então, fiz-me valer desse caminho para encontrar alguma paz em tempos de pandemia. Nos primeiros dias, apesar de estar bem capaz de meditar profundamente a minha mente lutava na sua ansiedade em se tornar calma. Parecia de novo um noviço, que fechava os olhos e não sentia a calma que advém de quem segue o caminho meditativo.

Saber que um vírus, um pedaço de sequências genéticas, um parasita microscópico sem vida, fez parar o mundo tal como o conhecemos é como que absurdo. Mas de facto aquele ser minúsculo  abalou os alicerces das nossas convicções sociais, fez vacilar políticas e arrasou economias. Como algo tão pequeno e basicamente invisível provocou tal alvoroço fez-me pensar e também meditar numa questão que para mim é cada vez mais importante entender: tudo nesta vida é transitório. Mesmo as coisas que temos como dados adquiridos e imutáveis são de facto passageiras.  De repente a ideia de que coisas tão simples do nosso quotidiano tais como viajar, abraçar a família e os amigos, ir a um restaurante, ir a uma loja tornaram-se actividades perigosas e em breve proibidas. Tudo que considerávamos como as bases da nossa liberdade individual, da nossa sociedade de consumo em tempos de paz, não passavam afinal de actos meramente efémeros, sujeitos a imprevisíveis condicionantes do destino. A solução seria deixar ir… Ou algo assim, se é que o destino existe…

As notícias anunciavam um número crescente de mortos e unidades de cuidados intensivos começaram a encher-se. Em Itália o descalabro fazia-se sentir e em Espanha a hecatombe iniciava-se. As certezas eram poucas e obviamente aquela história de lavar bem as mãos não era o suficiente. Os sites de entrega de mercearias e supermercados online simplesmente deixaram de funcionar, tal era a procura, ou na melhor das hipóteses só fariam entregas para dali a umas duas ou três semanas, o que, dadas as circunstâncias, mais pareciam as calendas gregas. E assim foram aqueles primeiros dias de confinamento.

1 . Quando nada o faria prever

Logo no início de Janeiro senti que algo diferente e assustador se estava a formar, quando começaram a surgir notícias de um vírus na China. Mas longe de os meus pensamentos mais dantescos, iria supor que a realidade que daí surgiu fosse o que se acabou por derrubar sobre nós.

Talvez agora seja fácil de o dizer, mas quando lí as primeiras noticias que um novo vírus tipo SARS‌ estava a grassar numa cidade chinesa, (que nunca tinha ouvido falar) que tinha dez milhões de habitantes, senti logo um calafrio na espinha. Isto porque talvez me fizesse lembrar um desses enredos apocalípticos de ficção científica ou de livros de terror catastróficos. Foi de forma algo alarmista e hipocondríaca que repassei o meu temor à minha cara metade, e perante a ideia de começar a encher a dispensa de conservas, o que teve uma resposta muito reprovadora e porventura mais lógica. Eu de certeza estava a ver filmes e séries a mais…

Agora que a primeira vaga está a dar mostras de terminar, reconheço que o medo e o pânico que grassaram ao longo destes três meses foram feitos como numa história de Stefen King, com o terror irracional e inconsistente a estender-se passo-a-passo. Muitas vertentes deste medo eram inconcebíveis, impossíveis de serem previstas. O que ao princípio parecia apenas algo que acontece lá longe, foi-se aproximando aos poucos. Como um cancro foi envolvendo tudo e tornando-se inexoravelmente uma realidade. Um pesadelo que tinha saído de um conto de terror e que agora nos tinha engolido.

Foi logo a meio de março, nesse já longínquo março que me vi forçado a ficar em casa, numa quarentena voluntária uma vez que tinha estado em contacto com um dos primeiros casos conhecidos. O monstro veio bater à porta, sorrateiro nos últimos dias em que se poderia fazer um jantar, neste caso com os gimbras e Ma. P. , gente da velha guarda que gosta de conversa. Inocentemente uma semana depois, quando os alarmes começaram a tocar e as escolas a hesitarem no fecho, Ma. telefona-me sério que o seu rebento tinha dado positivo e que a quarentena voluntária seria uma boa ideia.

Na altura não entendi a profunda mudança que aquela notícia trazia, qual arauto numa tragédia grega enquanto o coro gritava de espanto. Depois quando se vislumbrou o estrago, percebi que a porta de minha casa tinha ganhado um novo peso e que se tinha fechado com uma enorme tranca. E‌ assim começou o meu longo confinamento e uma nova e estranhamente agridoce prisão.

The end of the earth is upon us.

Pretty soon it’ll all turn to dust.

So get up. Forget the past.

Go outside and have a blast.

Go a thousand miles in a jet airplane.

Go out of your mind go insane.

To a place you never been before.

Eat ice cream our you’ll lick the floor.

‘Cause, the end of the earth is upon us.

Pretty soon it’ll all turn to dust.

Goodbye my friends.

Goodbye world.

I’ll see you in the next life

letra de Ithaka