Julho 2003

Gosto de virar páginas. É sempre um marco importante das nossas vidas virar uma determinada página, dar um assunto por encerrado e iniciar um outro processo de vivência no nosso caminho rumo à (i)mortalidade.

Vejo-me a virar a página com bastante suavidade depois de sentir que nunca mais estava a terminar a leitura daquele texto, que embora belo, estava demasiado comprido. Por isso os meus dedos demoravam a pousar no canto da folha para roçar e mudar de página. Agora inicio uma nova leitura, num texto que parece ser mais fluído e interessante. Novas aventuras e sentidos atentos que serão embalados pelo desenrolar de uma nova história, numa leitura renovada.

Foi com um misto de tristeza e satisfação que recebi a notícia que Pete retornará ao seu país. Portugal foi-lhe ingrato, mas ele admite que o facto de não se ter esforçado mais para falar português quebrou as hipóteses de se integrar neste país. Isso, e a atitude e certas portuguesas típicas que gostam de manter romances e esperanças dúbias, sem interesse em concretizar o esforço de sedução… Maus tratos aparte, Pete parte e deixa saudades.

Fico com pena de não ter estado mais vezes com esse amigo e brilhante astrólogo britânico. Mas fazer-lhe-á bem fugir deste país onde “nada funciona, ninguém chega às horas, onde há muita corrupção, onde os alunos são mal educados“, onde vai sentir falta “das pessoas honestas e verdadeiramente genuínas“. Para um inglês sobreviver em Portugal é algo realmente complicado. Pete vira também a sua página, e de certeza estará mais feliz back in London.

Reserva-me o direito de um fim-de-semana que me permitisse algum descanso e pacatez. Talvez conseguisse meditar e por em prática alguns ensinamentos. Mas nada disso sucedeu. Logo na sexta-feira descobri que ambicionava antes, e de forma ávida, toda e qualquer folia a que pudesse deitar as mãos, mesmo que, com resultados quase catastróficos.

Um jantar com Inspector P. e N. revelou-se um repasto revivalista e simultaneamente enternecedor, devidamente regado a um tinto único que me colocou em dois tempos na lista de quem tem lugar reservado no purgatório. Cheguei a casa já a chuva encobria um sol demasiado alto para que não me sentisse envergonhado, repetindo mentalmente que o meu juízo é algo exageradamente volátil.

Na pacatez da ressaca, vislumbramos que a euforia da noite anterior, serve de um merecido tubo de escape, mas que não perdoa em termos de desgaste de motor. O uso intensivo de aditivos na combustão pode causar danos à máquina que nem um mecânico credenciado possa reparar. Felizmente o Mestre fez-me uma visita para compensar a nostalgia de uma praia chuvosa, e trouxe-me a sua companhia sempre bem-vinda. Perdemos ainda alguns neurónios no nosso envolvente vício e pusemos o crochet em dia. A insistência da pluviosidade intermitente e o meu sono impediram qualquer sortida mais atrevida, ficando-me pelos ares costeiros meios desertos, numa pacata companhia de outros tempos.

Dormi até não poder mais e Domingo, nenhum dos meus planos se poderia concretizar, recheado de companhia, visitas, amizades, em ternos momentos de velocidade bem lenta, reflexivos e relaxantes, já sob um Sol generoso . O isolamento que me propunha não existiu, e muito provavelmente não voltarei a ter um espaço languido antes que o Verão vá a sepultar.

Estranho é assistir embevecido ao pequeno baby boom do meu circulo de amigos. Acho que os meus olhos brilharam varias vezes perante as lindas filhotas do Inspector P. e do Bi. Enternecem-me as crianças pequenas, creio que estou a desenvolver inconscientemente um instinto paternal exacerbado. Creio que o meu relógio biológico está-me a dizer que são horas de assentar, talvez tirar a sela do cavalo e vender o Colt, mais o cinturão de pistoleiro e as esporas da praxe das texanas. Talvez seja hora de cortejar aquela jovem moça de familia em vez das visitas às rameiras enrugadas do Salon, e criar uma família. Talvez seja mesmo chegado o tempo de arranjar a tal bonita casa na pradaria…
Ou talvez não. Talvez eu tenha que ser um pistoleiro veterano, deambulando entre um deserto de cactos e cascavéis até que uma bala com destino traçado me apanhe.

As manhãs de Verão que se transmutam, com nuvens cinza e chuviscos tímidos, são para mim muito pesarosas e tristonhas. Reflectem um acto falhado do calor, como se o Verão fosse impotente, incapaz de concretizar o seu amor.
Guio-me pela luz, ardente, cálida e ofuscante de um sol radiante. Faz parte de mim, o rush da luminosidade do amanhecer, forte e intensa, quase ferindo a vista na sua horizontalidade, muito embora praticamente só o veja nos dias que ainda não fui à cama.

Acordar sobre o manto do astro-rei é sempre o prenúncio de um dia de boa disposição, de um cérebro alimentado logo cedo de estímulos luminosos, satisfeito, farto quando ainda estava recrutar neurónios para as funções matinais. A luz é a minha pastilha. Li algures que à indivíduos que sofrem de uma maior sensibilidade à luz. Algo a ver com uns enzimas que o cerebelo produz, assim que a retina lhe traduz a existência de raios solares. É um acordar do lagarto primordial que há em todos nós. Possivelmente sou demasiado lagarto para ter agilidade numa zona com um número meramente razoável de horas de insolação. Talvez necessite de procurar um novo habitat, onde o Sol me queime com os seus raios constantes e não fugidios.

Estou algo apático em relação a uns desafios que se me deparam. Acho que a ignição ainda não se fez sentir, apesar de tudo aparentar estar a encaminhar-se para os seus devidos eixos.

Voltar a ressuscitar a falecida D. e provar que a sua flat-line cardíaca é apenas ilusória é um desafio complexo, mas que abraço voluntariamente com prazer.
Foi na D. que até hoje trabalhei com mais prazer, com um sentido de responsabilidade e empenho que nunca tinha suspeitado em mim, até ao seu descarrilamento nas incongruências e lutas palacianas do Passado que levaram a um hara-kiri agonizante e longo, depois do meu bater da porta. Fora as envolvências maquiavélicas do seu final, aprendi os prazeres de trabalhar em equipa com A. e R., quase sempre para lá do limite do dever, por uma causa nobre e também pelo bichinho de escrever sobre o que gostavamos. Era a menina dos meus olhos e hoje, apesar de não ter as expectativas de recriar aqueles tempos áureos, gostava de lhe proporcionar um destino honesto que a D. sempre mereceu.
O futuro ditará a sua sentença num presente em aberto sem sombras de Passado.

Entretanto Dr.P. volta à America do Sol, e sem o saber vai aterrar directamente na maior festa do mundo nesta data. É um gajo sortudo e estou roído de inveja. Se o soubesse teria movido mundos e fundos para o acompanhar.

Faz dois anos que iniciei este diário algo confuso. Muita água passou debaixo do moinho deste então, muitas linhas e pensamentos desconexos, memórias encapuçadas e atribulações em que este meliante se viu envolvido.

Nenhum destes retalhos parece fazer sentido, mas reunidos, seguindo a cronologia com que os depositei na Internet, algo interessante parece surgir da amalgama de textos e frases: forma-se um estranho retrato evolutivo, desconexo de lógica com pinceladas abstractas, mas que sempre me deu um estranho prazer e que agora forma um bolo de memórias fermentadas.

O Psicótico nunca pretendeu ser uma afirmação narcisista, nem um enigmático pedido de ajuda sobre uma vivência menos conseguida, consciente ou inconsciente. Não foi um repositório de conhecimentos triviais ou uma pseudo-obra literária. Tão pouco foi um show off da night life, ou roteiro de diversão. Provavelmente foi tudo isso e simultaneamente nada disso.
Trata-se somente da minha manta de retalhos, uma cápsula do tempo aberta em permanência no éter do ciberespaço, partilhada ao mundo sem intimidades em demasia, mas que apenas se destina ao próprio autor.

Parabéns Psicótico