2002

Questiono-me se perdi a capacidade de escrever um par de frases interessantes. Na minha adolescência fervilhava de ímpetos que só eram refreados com um caneta de tinta permanente e uma folha de papel nívea e espessa. A caneta deslizava velozmente desenfreada e incólume a qualquer interferência externa. Á luz de um candeeiro, a avançadas horas da noite, o fulgor da alma lançava lufadas de palavras sinceras e íntimas, cheias de secretismo e magia.

Hoje, a minha capacidade de escritor desenfreado da noite está quase extinto. Já não ouço a musa, e as veias estão murchas, enquanto matraqueio um teclado gasto. Os ímpetos permanecem, só que esbatidos num nevoeiro serrado de mente cansada, e alma esquecida de como vomitar as ânsias do intimo. As tripas do nosso inconsciente estão amansadas por uma dieta rigorosa, na imagem que seguimos de normalidade.

Se na adolescência alimentava o secreto desejo de produzir poesia ou prosa literária que seria reconhecida, e qui çà, tornar-me um escritor famoso, pelo qual o instinto feminino se derretesse e idolatrasse o chão que eu pisaria. Mas o destino e o fado não o permitiram e condenaram-me ao esquecimento da banalidade dos leigos.

Recordo como se fosse hoje o dia turvo que queimei de impulso todas aquelas folhas já amarelecidas que se esbateram em chamas e fumo. Mais tarde julguei ter sido um mero sonho ou ilusão, e que a “Fênix Renascida” , “Mergulhando no Mar Absurdo”, “Doce terna adormecida”, “Sangue derramado” iam estar ao alcance da minha mão. Erro meu. Estavam mortas, reduzidas a pó e na minha memória só restavam cinzas de um subproduto disforme de noites de vigília.

Foram-se de vez, mas contudo descansam em paz, protegidos do meu revivalismo.
E quem sabe talvez a veia apesar de murcha ainda não secou totalmente. E tal como o mito da Fênix, renasça das suas próprias cinzas, ao contrário dos pelicanos côr-de-fogo.

Há muito anunciado, o fim do Passado, parece que finalmente se está a desenrolar. Digo finalmente, não que desejasse o enterro do Passado, ou o seu fecho, mas sim pelo alivio de ver o fim de uma agonia prolongada e arrastada, que tantas vitimas inocentes fez…

Passado é Passado, e não há necessidade de chorar por tempos idos. Para além de já ter exorcizado há muitos dos meus pesadelos o sapo-boi, (essa Hidra que todos que alguma vez se cruzaram com ela, a odeiam sem excepção por ser um ser vil, interesseiro e mais enganador e traiçoeiro que Judas Iscariotes) a sua morte anunciada há mais de um ano, apenas tarda de tão inexorável que é…

Espero é que a menina dos meus olhos – a d. – sobreviva, em outros moldes e que não seja esquecida ou fique pausada no tempo.

Imagem do  Passado   - R. I. P

Não vale a pena negar.

A vida é uma constante mutação inexorável. O nosso corpo envelhece logo a seguir ao primeiro berro após o parto. A nossa mente e consciência cresçam sempre até ser incapaz de funcionar. É isso. As coisas mudaram bastante na outra semana. O céu não desabou, nem foi preciso lançar os botes salva-vidas, mas a estabilidade quotidiana foi ligeiramente retorcida . Há um par de desvios por motivos de obras no meu dia-a-dia. Os semáforos não estão sincronizados e alguém deixou o carro mal estacionado a dificultar o trânsito. Gasto mais tempo para lá chegar.

Ch. Fazia anos e estive com ele no Sábado. Foi bom rever Ch. e JB. . Apesar de estarem na grande cidade, mantêm uma relação interessante com a minha cidade, e mantêm-se genuínos. Ch. continua a ter uma graça cáustica e a ser um bon vivant e enfant terrible .

E então veio Kitten. – Kitten chegou a uma espécie de estrelato, dominando o underground da cidade. O seu nome bastou para encher o Sá da Bandeira até às 8 da manhã e mesmo não tendo condições nenhumas, a plateia abanava ao ritmo da dança made or inspired in the 80’s. É já uma figura de culto e a produção Hollywoodesca em palco e a sua presença deitaram a casa abaixo. N. ainda teve um cheirinho amargo pois tinha que trabalhar dia seguinte. E Ch. parece ter-se rendido ao Kitten Fan(ky) Club.

Mas a chuva carrega melancolia e o frio a apatia. Os últimos dias são mais lentos a passar e não me apetece fazer nada. O Inverno geralmente tem o dom de me aborrecer e deprimir.
Preciso de novos horizontes urgentemente. Quem sabe N. me endromine uma viagem ao Brasil. Faz 5 anos que lá não vou, e fazia-me falta de voltar a estar empregnado naquele espirito e energia forte.
E mulatas! Miham – miham…
Quem sabe…

Estou cada vez mais amante da arte de antever o que vai na alma das pessoas. Dantes era algo que me passava totalmente ao lado: talvez porque não parava para ver com atenção as pessoas que me rodeiam. Ou talvez porque era muito novo e sem a serenidade que ouvir a voz interior dos outros obriga. Ou simplesmente não confiava nas minhas intuições…

Mas no último ano ouço a voz silenciosa e rápida do coração com mais intensidade. A intuição aumenta a cada vez que lhe prestamos atenção e não a questionamos sobe um prisma lógico.

As pessoas, as emoções e as circunstâncias nunca obedecem a equações matemáticas. O que é apenas verdadeiro/falso, sim/não, positivo/negativo nas nossas vidas, sem ter uma zona cinzenta de meia verdade, de nim, de neutro? Logo a lógica é apenas circunstancial e com atenuantes para os mortais…

Sem questionar, percebo melhor as pessoas, quer as suas qualidades menos aparentes, quer os seus pequenos defeitos. Noto mais as suas inocentes mentiras circunstanciais, quer as mais fabricadas e sustentadas novelas.

Mas algo não abdico de fazer: – dou benefício da dúvida, partindo do princípio que não se conhece essa alma. Mas agora as minhas antenas acertam muito mais.

Só é pena o radar se enganar um bocadinho quando aponta a algumas mulheres interessantes. São interferências da libido…

A semana passada começou muito triste. Soube que o Lello ia voltar a ser Lello, que a cunhada de J. morrera, que N. está a atravessar um momento de desamparo e esta sem rumo. A. também não tem muita sorte…

Só desgraças, e para piorar só mesmo os intrincados problemas para resolver no trabalho.

Mas o universo é feito de equilíbrios sóbrios e inexplicáveis. A balança da existência sucede inequivocamente equilibrada se pararmos para pensar. Só que esse equilíbrio surge a outros níveis e na nossa miudeza não as apercebemos. Afinal Lello-mor vai para uma situação melhor, por exemplo. O seu benefício talvez seja muito superior, nalguns aspectos e inferior noutros equilibrando-se.

Eu também abracei a notícia de que a empresa que trabalho e a melhor PME do ramo, segundo a revista Exame. Um prémio salutar.
E G. voltou para dar alguma pimenta à minha existência. Afinal não foram só derrotas. Foram também vitórias.

E o fim-de-semana foi muito melhor… mas isso é outra história…

Fica para mais tarde…

Já tinha sentido que a força centrifugadora e trituradora da grande cidade me ia atormentar. Como num fascínio constante, como algo de irresistível, mas que sabe de muito perverso e perigoso. A grande cidade é um inimigo latente que sorri e seduz a cada instante.

O lello-mor revive o seu karma e decidiu juntar os trapos para seguir viagem à grande cidade, terra de oportunidades que na minha cidade lhe são veladas. Buscar emprego não está fácil neste dias de depressão económica, (se não é que seja estrutural no nosso país) e como é tal um homem tem que sujeitar.

Para ser franco não tem que ser um drama, mas eu sei bem o que custa fazer tábua rasa do nosso território, do nosso circulo e do nosso cantinho em que se tem os pés assentes no chão. É piegas, custa a abandonar, eu sei.
Mas só evoluímos quando tomamos decisões e avançamos, nem que seja a custo, ou a ferro e fogo. A vontade de mudar e abrir novas opções, novos caminhos por percorrer, mas principalmente encontrar novos horizontes abre-nos a consciência. É a passagem do televisor a preto e branco da vida para uma Stereo Nikam. É como levar com Full Stereo Dolby Souround quando se está habituado ao rádio a pilhas do relato. É como um reclame da Old Spice após um filme do Manuel de Oliveira. Há o contraste que alarga os tais horizonte e potência a nossa alma, liberta a nossa consciência de impurezas e que em suma nos faz viver ao contrario das pessoas-carneiros.

Abandonamos o rebanho de tempos a tempos para ser raposas errantes em busca da nossa subsistência, nem que para isso tenhamos que atravessar o deserto. Enquanto o rebanho defina, a raposa deambula, come o pão que o diabo amassou, mas cresce e faz-se esperta e autónoma e forte. E é livre.

Ser-se Lello é dificil. A raça gitana é amaldicioda, proscrita e tantas vezes maltratada. Contudo é livre. Livre de fazer, de pensar, de agir. E tudo porque não tem nada a perder. Nem propriedade, nem casa. Apenas respeita os seus iguais. Os outros são os gajos. As pessoas-carneiros.

Coragem Lello-Mor. !

Lello amigo,
o povo está contigo!

Após uma semana de trabalho sem vida própria, esta carcaça velha estava numa de espantar os maus espíritos. Halloween como os anglo-saxónicos lhe chamam…

Por cá a noite das bruxas acaba por ser uma festa recentemente descoberta, com mais carisma wicca que tradição propriamente dita.

Usando um pouco de imaginação, e dando largas à fantasia, eu, M. e A. resolvemos embarcar numa das nossas fantasias preferidas. É verdade!

Feticismo ou não, o imaginário romântico (sec. XVIII) misturado com a sub-cultura vampiresca tem uma estética muito singular de um teor erótico algo estranho mas intenso. E eis-me num bar gótico na festa de Haloween!

Bizarro ou não, os meus olhos deglutiam avidamente aquelas criaturas pálidas, aquelas jovens com ar frágil mas simultaneamente perversamente poderoso e irresistível. O negro largo contrastando com decotes reveladores de zonas níveas. Aqueles pescoços circundados por faixas negras, dois quais nunca consigo desviar o olhar… As sombras negras realçando um olhar penetrante e algo demente…

A libido efervescente numa estética definitivamente fetichista ma non tropo….

A música fazia juiz ao clima e adensava o enredo, passando por alguns locais comuns da minha juventude como Sisters of Mercy, Mission, par citar os mais emblemáticos e kitch dessa vanguarda gótica. Mas havia lugar para sons mais elaborados, chegando mesmo a baixar até ao euro-dance.

Gostei, quero mais!

Vou demorar a recuperar dos exageros festivo-gastronómicos para que fui requisitado durante o fim-de-semana passado…

A gula será sem dúvida um pecado muito praticado nos tempos que passam. Acho que a cultura portuguesa sempre foi alicerçada nuns bons comes-e-bebes, tainadas, e vinhaça, mas ultimamente torna-se moda ir mais além… Não que eu me queixe, pois também sou um grande pecador…

MEA CULPA

N. fez anos. Como grande co-mentor do clube gurmet, seria uma irresponsabilidade não fazer um pequeno jantarzinho num dos melhores restaurantes da cidade. A Jo., fofa I., alegre A., loira J. eu, X., e P. tivemos um jantar excepcional, que se não fosse o adiantado da hora e o meu cansaço por uma horrorosa sexta de trabalho duplo, teria ficado nos anais…

Mas a piece de resistence seria o casamento no Sábado do R. e da lisboeta Amelia. J. , M, mais Ma. e a futura, também atenderam à chamada. A boda foi soberba após uma cerimonia bem bonita.

O meu caro amigo “Jonas”, com o qual fiz muitas noitadas estudantis e férias galegas, um louco Don Ruan (nem sempre bem sucedido), era o responsável pelo magnifico copo-de-áqua.

“Jonas” montou um estaminé de catering para bodas. Para ser franco há dois anos atrás, não iria imaginar que aquele complicado louco, muito histérico e amigo de proezas noctívagas indescritíveis, fosse capaz de montar um negócio com tanto sucesso – e diga-se de passagem – com tanta classe. Não que duvidasse da capacidade ou empenho do “Jonas”, mas sim se teria uma oportunidade do destino. E parece que realmente tem uma nova e boa estrelinha!

As estrelinhas do destino somos nós que criamos… As positivas ou negativas. A questão é saber como alcançar aquela que queremos que nos marque a vida.

O M. lá andou a babar-se por uma alfacinha e lá deu uma…
De dom Ruanito, enquanto eu e o J. nos pisgamos da Quinta de S. António para mais umas deambulações…

E o resto foi o cabo dos trabalhos…

Apesar de uma semana exaustiva, a fazer dois serviços em simultâneo (a filha de uma colega adoeceu), o que quase me deixou próximo de voar sobre um ninho de cucus… As ultimas semanas têm escoado entre o cansaço, excesso de horas de trabalho e ainda mais cansaço -> (como quando o disco do servidor do trabalho deu tilte e o backup era da semana passada -> resultado: 16 horas extras para recuperar a facturação e contabilidade).

Mas nem sempre de trabalho vive o homem, e dos cansados não reza a história.

R. velho colega da faculdade, ele também forçado a ser emigrante na grande cidade, está prestes a casar-se com uma ex-candidata a miss Portugal de Azeitão. Com esse mote, M., J. e eu arranjamos um bom pretexto para darmos uma escapadela a Vigo e voltar a nossa Galiza amada.
A principio o meu corpo estava a recusar a ideia de maus-tratos, já de véspera se queixava. Mas o sono veio e 14 horas NON STOP ajudaram a retemperar forças.

Nada dessas despedidas de solteiros que servem de metáfora masculina para ir às putas e tentar organizar, orgias, sorubas ou bacanais. Tratou-se mais de um simples passeio de descompressão, com um bom jantar, regado com “Côto”. Boa conversa, saudades daqueles tempos. «lembraste daquela vez que…», «que é feito da…», «e quando o fulano disse…» … Veio a segunda de “Côto”
Depois a tequilla en ferro da praxe, e as deambulações exigidas pela capela,o Chicago,o Ferrer…

Mas antes de recolher ao hostal “categoria” fomos
à capital do norte ibérico em termos não de má vida, mas sim em música alternativa – o Vademecwm.
Fantantico! O sítio é quase uma descida aos infernos e uma subida aos cêus em simultaneo. Diabinhas e anjinhas q.b.… O ritmo ribombava ao melhor estilo dos clubs mais conceituados da europa, com que nos perdemos para finalizar a noite. É costume ter lá concertos agendados do “quem é quem” da música alternativa, de artistas, DJs e MCs que possivelmente nunca viriam a Portugal.

Ainda segui umas horitas de batida e folia agradáveis.

E dizem as más línguas que aquilo dura até ás 10 da matina… Isso não sei, pois queria dormir umas horitas… E depois dormimos e voltamos a Portugal.

É como tudo. Resta-me uma semanita a tentar ver onde perdi a cabeça e se as dores musculares passam…