Considerações

Nos últimos anos tenho aumentado o meu interesse pelo desporto das massas. O novo ópio do povo, ou se preferirem o futebol, acaba por nos apanhar como uma espécie de polvo.

Para onde quer que vamos, qualquer jornal que abrimos, qualquer noticiário que vemos na TV, somos bombardeados com informação irrelevante acerca  do futebol nacional e internacional, debates semanais acerca de clubites entre os três grandes.

Se por um lado estou meio farto de todo esse futebol, não deixo de deixar apaixonado pelo meu clube de eleição, o FCP.  Este infelizmente atravessa um mau momento, depois de uma época intensamente dourada, deixou-se cair em mares mais revoltos. A incapacidade de um treinador hoje deu-me mais um desgosto, porém não será por isso que vou abandonar o meu amor. Só não quero é ouvir falar em futebol até ao carnaval…

Se há algo que eu não aprecio é a organização metódica, apesar de lhe reconhecer a imperiosa necessidade. Sou desorganizado por essência, ou melhor a minha forma mais eficaz de arquivo de documentos é o método do vulcão onde um maço de papeis se amontoa à semelhança de uma chaminé de um vulcão em que no centro  estão os documentos mais recentes e importantes ao passo que à medida que nos afastamos do centro as coisas arrefecem…

Por isso participar num processo de inventário para mim é algo de tremendamente aborrecido e contra natura  e está na minha lista de interesses logo a seguir a ver uma reality show da TVI durante quatro horas seguidas. A minha mente desorganizada não alinha muito bem com essas tarefas organizativas e nada como ressacar o inicio do ano com contagens maçadoras e repetitivas. Felizmente há que dizê-lo este ano não me afetou particularmente, pois há sempre a bonança que se segue a estas pequenas tempestades.

Começa o ano, comem-se as passas e fazem-se os desejos para os próximos 365 dias. É assim a tradição.

Este ano fiz os meus desejos só depois de agradecer a bênção de estar vivo e de saúde, rodeado de uma família que amo muito. Que mais pode um homem desejar para ser feliz?

Já no primeiro dia do ano enquanto adormecia o meu diabrete mais novo, com o estômago a latejar de um almoço muito substancial e com os doces como mandam as regras, dei por mim a pensar que  não necessito de mais nada para ser feliz. Para além da espuma dos dias, da rotina diária que nos escraviza existem esses elementos mais importantes que tudo o resto.

O amor incondicional que nos enche o coração, a partilha da nossa breve estadia no terceiro calhau a contar do Sol, a paixão, o saborear e o desfrute da vida, alheio aos medos mundanos e das intermitências da vida é o que nos faz verdadeiramente felizes. Por isso este ano preferi ser grato e apenas desejar ser capaz de fazer que os que me rodeiam  sejam felizes.

 

A política interessa-me e simultaneamente dá-me um enorme nojo. Primeiro porque gere o presente, o nosso dia-a-dia, direta ou indiretamente, e além disso é uma espécie de planear do futuro que envolve toda a nação. Porém a repulsa que me apoquenta é enorme e prende-se com as personagens que temos na campo político que temos.

Depois das eleições assistimos uma guerra palaciana, entre ajuntamentos improváveis e compadrios insólitos, agendas ocultas e insultos. Dramas teatrais com tomadas de posse de governos de duas semanas e a atitudes de um Presidente da República que mais parecia um dirigente desportivo. Tudo se jogou debaixo da mesa e os perdedores que se acharam vencedores fizeram birra.

Foi talvez demasiado triste e deixou óbvio que por detrás de divisões de doutrina e ideias políticos apenas se escondem egos e ambições e não o civismo e cidadania que são a génese do que idealizamos por democracia.

Não nos enganemos que o que chama um líder ao poder não é o dever de estado, mas sim a ambição de poder, mas atualmente neste Portugal infelizmente não há líderes. Tão só não há líderes, como também os que tentam fazer esse papel não passam de técnicos maquiavélicos de intrigas de bastidores. São pessoas que fizeram carreira na política sem darem mostras de nenhum predicado a não ser a retórica, troca de favores e movimentos de bastidores. São tão só lambe-botas que chegaram ao poleiro. E como é só isso que são capazes de fazer, seus únicos predicados, tornam-se dirigentes de um país totalmente incapazes de governar e fazer reformas necessárias.

E assim parece que a nossa democracia se vê mergulhada num ciclo vicioso de governos medíocres e ausência de lideres capazes. Mas pensando bem esse foi sempre o cariz da história portuguesa: somos um país e um povo com potencial desbaratado por chefes incapazes.

É com uma enorme vergonha e até repúdio que descubro nas redes sociais tanta gente expressando a sua xenofobia. Tudo porque nos é pedido, a nós portugueses, para darmos acolhimento aos refugiados sírios.

No meio do desastre humanitário que é guerra civil Síria é confrangedor ler tantos disparates acerca de emigrantes árabes como se todos fossem uma cambada de adeptos do ISIS infiltrados na Europa. A santa ignorância faz com que pessoas pacatas mostrem a fraca fibra moral. A Síria é das poucas regiões do médio oriente onde conviviam várias religiões, inclusive a cristã. E a julgar pelo andar na guerra naquele país, serão esses cristãos que mais temem pelas suas vidas a ponto de tentarem chegar apesar dos inúmeros perigos aos tolerantes países europeus. Mas ao que parece, para muitos países europeus essa tolerância está só escrita nas suas constituições. O medo e o ódio acerca destes acontecimentos muito me recorda o pesadelo de há 70 anos com os senhores das suásticas.

Neste caso, a estupidez humana não para de me surpreender: muito porque a falta de cultura e a iliteracia imperam cada vez mais na era da Internet – e ao contrário do que eu suponha – quanto mais informação (e desinformação) a circular, mais fácil é manipular os estúpidos. É para piorar tudo, os estúpidos têm voz nas redes sociais e as suas afirmações ignorantes chegam sempre aos ouvidos de outros patetas que preferem ler mensagens de medo e ódio, do que simplesmente consultarem a wikipedia.

Ajudar quem está em perigo de vida é um dos lemas teóricos da racionalidade humana, a solidariedade uma das premissas da vida em sociedade, seja qual for a religião ou credo. E manifestamente isso está esquecido.

O conflito da Síria já se iniciou em 2011 e tem escalado numa guerra civil hedionda com radicais islâmicos a cometerem as atrocidades que têm vindo a público. A triste realidade dos refugiados sírios inunda os nossos telejornais há anos, e nós europeus não quisemos saber.

Inicialmente chegaram os clandestinos tunisinos e líbios oriundos de uma primavera árabe – que se tem vindo a revelar um dos piores pesadelos do século XXI – é que os europeus começaram a ver com outros olhos o problema que era o mediterrâneo.

Não tardou para que se vislumbrasse as tragédias sucessivas da travessia do Mare Nostrum. Poucas foram as semanas que não houvesse noticias de naufrágios e barcaças atoladas de gente desesperada com crianças e que ceifavam vidas as centenas. As imagens da guarda costeira italiana a recolher os tais clandestinos ou os seus corpos foram frequentes.

Só quando começaram a chegar barcos carregados de refugiados sírios os dirigentes políticos começaram a mostrar preocupações acerca da catástrofe humanitária que decorre há já cinco anos no médio oriente.

Durante 2015 começou-se a dar outro êxodo e este agosto milhares de refugiados e «clandestinos» terão perdido a vida nessa travessia desesperada. Não vi grande contestação e repudio pelo que estava a acontecer. Os europeus estavam de férias provavelmente.

E eis que se deu uma pequena tragédia entre muitas, mas que foi fotografada de uma forma icónica: o corpo de criança afogada numa praia na Turquia resultado dessa travessia desesperada. Só então, parece que nós europeus despertamos. Não eram números nas noticias, não eram refugiados que tentavam saltar cercas ou atravessarem túneis. Eram os restos mortais de um pequeno menino morto no mar. Uma imagem que valia por mil, ou melhor, milhões de palavras. E finalmente , nós europeus percebemos que existe uma catástrofe humanitária em que centenas de milhar de seres humanos tentam fugir à morte e entrar na pacifica Euripa e no seu desespero de atingir um porto seguro estão dispostos a correr todos os riscos pois já não têm nada a perder.

E o que ainda me custa mais é que se discutem quotas entre os líderes europeus acerca de quantos refugiados cada país da união europeia está disposto a receber, enquanto outro menino e seus pais tentam fugir da morte e entram numa outra barcaça.

Para espanto de alguns a Grécia capitulou. Afinal o Syriza  não tinha um plano B e teve que aceitar as previsíveis consequências de afrontar os credores nomeadamente a Fräulein Merkel.

Se à priori todos sabíamos que o governo grego estava encostado a parede com um garrote financeiro urgente, alguns indícios estranhos como a convocação de um referendo que colocou os prazos para lá do viável no que toca aos compromissos de pagamentos, pareciam indicar que o Grexit estaria à vista. Mas não. Entre a opção dos agiotas partirem as pernas por falta de pagamento ou pedir mais dinheiro emprestado para pagar as dívidas e aguentar mais uns meses ou um ano ou dois sem que lhe dêem uma coça, os pobres gregos capitularam.

Ao aceitarem mais medidas de austeridade, contudo, os gregos no seu interminável calvário, são mais uma vez o bode expiatório e a evidencia que a construção europeia está condenada. Empobrecer mais um país exigindo que pague o que deve não tem razão de ser, simplesmente por uma questão de racionalidade. Ao apertar a economia está-se a impedir que ela possa criar riqueza para pagar as dividas – e o aumento de impostos e todas as medidas de contração da despesa pública só vão conseguir que a Grécia dentro em breve não possa conseguir assumir os compromissos de pagamentos ao FMI e ao BCE  que terá de fazer no futuro.

Ao capitular  a Grécia apenas levou para as calendas gregas a saída da crise.  A Argentina não pagou ao FMI , entrou em banca rota e depois de um choque de dois anos e desvalorização do peso argentino tem uma economia florescente e está já a recuperar da crise em que se tinha afundado.  A Grécia presa ao Euro afunda-se cada vez mais e agora atiraram-lhe com uma bigorna para se agarrar.

Faz hoje exatamente 14 anos que comecei este blog. Nunca imaginei que este sobreviveria tanto tempo, que tenha antecedido a moda de blogar e fosse tão perseverante que quando se tornou démodée manter um diário online ou um site de artigos de opinião ainda existisse de forma resiliente.

Escrever aqui foi como o encontrar de companhia para os bons e maus momentos, e nos períodos de fertilidade da escrita ou de um profundo esquecimento este lugar esteve sempre disponível para me voltar receber.

Há quatorze anos um dos motivos que me levou a começar a escrever num blog foi a deslocalização a que me sujeitei, trocando a minha cidade e um emprego que eu gostava mas numa empresa que afigurava o Passado, por um novo projeto mal definido na grande capital. Estava há muito apaixonado pela K. e sabia que essa paixão não se concretizaria tão cedo, não era o lugar nem o momento. Por isso, por males de amor e de males de gestão encarei que nada tinha a perder, mas sim tudo a ganhar. Comecei a escrever num Palm (imaginem) que me acompanhava regularmente no Alfa Pendular numa malograda aventura que assistiu à derrocada das torres gémeas. O 11 de Setembro envolveu o desencanto de uma nova época de mudança e eu não sobrevivi na grande capital, nesse desterro de migrantes.  Foi uma época de alguma desilusão e de sobrevivência. E foi no psicotico.com que libertei demónios e frustrações assim como enumerei esperanças e registrei bons momentos.

A sua companhia, a sua estranha forma de confidente aberto ao mundo foi uma óptima forma de catástase que para os engodos e vitórias me fez companhia fiel ao longo destes anos. Obrigado!

No rescaldo do referendo grego acerca da aceitação das medidas de austeridade impostas pelos credores o povo grego decidiu dizer não.
Cinco anos depois do primeiro plano de assistência financeira e medidas restritivas da economia a troco de financiamento a Grécia mergulha no desconhecido. O default de um país da zona Euro, impensável quando se idealizou o Euro é já ao virar da esquina.

As crises económicas que se têm avolumando na última década para os países periféricos e do sul da europa são parte das causas que levaram a este colapso da construção europeia. Porém a grande responsabilidade não reside só nas más práticas governamentais desses países mas também e em grande parte na falta de responsabilidade e visão dos grandes motores e potências da europa e dos seus grandes responsáveis. A ditadora Alemanha de Merkel, a ausente França de Hollande e o antieuropedista Reino Unido de Cameron não têm equacionado reformas urgentes na comissão europeia, onde cada vez mais os países nortenhos têm economias pujantes ao passo que as periferias se estagnam e marcam passo.

Dentro dessas reformas essenciais uma se destaca, nomeadamente a reforma fiscal de harmonização de impostos sobre os rendimentos, que deveria ter surgido a quando da entrada em vigor do mercado único e do Euro. Como se justifica que países como o Luxemburgo e Holanda atraíam empresas portuguesas para aí pagarem menos impostos deixando o país de origem com menos receitas?

É inexplicável como se deixa empobrecer um país em detrimento de outro e não se faz nada em contrário aí longo de uma década e se espera que tudo vasos funcionar.
Os gregos apegados com um garrote de impostos e desemprego disseram que já não ser revêem neste estado de coisas. Disserem oxi. E para quando um Não?

A crise do Euro aumenta e a possibilidade mais do que evidente que a Grécia vai sair do Euro é cada vez mais real. Graças a intransigência do FMI e dos governos europeus acerca das medidas de austeridade que querem impor aos gregos, os princípios  dogmáticas e políticos de parte a parte a parte levam rapidamente a construção europeia para a beira do precipício.

Uma verdade incontrolável  é que o abismo que se depara na Zona Euro não é o Syriza ter ascendido ao poder democraticamente por opção do povo grego, nem por ser de esquerda. É a incapacidade e miopia política dos lideres europeus, preocupados com ajustes orçamentais e contas de merceeiro e esquecendo na ultima década que a construção do Euro também se devia alicerçar na harmonização fiscal, um problema que todos quiserem varrer para debaixo do tapete. Os fundos de coesão são meros paliativos para a sangria e desigualdades económicas e sociais que se foram cavando.

Com políticas fiscais harmónicas, cada bandeira a saldos de impostos,  cedo ou tarde os pequenos e menos concorrenciais, tal como o Portugal sofreriam déficits orçamentais contínuos em direção a uma divida soberana insustentável.

Agora depois de um braço de ferro de gente sem grande visão de futuro a não ser o seu próprio umbigo nacional e eleições ao virar da esquina deixou-se arrastar até as ultimas consequências a luta do paga-o-que-deves-e-faz-favor-de-cortar-despesas e o já-chega-de-cinco-anos-de-sacrificios-para-estarmos-ainda-piores.

Talvez seja a altura da fuhrer Merkel, o palhaço Hollande, o Juncker dos paraísos fiscais, o Coelho amestrado e outros maus políticos perceberem que políticas econômicas restritivas não favorecem economias empobrecidas e têm danos sociais e políticos irreversíveis.

E assim que Tsipras faz hari-kari económico leva consigo a credibilidade posta nessa moeda em tempos chamada ECU e muito provavelmente consigo também os elos mais fracos da economia europeia – venha o PIGS que se segue…