Fevereiro 2003

Acho que me repito, mas sem dúvida aquela música, que até acho meio básica, não me sai da cabeça.
“I will be Waitting” é a letra que me persegue, e vejo e revejo-me numa situação muito semelhante ao que estava antes, mas agora a parada é bem mais alta, com riscos dignos de um jogador inveterado e que nada mais tem a perder.

– Faisait vous jeux?

– Double or nothing!

Sou um navio que atravessa uma tempestade de emoções.
Os ventos da paixão sopram bruscamente e as ondas das emoções são vagas encrespadas.

Não antecipei os sinais da tormenta nem vi as gaivotas fugindo para terra. Estava um dia calmo, céu azul.
De repente veio uma brisa fresca e o céu encobriu. Mesmo antes de pensar em traçar uma rota para o porto de abrigo mais próximo, já trovões ribombavam e o mar encrespava. Eis que recolho as velas, visto o impermeável à pressa e já o vento uiva furioso e a água começa e cair das alturas em jorros.

Não entro em pânico, e tento dominar um medo terrível de ser tragado pelo mar. As ondas são já enormes.
Todas as ancoras são lançadas com esperança da rota traçada pelos elementos não me esmagar contra os rochedos em terra. Sem fuga preparo-me para enfrentar o centro da tempestade que se forma cada vez mais assustador. Avisto o tufão formando-se e com toda a esperança que me sobra, finco as mãos no leme com toda a força que encontro. Não será o temor da tempestade que me irá salvar. Nem tão pouco a minha vontade de sobreviver aquela tempestade assassina de marinheiros. Apenas o destino

Um lobo-do-mar sabe que as grandes tempestades não escolhem vítimas, nem reclamam sangue. Apenas se revelam quando menos se espera, como um teste dos elementos à coragem dos homens em navegar e desafiar o vasto oceano. Só os grandes homens do mar lhes podem resistir, mas no fim são as tempestades que os poupam, por serem valentes, ou os levam apenas por prazer.
Naquele momento que o navio trepa as vagas, descontrolado, apenas tentando enfrentar aquelas paredes de água salgada para não adornar e ser engolido pelo mar. Sei que parte da carga já está irremediavelmente perdida, mas isso sempre foi um risco que todos os marinheiros têm que assumir.

Seguro o leme com afinco e perseverança. Já não temo o tufão que se aproxima. Estou forte, mas sei que a minha vontade não me poderá salvar do destino.
Se Neptuno me quiser, assim será. Senão serei recompensado pela bonança e um porto seguro onde me esperam mil sonhos.
E tudo a tempestade decidirá, e tudo o tempo desvanece. Mesmo as grandes tempestades.

Neste momento a minha vida parece uma telenovela venezuelana. Resume-se tudo a muitos melodramas em simultâneo num enredo francamente mau, com muitas paixões assolapadas, ciúmes, desentendimentos, traições revirivoltas alucinantes, paixões intensas e amores eternos. Só não está dobrada em brasileiro…

Se agarrar o argumentista acho que o vou esganar na hora.

Porque o tempo destrói tudo.
Porque determinados actos são irrevogáveis.
Porque o homem é um animal.
Porque o desejo da vingança é um impulso natural.
Porque a maioria dos crimes remanesce sem castigo.
Porque que a perda do ser amado destrói como um relâmpago.
Porque o amor causa a vida.
Porque num mundo perfeito o túnel vermelho não existiria.
Porque as premonições não mudam o curso das coisas.

Porque é o tempo que revela tudo.
O pior e o melhor.

Irreversível, pretendia ser um filme choque, e como tal acho que foi talvez demasiado bem sucedido. O filme fala do crime e castigo e das consequências e de séries de acontecimentos em cadeia – mas visto de um anglo invertido, alias como o realizador frisa em imagens invertidas e dinâmicas, quase desconexas e enjoativas.

O clímax e desfecho primeiro, e só depois os antecedentes, minoram o ultra realismo e rudeza de uma violência explicita, com o assassínio brutal de Ténia com o crânio esmagado num antro infernal sado-gay. Mas depois (antes) o marido e o ex-namorado de Alex procuram no Rectum Ténia, mas depois forçar um travesti a revelar-lhe onde está Ténia, e depois descobre Alex brutalizada e violada. Os 9 minutos em que Alex é sodomisada por Ténia no túnel vermelho não são passíveis de serem vistos sem horror. O ultra realismo é mórbido e macabro. Só se pode desviar o olhar.

Irréversible peca por rodear-se quase exclusivamente da vingança e dos actos de violência que a antecedem e determinam e o seu desfecho, focando-os como a suas duas cenas fulcrais. Mas o mais impressionante é o facto de na verdade não ser algo muito diferente da realidade crua e brutal de uma violação. Mas depois a vida… a festa, o metro, a gravidez, a cama, a premonição . O Fim-principio.

Choose life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television, Choose washing machines, cars, compact disc players, and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol and dental insurance. Choose fixed- interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisure wear and matching luggage. Choose a three piece suite on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing sprit- crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pishing you last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked-up brats you have spawned to replace yourself. Choose your future. Choose life… But why would I want to do a thing like that?


Let´s go Porno!!!

Questiono-me muitas vezes se serei muito excêntrico. A verdade é que nas duas ultimas semanas, tenho me comportado como tal, em especial, durante o fim-de-semana. N. tem dado o mote de um desenfreado gosto pelo descontrole e alienação noctívaga, que passam rapidamente da euforia para a culpabilização após os pecadilhos cometidos. E assim se eu ponderar bem, apesar de o acompanhar como amigo que o ampara, qual anjo da guarda, também sei que a minha vontade não é forte pois quero partilhar essa necessidade de alienação e busca pelo desenfreado e ilusório ao ritmo em que não existe um amanhã.

Não admira que me tenha colocado numa posição de xeque-mate, oferecendo a Dama e deixando o Rei sem fuga possível, ao tentar fazer de um misto advogado do Diabo, cruzado com Grilo falante, e simultaneamente gozando cada momento dessa vida desenfreada. Se a minha vida neste momento esteja tão repleta de paixões intensas é também verdade que tenho o coração tão partido, e tantas vezes colado com cimento-cola que o meu autocontrole está a dar de sí.

Creio que será essa a síndroma da falésia: sei que é perigoso caminhar pelos precipícios da falésia; aviso todos desse perigo, mas contudo o fascínio e a beleza dessas falésias e das ondas rebombando nas rochas escarpadas é tão imenso que somos atraídos por um magnetismo irresistível. A vertigem é um alento e também um suicídio. Dar valor à vida e agarra-la com todas as forças e pelas mesas razões saber que a posso perder devido aos riscos que saboreio.

O segundo síndroma é o do Guru. Não creio que quando a minha chama se apagar me vão oferecer um par de asas ou um halo. Apenas sei que me comporto com uma exasperante lucidez e iluminação. Não sei se é ilusória, mas as pessoas até me dão ouvidos, e dou por mim a ter rasgos de sabedoria, de imagens de equilíbrio e vomito palavras de conforto e esperança. Não é que não as sinta profunda e sinceramente. Mas o facto é que as tento transmitir, compelido e motivado por algo que me é mais forte. Não sei se será mais um belo sinal de maturidade, ou se é apenas um irritante tique da alma. O facto é que M., N., I., Ju, So., J., A. entre outras pessoas que me são queridas ouvem de mim palavras profundas e me sinto como aqueles seres de éter que sussurram ao ouvido dos seres humanos palavras de conforto e esperança e animo. Uma imagem como as Asas do Desejo de Wim Wenders, em que a realidade de vários planos de existência se confundem.

Estou sereno e contudo energético. Cansado e com endurance acrescida. Envelhecido e mais jovem que nunca. Desmoralizado e confiante.

Tio Patinhas preso por pedofilia!

PATOPÓLIS – O milionário Howard Duck, mais conhecido como Tio Patinhas, foi preso ontem, acusado de pedofilia. A polícia encontrou em sua caixa forte vídeos nos quais ele aparece em situações comprometedoras com seus sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luizinho. Testemunhas disseram que ele fez o mesmo com o sobrinho mais velho, Donald, que, traumatizado, passou a andar sem calças durante toda a vida. Maga Patológica, que seria obrigada a assistir às cenas, acabou se transformando numa psicoPATA.

Ju. quebrou a barreira das 3 décadas com alguma indiferença; N. passa por uma segunda adolescência; A. está fechado em casa, M. é vitima de assédio sexual; I. paira nas suas dúvidas, J. está sem equilíbrio; P. está fantastico, G. mudou-se para a casa nova, anseio rever S. e R.; Doutor P. agarra-se à carreira; Inspector P. cerca os Carlos Cruz; Passado já não existe; Bob e os patrões deixam-me saudades, Ch. não dá notícias; F. nunca mais a ví; Kitten volta este fim-de-semana; Pete tem nova consulta; o meu outro lado tem que ser actualizado; D. é cada vez mais resmungão; F.M.T. parece com energia; J.B. segue brilhante; M.L. vai se casar; Jonas está a ter os frutos merecidos do seu trabalho, e eu?

E eu?

Boa pergunta.

Um café é sempre um clássico pretexto para o reencontro. É algo de social que apresenta um leque de impulsos de debate, que no nosso país assume a nossa pacatez e o gosto algo intrincado na nossa cultura das tertúlias.
Mas um chá tem também um conceito bem semelhante se bem como pude constatar, nos dias que passam, pedir um chá, mesmo num salão de chá apenas nos dá direito ao saquinhos standard.

Foi bom reencontrar B. e A. e estar na cavaqueira quer sobre assuntos sobre a iluminação, quer sobre o último desastre da conquista dos céus, ou sobre o império do mal. De certa forma as horas passam quando comunicamos e partilhamos ideias. Não sei se será um tom asceto-filosófico que a proximidade das 3 décadas nos proporciona, ou se será apenas pura e simples lucidez da longevidade.

Mas como B. recordou, estamos a virar a minoria, contra todas as probabilidades, que após certa idade ainda tem o espirito suficientemente aberto para provar novas músicas, novas comidas, novos pensares, sem se resumir ao cinzento, preto no branco do ”eu gosto/eu não gosto” ou do ”é bom/é mau”. Creio que é esse o segredo da eterna juventude, cuja fonte está mesmo ali ao lado da luz com que quisermos brindar a nossa massa cinzenta, ou alma se prefiram.