Março 2003

Amor funesto antes da hora desejada
Numa paixão malfadada e apressada
Tomo-te e tomas-me com paixão
Divides sem pudor meu coração

Paixão ilógica sófrega de amor
Fugindo à solidão com clamor
Possuo-te e possuis-me audazmente
Beliscas em luxúria a minha mente.

Quero-te
Quero, mas não te tenho!
Queres-me
Queres, mas não me tens!
Aguardo pelo nosso momento
Ansiosamente

São dias de cansaço e perdição.
Se I. tem dúvidas, C. é atenciosa e S. insinua-se.
Assim não dá!

A peça XXX dos Fura dels Baus mereceram todas minhas expectativas, antecipadas vários meses antes, desde o anúncio que iam presentear a minha cidade com mais uma presença.

Adepto incondicional da grande companhia catalã, acabei por convencer Ju., I., N., e a adorável loirinha a não perderem esta oportunidade única de dar ao mamarracho do coliseu algum significado.

O show XXX é um bocado diferente ao que já conhecia dos Fura. Nesta peça o palco existe, mas é apenas transposto e decomposto em camadas, ao contrario da inexistência física das outras peças que assisti. A deconstrução do teatro clássico, abalando todos os seus alicerces volta-se para outro factor, menos radical em filosofia, mas provavelmente mais fanático em temática.

Mas Fura é Fura! É manipulação, choque, inovação, espectáculo, provocação. E nisso a companhia não perdoa nem um milímetro.

Buscando o mote da Filosofia de Alcova de Sade, XXX é um espectáculo para adultos, bebendo e debitando pornografia, sempre hard core, explorando quase ao máximo conceitos de atentado ao falso pudor.

A genitália feminina e masculina é sempre um ícone presente, a nudez dos actores aparece rápida e desenfreada. A luxúria, o sadismo e o masoquismo aparecem retratados de forma simples, mostrados com toda a naturalidade e sem eufemismos.

Os textos estão perfeitos e os quatro actores dão o corpo a devassidão da peça, sem que para isso sejam transporcados em demasia. O sexo é explicito, mas afinal é sempre implícito, algo que os Fura nunca deixaram de fazer como ninguém, a manipulação das imagens e conceitos até à perfeição, numa viagem às ilusões reais do sexo ao vivo.

Em cena as imagens sucedem-se numa simbiose de vídeo deixando o palco também de ser um limite horizontal para ser também um limite vertical onde se projectam as cenas, as sombras, o outro lado semi-enevoado, os voos das personagens, o êxtase, a pornografia e a beleza.

As actrizes vivem algo de exigente, e os tabus caem por terra, em especial ao receber uma actriz de filmes porno, a ser uma dominatrix motora de toda a peça, devidamente assistida por um Sade contemporâneo.

Fica presente na retina um amargo de boca e alguns instintos primários algo mexidos, alguma parte negra da sexualidade relembrada, ou o pavor de uma abordagem pelas personagens. Mas o mais estranho e polémico do XXX é sentir que Sade é acima de tudo contemporâneo e está entre nós, na nossa cultura, erotismo, sexualidade e depravação, como se o seu livro tivesses sido escrito há uns trinta anos.

Fura sempre. Foi brilhante. Cada vez mais fã.
Quem sabe esperar mais 3 anos para que voltem novamente?

A poeira que se levanta da corrida é demora a assentar, e nestas condições nada melhor que os cavalos de corrida darem todo a seu galope para meterem o pescoço à frente da poeira. Afinal ninguém gosta de comer pó, ou deixar de ganhar o prémio 10 para 1 apostado anteriormente.

Por sinal, sabia que apesar do carnaval ter sido antes uma altura de deixar cair máscaras, seguido de um jantar russo na quarta-feira de cinzas com dois turbilhões femininos que me tomam de assalto, estava a precisar de uns momentos sem freios ou esporas.
N. que tal como eu está a fazer as duas voltas ao hipódromo, aderiu incondicionalmente a projecto de nos aventurarmos na grande cidade numa sexta, saindo directamente do trabalho.

E assim foi, como se construiu uma noite memorável digna de pertencer aos anais noctívagos dos bon vivants que somos, em termos de grandes momentos históricos.
A viajem começou bem, e rapidamente nos fizemos ao destino de um dos mais memoráveis jantares, um repasto digno de ser identificado como ambrosia de deuses. O arroz de pato do Tia Alice em Fátima era divinal, isto para não falar no Dão e nas sobremesas que deixam enormes saudades.

Depois fomos ao Até ao Fim na Marina da Expo onde o irmão de N. tem o seu estaminé, e nos obrigou a embutir non-stop num ambiente muito agradável e com bastantes conversas com nativos da grande cidade.

Taxí e aqui vamos, para não perder tempo. O DJ Kitten estava no seu posto elevado, algo distante ao que esta habituado, começou a trabalhar a casa lentamente, e os nativos começaram a aderir, muito embora se notasse que e o que mandava era a malta do norte, qual verdadeira escola de samba do Rio a mostrar como é que se samba no carnaval de Ovar.

Seguiram-se 6 horas de um dos mais fortes Club Kitten jamais vistos, tudo graças à excursão montada para o núcleo duro percorrer os 300 km. Dir-se-ia que o Lux foi invadido pelos incondicionais –

  • a menina da cabeleira cor-de-rosa,
  • as três estarolas: a loura, a ruiva (com que eu me passo) e a morena,
  • a namorada do kitten e amigas,
  • Designers muito, muito, muito muito…boas,
  • e claro, a brigada gay – ou o Gays´r´us;

…enfim malta com dress code eletro-trash, fiel desde o momento zero, e aquisições fanáticas como eu e o N. que apesar de não parecermos tão exagerados no fanatismo religioso do catolicismo do gira-discos do DJ Kitten, somos provavelmente os maiores gruppies pára-quedistas.

Gin após Gin a pista foi sempre da Invicta, no que eu considero um dos maiores sets de sempre. O Club Kitten levou ao rubro o Lux as 5, quando encheu e os nativos tentavam acompanhar. E lá para as 7 e muito, desapareceu sem se despedir, deixando logo a sala triste.

E rezam os conhecedores que nunca o staff do Lux parara para ver, de boca aberta o que se ouvia e dançava.

Estes tipos do Norte devem ser tolos…

Bom depois foi o pequeno almoço e recuperar o sono até às 6… Não sem antes N. gritar pelo Cacilheiro para o Barreiro e outras palavras de ordem, como Mouros, seus… .
Afinal um homem não é de ferro.

Deplorável, ou talvez não aquele baile dos Vampiros. Estava mesmo a precisar de arrebentar em termos de escala de Richt e proporcionar-me algum descontrolo.Sábado deu direito a domingo até às 8 AM , e um enigmático SMS para N. as 5:22 AM “Deda estar socorro”?!
Estava a precisar deste breve momento de descontrolo, e até deu para trocar duas de conversa com o grande senhor Kitten, e até encontrei a bela I. por lá, cheia de risinhos. E como estou numa fase de dilúvio, C. tem feito tudo para estar comigo. Isto dos aeroportos tem que se lhe diga…

Durante o concerto, que era bastante sufrivel, DJ Kitten, vulgo J. é a simpatia em pessoa e respondeu-me envergonhado, ao lhe dar os parabéns por sexta estar no LUX como cabeça de cartaz que não estava a espera de tanto sucesso. Já o conhecia da Matéria Prima e de uma noite no Triplex que eu já meio acelarado lhe estendi uns aplausos.
Afinal Kitten frisou que tinha iniciado o Clube Kitten e não iniciado a carreira de DJ Kitten. É interessante ver que Kitten prefere ser um pioneiro de uma club culture do que um DJ famoso. E é de facto esse pioneiro. Mais e mais gente, novas gerações se rendem as suas performances electro-trash, que não são um mero pretexto de dança, mas sim um verdadeiro catolicismo com direito a missa completa em cada mês.

Bom mas isso já não interessa. Sexta estou no Lux para Club Kitten@Lux