2009

O palhaço compra empresas de alta tecnologia em Puerto Rico por milhões, vende-as em Marrocos por uma caixa de robalos e fica com o troco. E diz que não fez nada. O palhaço compra acções não cotadas e num ano consegue que rendam 147,5 por cento. E acha bem.

O palhaço escuta as conversas dos outros e diz que está a ser escutado. O palhaço é um mentiroso. O palhaço quer sempre maiorias. Absolutas. O palhaço é absoluto. O palhaço é quem nos faz abster. Ou votar em branco. Ou escrever no boletim de voto que não gostamos de palhaços. O palhaço coloca notícias nos jornais. O palhaço torna-nos descrentes. Um palhaço é igual a outro palhaço. E a outro. E são iguais entre si. O palhaço mete medo. Porque está em todo o lado. E ataca sempre que pode. E ataca sempre que o mandam. Sempre às escondidas. Seja a dar pontapés nas costas de agricultores de milho transgénico seja a desviar as atenções para os ruídos de fundo. Seja a instaurar processos. Seja a arquivar processos. Porque o palhaço é só ruído de fundo. Pagam-lhe para ser isso com fundos públicos. E ele vende-se por isso. Por qualquer preço. O palhaço é cobarde. É um cobarde impiedoso. É sempre desalmado quando espuma ofensas ou quando tapa a cara e ataca agricultores. Depois diz que não fez nada. Ou pede desculpa. O palhaço não tem vergonha. O palhaço está em comissões que tiram conclusões. Depois diz que não concluiu. E esconde-se atrás dos outros vociferando insultos. O palhaço porta-se como um labrego no Parlamento, como um boçal nos conselhos de administração e é grosseiro nas entrevistas. O palhaço está nas escolas a ensinar palhaçadas. E nos tribunais. Também. O palhaço não tem género. Por isso, para ele, o género não conta. Tem o género que o mandam ter. Ou que lhe convém. Por isso pode casar com qualquer género. E fingir que tem género. Ou que não o tem. O palhaço faz mal orçamentos. E depois rectifica-os. E diz que não dá dinheiro para desvarios. E depois dá. Porque o mandaram dar. E o palhaço cumpre. E o palhaço nacionaliza bancos e fica com o dinheiro dos depositantes. Mas deixa depositantes na rua. Sem dinheiro. A fazerem figura de palhaços pobres. O palhaço rouba. Dinheiro público. E quando se vê que roubou, quer que se diga que não roubou. Quer que se finja que não se viu nada.

Depois diz que quem viu o insulta. Porque viu o que não devia ver.

O palhaço é ruído de fundo que há-de acabar como todo o mal. Mas antes ainda vai viabilizar orçamentos e centros comerciais em cima de reservas da natureza, ocupar bancos e construir comboios que ninguém quer. Vai destruir estádios que construiu e que afinal ninguém queria. E vai fazer muito barulho com as suas pandeiretas digitais saracoteando-se em palhaçadas por comissões parlamentares, comarcas, ordens, jornais, gabinetes e presidências, conselhos e igrejas, escolas e asilos, roubando e violando porque acha que o pode fazer. Porque acha que é regimental e normal agredir violar e roubar.

E com isto o palhaço tem vindo a crescer e a ocupar espaço e a perder cada vez mais vergonha. O palhaço é inimputável. Porque não lhe tem acontecido nada desde que conseguiu uma passagem administrativa ou aprendeu o inglês dos técnicos e se tornou político. Este é o país do palhaço. Nós é que estamos a mais. E continuaremos a mais enquanto o deixarmos cá estar. A escolha é simples.

Ou nós, ou o palhaço.

Crónica no JN de Mário Crespo

Sou todos os dias horrivelmente torturado por um rádio do escritório onde a sintonia esta encravada na Rádio Comercial. Nada se pode comparar a um play list tão deplorável e de tão mau gosto. E pior, o orçamento não deve dar para mais de 30 músicas que se repetem todos os dias quase a mesma hora.  

Nada me afecta mais os ouvidos como ouvir pela 10ª vez na semana o grande hit músical dos anos 80 ´I want to know what love is a ponto de me dar um profundo mal estar. Acho que preferia estar a 10 metros de uma betoneira sem tampões nos ouvidos!

Uma moça
De lá do outro lado da poça
Numa aparição transatlântica
Me encheu de elegante alegria
( Ai, Portugal, ovos moles, Aveiro )
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria
E uma preta
( Parece que eu estou na Bahia )
Tão Linda quanto ela, dizia
No seu português lusitano:
“Pode o Caetano tirar uma foto?”
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria
Arte Nova, um prédio art-nouveau numa margem
Em frente à marina-miragem:
Os barcos na Ria. E depois
Uma taça sobre o pubis glabro, um estudo
Nenhum descalabro se tudo
É sexo sem sexo em nós dois
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria

Música de Caetano Veloso

Actualmente ninguém tem tempo para reclamar amizades antigas, apenas se guarda numa agenda complicada um hipotético jantar de Natal onde os convivas recordam façanhas de há mais de uma década. Porém isso é a ordem natural das coisas, uma vez que o passado é algo que apenas persiste nas memórias e no presente há uma vivência nova. 

A minha geração demorou a crescer, com a ideia do el dourado económico e profissional dos idos anos 90. Pensava-se que tudo seria um mar de rosas e haveriam empregos de topo para todos os que ficassem com o canudo. Não havia pressas e a vida (boa) era para aproveitar e assim decorreu a mentalidade da época.  Hoje os trintões não se podem dar ao luxo de continuar com uma mentalidade tão tacanha. Como um amigo observou, um livro lido em noventa teve outro sabor, quando lido agora, com outra maturidade. Talvez tenhamos mais critérios, talvez haja mais sapiência, ou simplesmente estamos verdadeiramente velhos demais para ser tocados por coisas inconsequentes.  É passado.  Já foi. tempos idos. 

Mesmo assim não deixo de esconder um sorriso quando ocorrem momentos revivalistas. Talvez porque também é salutar recordar. E como diz o poeta: «Recordar é viver»