Agosto 2003

Ooooooh – stop

With your feet in the air and your head on the ground
Try this trick and spin it, yeah
Your head will collapse
But there’s nothing in it
And you’ll ask yourself

Where is my mind
Where is my mind
Where is my mind
Way out in the water
See it swimmin’

I was swimmin’ in the Carribean
Animals were hiding behind the rock
Except the little fish
But they told me, he swears
Tryin’ to talk to me to me to me

Where is my mind
Where is my mind
Where is my mind
Way out in the water
See it swimmin’ ?

With your feet in the air and your head on the ground
Try this trick and spin it, yeah
Your head will collapse
If there’s nothing in it
And you’ll ask yourself

Where is my mind
Where is my mind
Where is my mind
Ooooh
With your feet in the air and your head on the ground
Ooooh
Try this trick and spin it, yeah
Ooooh
Ooooh

Where is my mind – SURFER ROSA – Pixies

Um micro-dia de férias para recuperar do Paredes de Coura, polvilhado a praia, ida ao banco e ao barbeiro.
E agora sem Net.

Não percebo a violência. Em miúdo deparei-me com a adrenalina da força e da luta máscula e sentia nas veias um pulsar animalesco logo que era interpelado de forma mais provocatória. Basicamente agia instintivamente, tomando um papel que julgava ser honrando, tendo um corpanzil para isso entre os miúdos da minha idade.

Um dia, que a minha reputação de pequeno arruaceiro que não levava desaforos para casa, foi posta à prova, sendo manipulado por outros miúdos do liceu, espicaçando-me. Era apenas um galo de combate, ou melhor um garnisé. Pedi contas a um miúdo com mais dois anos que eu e provavelmente mais 5 ou 10 centímetros de altura. Levei de resposta um uper-cut bem inflingido, mas isso não me tocou verdadeiramente: apesar de eu ver estrelas não senti o sangue a jorrar-me pela boca enquanto a minha mão direita lhe apanhou a garganta. Julgo hoje essa loucura com tristeza, mas naquele momento seria capaz de o sufocar. Só a suplicas de desespero do adversário e a três ou quatro pacificadores que nos tentavam separar o larguei.

Não contente, passados alguns minutos um adversário ainda mais imponente veio interpelar-me. Empurrão e murros. Vou ao chão, levanto-me e de novo a fúria assassina. Desta vez tremi de raiva, possesso. Não estava sequer naquele local, apenas com rapidez letal procurei a garganta, ignorando pontapés e murros. Era um primata que num relâmpago agarrou novamente pela garganta a sua presa. Depois vi o desespero naquela face em que as carotidas eram esmagadas por uma força compressora motorizada a demência. Atónito parei.

Percebi que a violência era, e o que eu tinha de mais desumano: uma força irracional capaz de me destruir, num rasgo de escalada de descontrole furioso. A minha reputação instalou-se no liceu como simpático miúdo, capaz de virar uma fera assassina a quem ninguém deve provocar. Vacinado desta minha faceta negra, nunca mais fui solicitado para rixas, aprendendo uma importante lição da vida: somos humanos por opção e animais por essência.

Aprendi a controlar-me e a entender que a violência nada me dará, a não ser a minha própria derrota. Seja qual for o resultado de uma confrontação fisica prefiro ser um humano cobarde, do que um viril macaco corajoso.

Capeia antiga

Resolvi dedicar estes dias quentes do pino de Agosto para rever as minhas raízes e visitar os meus parentes, que revejo tão irregularmente. Não sou achacado a reuniões familiares, mas apetecia-me mesmo rever minha anciã avó, meus tios e principalmente meus primos, que há tantos anos não revia.

Fiz-me à horripilante estrada que serpenteia a Serra da Estrela, com uma tolerância zero invisivel, agora totalmente a monte, sem ter passado por um único carro da BT.

Cheguei à Raia, com reencontros emocionados, sangue de família a borbulhar, embora me sinta sempre algo incomodado algo este tipo de manifestações. Sou demasiado reservado e contido infelizmente, para ser alvo de atenção quando a intimidade não é assim tão profunda. Mesmo assim deu-me uma enorme alegria todos aqueles reencontros.

Logo fui encaminhado para a praça de touros onde a Capeia Arraiana das oito aldeias se ia desenrolar. A Capaia Arraiana é uma tradição de lide do touro muito estranha e particular, que mesmo remontar ao tempo dos Iberos, não se conhecendo tradições similares. Apesar de me desagradar o mau trato aos animais, sendo a Capaia uma corrida onde o animal enfrenta o homem numa espécie reminescente de ritual de mistificação, onde não há sangue, nem nenhum objecto de tortura.

A Capaia Arraiana é uma espécie de garraiada, mas que é antecidada pelo Forcão, um enorme triangulo em carvalho solido, com várias traves de sustentação que atravessam o triângulo e onde três toros sólidos, dois em forma de V nos lados desse triângulo e um na bissectriz do angulo interno desse V.

Na dianteira de cada extremidade do V existem as galhas, onde o touro se for bravo investe. Sustido em força por 20 a 30 rapazes solteiros da aldeia raiana, o objectivo é suster as investidas do touro, oferecendo-lhe as galas durante o embate, evitando a todo o custo que o bravo animal contorne o V ou levante o forcão atacando assim os desamparados homens do forcão. As manobras do pesado triângulo, exigem um esforço enorme em peso e coordenação e não mais de cinco minutos pode o forcão ser empunhado pelos valentes. O touro, acaba por estar também exausto, por vezes atordoado pelas marradas na madeira solida, é agora alvo de uma pega, depois de cuidadosamente pousado o forcão. Alguns mais corajosos tentam agarrar o touro pela cauda ou pela cernelha, mas raramente isso é possível.

É um espectáculo algo bizarro, mas realmente esta tradição popular muito singular, parece remontar a tempos esquecidos, dando um efeito onde se respira uma luta de honra e valor, mas principalmente um significado: a união dos homens pode vencer as forças da natureza.
O touro regressa vivo depois da corrida, e os bravos recontam depois na Raia a sua experiência as belas moças raianas.

Mas eu estava doido por sentir o Sol espreitando pelas colinas, mergulhando lá na Serra, deixando os vales dourados entre o pasto doirado e os pedregulhos granito grisalho revestidos por turfas de giestas. É um quadro de uma beleza que me estoura o coração. Sentindo vento do final da tarde, já poisadas as poeiras, sentindo os cheiro da terra agreste da Raia, brilhando sobe um céu azul, reconheci alguns tempos de meninice, assim como parte das minhas raízes feitas carne.

Creio que nenhum homem se pode conhecer, se não sentir que parte de si deriva das suas raízes ancestrais, embebida na cultura e valores. Em parte sinto-me beirão e tenho orgulho nisso.

Antony Quinn

A nossa fisionomia nem sempre pode estar dentro de padrões que consideramos medianos. Foi num jantar relâmpago, junto ao mais místico castro na costa portuguesa, numa tasquinha à antiga lusitana, que a conversa motorizada a Muralhas e afins, se encaminhou para os antepassados de cada um, baseados na nossa aparência.

Fui identificado como grego, algo que nunca me tinha apercebido, nem identifico com facilidade junto ao espelho. Serei eu um Zorba, o grego, de fisionomia pouco moçarabe como a maioria dos portugueses? Dizem que sim, embora eu talvez me visse mais na antiguidade clássica como fenício, uma vez que as chances de percorrer no meu sangue uma só gota grega são muito escassas. Nada de espartanos ou filosofos, antes comerciantes e navegantes.

Sendo N. um aparente escocês, mas nada avarento, C. de ascendências judaicas, S. seria faraónica. Bom e o coitado do delicioso polvo é que se danou, devorado naquele castro ancestral e lusitano.

Subsisto em grande parte por ter a graça do destino de me brindar com surpresas que me alegram a vida. Sem o antever, num momento ou outro, em que a minha alma se sente mais só, ou mais ansiosa por ardis do momento, sou abençoado por pequenos abalos que me sustentam e fortalecem.

As surpresas que me arremetem, das pessoas que amo e gosto, por vezes gestos simples ou palavras sinceras, por vezes actos generosos e altruístas ou carinhos abnegados, criam em mim uma forte alegria, fé na vitória e vontade de avançar.
Apesar dos desapontamentos que me flagelaram há uns bons meses, tive a sorte de ter anjos-da-guarda atentos que me fizeram um vigília voluntariosa e desinteressada, dando-me a força anímica para me fortalecer e reconstruir os espaços onde antes só haviam ruínas.

Como vigas mestras, essas singelas surpresas ajudam a manter erecto este singelo edifício que vou edificando. São elas cimento, tijolo e betão armado, que me reconfiguram no espaço e na forma.
É verdade que os meus arquitectos e engenheiros nunca se vão entender, na obra que é a minha essência quotidiana sem projecto no papel, nem alvará da Câmara Municipal. Talvez as fundações tenham sido refeitas demasiadas vezes devido às fragilidades anteriores, causando consideráveis atrasos e derrapagens orçamentais. Mas hoje o estaleiro já vai alto, e o fervilhar de obreiros não para.

O estaleiro está completamente anárquico e desorganizado pois sou um péssimo mestre de obras, mas sei que o meu engenho e perseverança conseguirão edificar um pujante e robusto edifício, capaz de suportar abalos sísmicos intensos. Toda a obra está suportada por estruturas sólidas da minha consciência, contando também com a ajuda de reforços e materiais pré-esforçados que sustentarão qualquer abobada megalómana que possa eventualmente decidir elevar. Por isso sei hoje que não serei mais uma Torre de Babel, sujeita à derrocada eminente e a divisão das vontades e línguas ou um gigante de pés-de-barro, sujeito à queda pelo seu próprio peso.

A cabeça estala, o estômago reclama. Anseio por uma retemperante brisa marinha e de meia-hora de silêncio em total comatose afundado nos meus ombros ao Sol.
Depois logo se vê. E estará Lua Cheia…

As minhas tardes de trabalho tem sido algo delirantes. Não sou, nem nunca serei um problem solver, pois não tenho ainda a calma e paciência de santo para gerir de forma mais ou menos sofisticada uma série de enigmas. Torna-se irritante deambular entre um número de incógnitas que vão crescendo à medida que vamos descobrindo mais variáveis. Como se o crime se adensasse à medida que conhecemos mais factos, que por sua vez soltam no ar mais questões por responder, num circuito vicioso.

No entanto dá-me algum prazer exercer um bocado a faceta inquisitória ao estilo metediço mas discreto de Hercule Poirot, mas infelizmente perco na impotência de não conseguir com toda aquela simplicidade desvendar aqueles terríveis mistérios tão deliciosamente britânicos da Agatha Christie. Esse desafio mostra-se esmagador para este detective de trazer por casa, pois os casos acumulam-se rapidamente e por cada vez que as células cinzentas vêem luz, outros dois estranhos desaparecimentos ou aparecimentos.

Seriamente eis-me a deambular com um caderninho nas mãos e a minha velha Palm para os cálculos e notas mais estranhas, tentado entender porque raios aqueles mastodontes de 120 kgs desapareceram, ou porque obra do diabo sobram aqueles geringonças cromadas. O local do crime fervilha de calor, envolto num mistério denso, e com personagens que usam demasiada diplomacia a responder ao meu pequeno inquérito. The perfect plot!

Estranho é sentir que às tantas desta vez o detective não tem a mais pequena pista e parece que todos os suspeitos tinham um alibi perfeito.
Só me falta o bigode meticulosamente retorcido e desvendar todos estes puzzles…

Sacré Bleu! Mon Dieu!