Março 2007

Podemos muitas vezes esquecer-nos de como a vida é um conjunto emaranhado de momentos. Momentos sem consonância se os enquadrarmos isoladamente, se os remexermos apenas cronologicamente na nossa memória.

Por vezes dou-me conta de que situações aparentemente despropositadas acabam por se tornar peças de um grande puzzle, que isoladamente nada representam a não ser um quebra-cabeças. Mas se tivermos a boa-ventura de sobreviver muitos obstáculos afinal estamos apenas perante mais uma peça da engrenagem que vai funcionar perfeitamente no fim.

Tenho vivido muito quebra-cabeças cujas soluções só se encontram quando chegou a vez de serem solucionadas, e é importante relembrar-me que o puzzle que é a vida é um conjunto de peças que se têm que juntar. Mais tarde ou mais cedo.

Era tempo de sentir
Esse rescaldo de paixão
Num amor audaz e pleno
Cabal de fé e certeza
Fico sereno a sorrir

Abre-se o céu e o sentimento
Não chora mais o meu coração
Limpo-me do veneno
Passado de uma alma mártir
Bruscamente feliz

Sinto esse afecto
Dentro da contemplação
Esse Amor eterno.
Deixam-se as flores
As pétalas caem

E pergunto:
Feliz és minha?

Se você disser que eu desafino, amor
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Só privilegiados tem ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar
Meu comportamento de antimusical
Eu, mesmo mentindo devo argumentar
Que isso é bossa nova, que isso é muito natural
O que você não sabe, nem sequer pressente
É que os desafinados também tem coração

Fotografei você na minha Rolleiflex
Revelou-se a sua enorme ingratidão
Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar, viu!
Você com a sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados,
No fundo do peito, bate calado…
No peito dos desafinados
Também bate um coração!

Desta memória eu quereria dizer…
Tão apagada agora… quase nada resta
porque ficou tão longe, nos meus anos primeiros de ser homem.
Uma pele como de jasmim… Na noite

de Agosto… Era de Agosto?…
Mal relembroos seus olhos…
Eram, suponho, azuis…
Ah sim, azuis. Azuis como safira.

A Primavera ainda não começou oficialmente, mas eu já sinto o ar leve que o corpo se revela, ávido de aventuras e de calor renovado nos horizontes sem limites das possibilidades.
Algures antes do tempo, tudo parece que se renova para um novo ciclo de fecundidade e momentos de excitação.

Quem se questiona, quem tem a capacidade de imiscuir-se no seu próprio mundo interno dos porquês existenciais tem tendência para se perder num labirinto metafísico que escapa a capacidade da mente humana.
Nunca se encontraram certezas ou axiomas acerca do que nos define ou qual o nosso trajecto na vida.Buscando as razões, ou se preferirem o sentido da vida, esquecemo-nos das sua essência.
Porém há algo que devemos entender, ou pelo menos tentar entender:não estamos aqui por mero acaso. Isso seria muito redutor…

Voltei até à grande capital medieval – era um projecto que eu acalentava à muito, não só porque eu falhara o seu ex-lí­bris como também uma bebida fumegante me ficara no imaginá¡rio, entre muitas outras actividades lúdicas.

Mas o essencial e que eu estava munido de duas estrelas polares da minha vida, que me iriam guiar com certeza a momentos únicos. Catedral de SantiagoE assim foi. Com sofrimentos de frio, peripécias de devaneios temporá¡rios, com barriga cheia e bem regada, muitos quilómetros muitos momentos de calor. Mas a cereja foi mesmo ir até à antecãmara onde o relicário se encontra. Foi comovente não pelas relí­quias em si, mas sim pela ideia de me encontrar no âmago do alvo incontáveis peregrinações ao longo de séculos, algo que gerou tanta fã, exigiu tantos sacrifí­cios e de certa forma tocou tantas vidas. E só pude presencialmente ver o cubí­culo que gera tanto atracção. Solene posso afirmar que me impressionou. Gostei daquele frio galego e faço questão de repetir se faz favor.