Setembro 2003

Estou ainda embriagado por o mais puro dos néctares. O seu sabor escorre ainda lentamente pela minha boca, prendendo o meu pensamento nesse gosto profundo de prazer, plenitude e felicidade.

Estou a beber o néctar dos deuses num cálice trasbordante, capaz de saciar o insaciável, convicto de que nada mais necessito, além dessa ambrósia divina que me transporta ao Olimpo. Que mais posso desejar?

A vida nunca nos deixará de nos surpreender. Esse é um postulado fundamental da nossa breve passagem por este mundo. As surpresas que a vida nos reserva são tão inusitadas e inesperadas, tão abruptas que não as podemos antecipar. Só as podemos abraçar e sentir que uma nova etapa recomeça, reconhecendo que o destino nos reserva um caminho diferente do que tínhamos antecipado.

É necessário encarar estas mudanças de norte, com um espírito aberto e atento, observando os obstáculos, não com pânico e desespero, mas sim como fasquias a serem ultrapassadas ou contornadas. É fácil esquecer que nenhum parto é sem dor, nem nenhuma transição se faz esforço. Mudar não é um facto calmo, mas sim uma revolução sangrenta que regurgita todos os fantasmas, que faz rolar cabeças e reclama todas as gotas de sangue que pode, para que o que necessitava transmutar-se, mude de facto a sua realidade e essência, nem que estale, ou se quebre em mil minúsculos pedaços.

Faz anos que a minha vida sofreu um volte de face surpreendente. Dou-me conta que foi nesse ponto distante está na precisa bissectriz da minha história, da minha viagem no tempo. Foram duas metades tão diferentes e intensas, com tantas coisas de positivo e de negativo, mas tão equitativas na formação do que sou hoje. Foram duas etapas distintas dilaceradas com mais profunda ruptura física e intelectual, que me alicerçou para a minha caminhada mais entusiasta em que agora me encontro. Numa nova bissectriz, desta vez tão plena, consciente e doce, mesmo que escorra o sangue revolucionário.

3 – Um sorriso da Lua

Sinto que vou ganhando lentamente a liberdade através de um parto difícil e doloroso, mas que mesmo assim me proporciona a maior das felicidades. Por muito que custe, por muito que me seja angustiante, a força que me atraí para ser finalmente livre, encoraja-me e preenche-me.

Sou um ser que viveu nas sombras da noite demasiado tempo, agrilhoado aos mais fúteis e mais isolados conceitos de vivência, ansioso por uma luz, por uma escapatória de um labirinto da banalidade. Enjaulado no medo de ser aquilo que sou, enquadrado em mil formas de camuflagem.

Mas bastou um raio de luz da Lua para que todos os esconderijos e prisões começam a desabar, deixando-me pronto a fugir, ainda preso perante um milagre tão doce. Infelizmente, sou um prisioneiro quase que já esqueceu o que era a liberdade, e imagina que fora da sua prisão que não conseguirá sobreviver num mundo a que não estava habituado.

Mas quando se deseja, quando se vê esse sorriso da Lua, e se sente essa libertação, e se é alvo dessa dádiva imerecida, um prisioneiro pode ser livre. Estarei em breve livre das prisões graças à fé e amor purificador, à luz de uma Lua Cheia que me renova, preenche e sorri para mim.

2 – Na corda bamba

um receio que se vai vencer

Tenho que aprender a não sucumbir com alguma facilidade à pressões e sentir-me como se estivesse numa corda-bamba que abana, perdendo o equilíbrio que me sustenta à vida.

Culpo-me por não ter essa experiência, essa capacidade de me equilibrar quando o vento sopra mais forte e temendo a queda, forçando movimentos mais bruscos e perigosos de pânico, movidos a uma estupidez irreflectida.

Num futuro próximo vou com mais confiança e certeza, ignorar o abismo que se estende debaixo do arame, seguindo pé ante pé, sem pestanejar, seguro que nenhum vento, seja qual for a sua intensidade, não me fará precipitar numa queda fatal.

1 – Marés vivas

Com a chuva miudinha de uma manhã fria, tenho a sensação que o verão recebeu uma estocada mortal e está já ausente num céu de tom cinza que prende a luz, devolvendo apenas a claridade pálida.

Abruptamente no inicio do fim-de-semana meus diques transbordaram num manancial de emoções não esperadas e intensas. Não estava à espera por ser atingido por um relâmpago tão ofuscante, seguido dum terrível ribombar ensurdecedor. Os elementos internos entraram numa arrasadora tempestade, numas vagas encrespadas, num vento uivante.

O mar sacudiu-me e mergulhei na profundidade de um abismo negro, onde o salitre da renuncia enegreceu toda a luz que a custo me sustenta. As vagas de uma maré viva revoltada abalaram todos os diques, todos as barras, todos os portos seguros onde me refugio das tempestades, e para meu desespero, toda a negritude fétida das profundezas, das sombras tomaram conta de mim.

O desnorte momentâneo de um marinheiro frágil não se pode repetir como as marés intensas do fim de verão. Ora cheias sugando a terra costeira, ora baixas pondo a nu, o fundo lamacento sempre coberto por mar, essas são as marés de uma tempestade sempre anunciada, sempre natural. E as ondas fortes e intensas chocam com este cristal que se desfaz em mil pedaços logo envoltos em espuma e sugados na corrente.

Esqueci-me momentaneamente que a minha bússola não falha, nem que o meu farol jamais se apagará e por isso as marés são apenas um ponto de passagem de retorno infinito que sempre se repetiram e sempre se repitirão.

Estou algo alarmado e receoso. Tudo porque no meu âmago estou a pressentir que o meu futuro se modifica de forma abrupta. Todos os pequenos planos, todos os passos a curto prazo parecem não fazer mais sentido, num volte de face muito delicioso do destino, que me envolve e transforma.

Como se um vendaval se abatesse sobre mim tudo esvoaça em meu redor, sem que eu consiga discernir do que se trata. É rápido como o vento quente que rodopia à minha volta e me abraça e sacode numa nova sensação. Páginas do meu diário esvoaçam por preencher roçando o meu corpo, circundando-me e questionando-me se vou escrever novas passagens cheias de fulgor e mudanças. São páginas em branco, níveas e espessas, que numa coluna de redemoinho se cruzam e revolvem, questionando-me. Perguntam-me por novas passagens, novas encruzilhadas do destino, por um novo plano de existências, mutações e destinos.

O Sol brilha e como num sonho a luz invade todo um horizonte azul, pleno de serenidade e calor, enquanto o vento transporta as folhas numa espiral interminável dum branco intenso cortando o céu azul como uma faca de gume afiado.

E levando a pena, hesito olhando um tinteiro de ouro, repleto da tinta negra com que vou elevar-me com uma nova musa esplendorosa e generosa. Tanto por escrever, tanto por viver!