Térmitas

Depois do circo mediático ter assentado o seu arraial em torno da prisão preventiva do ex-primeiro ministro José Sócrates é inevitável pensar que a nossa democracia está a ser posta à prova.

Recordo-me que na história, casos como este, em que um ex-governante vai preso por indícios evidentes de enriquecimento ilícito levaram ao colapso das instituições e por conseguinte do próprio estado. Nem vale pena falar no caso em si, na personagem abjeta que durante uma década dominou a politica portuguesa, mas sim reflectir como é que é possível que a cultura politica portuguesa esteja repleta de Felgueiras, Isaltinos Limas, Varas e agora Sócrates em que aparentemente desde o presidente da Junta até ao Primeiro Ministro e qui ça, até o Presidente da República gosta de enriquecer às custas dos cargos públicos que exercem.

Não sou pessoa para atirar a primeira pedra, muito menos para achar que esta situação seria impossível – só que estivesse em coma nos últimos vinte anos e acordasse hoje acharia isto estranho; mas acho que chegamos a uma situação de descrédito tal que a democracia está terrivelmente ferida. Os danos feitos pelos tachistas incompetentes que se fazem passar por líderes e pelos carreiristas partidários e jotinhas que aguardam a sua vez de chegar ao poder pôs em causa a credibilidade da republica portuguesa – isto para não falar na falência do Estado – e se não fôssemos nós gente de brandos costumes (leia-se carneiros) teríamos há muito tumultos e quem sabe um ou outro golpe de estado por forças extremistas. Isso seria o normal noutros países, mas felizmente ou melhor pensando infelizmente não sucede em Portugal.

Neste jardim à beira mar plantado desde que se vai a votos há caciques e os enganos da rotatividade partidária – desde tempos Queirosianos – extrapolados no período republicano de há 100 a 90 anos atrás. Depois tivemos um fascismo provinciano de embrutecimento das massas e favorecimentos das elites governativas que durou quase meio século – sistema que só sucumbiu por um golpe militar algo estranho nos cânones das revoluções. Um 25 de Abril de panos quentes e muitos comícios utópicos que deu lugar a um novo bipartidarismo disfarçado que descreve a nossa existência democrática dos últimos quarenta anos.

A justiça portuguesa, famigerada pela sua ineficácia processual, pelo desmesurado poder dos meritíssimos e intocáveis juízes e pela teatralidade da barra do tribunal gordurosamente burocrático, vem agora a jogo em inúmeros processos contra corruptos e corruptores, mas que a mim, mais se assemelha a um foguetório mediatista do que ao natural decurso e independência do poder judicial.

Uma democracia para subsistir necessita por definição de três poderes separados e que garantam o correcto funcionamento dos outros três, numa simbiose que permita que o estado represente as aspirações do seu povo. Do povo e para o povo.

O equilíbrio do poder executivo, legislativo e judiciário em Portugal esta claramente em rotura, por inúmeros problemas a começar por uma Constituição cheia que boas intenções e virgulas a mais e que permite que o estado seja gerido a toque de pandeireta ou a marcha militar conforme a interpretação do leitor. O código penal é uma piada e o código processual parece que está cheio de vales do monopólio de sair da cadeia que advogados bem pagos sabem explorar ao limite. O poder executivo está nas mãos de um chamado bloco central que está contente com a apatia do sistema que permite graças ao clientelismo e clubismo dos eleitores que haja uma rotatividade do poder entre dois partidos que se revezam e alternam, mantendo o status quo e nada fazendo em prol do país. Se correr mal, basta esperar uns anos e volta-se para o poleiro. Se preciso faz-se uma coligação e os tachos perduram. E basta uns anos num cargo ministerial que se arranja uma fortuna em consultorias e outros negócios obscuros num futuro próximo. Basta que se esteja atento às oportunidade de corrupção ou falta de nojo ou cunhas que o sistema tem bem instalado na sua génesis.

No fundo estes políticos em que temos votado nos últimos quarenta anos são as térmitas que devoram aos poucos a talha dourada que é a democracia portuguesa. Brilhante por fora, mas empestada e podre por dentro.

Emigrantes

Muitos do que me são queridos, emigraram ou estão a pensar emigrar. Começo a achar que de facto a diáspora portuguesa é um triste fado. Esta nosso jardim à beira mar plantado parece ser incapaz de dar soluções a todos os que são mais empreendedores.

A maioria busca trabalho, ou trabalho mais bem remunerado. Eu pensava que a grande sangria emigratória de portugueses e portuguesas tinha acontecido nos 70s, porém depois da euforia dos 2000s veio a dívida soberana e desemprego dos 2010s. E eis-nos aqui mais pobres de amigos que se vão para outras paragens em busca de melhores oportunidades.

Portugal não carece de boa gente trabalhadora, mas sim e sempre assim, uma carência de líderes. O Sebastianismo e no fundo a grande tragédia lusitana, – liderados por alguém que liderou o país para o colapso por aventurismos patéticos – e ainda assim sendo desejado. Hoje como então somos a nobre nação de gente valente, mas que se deixa liderar por gente infantil e sem visão que torna todo o nosso trabalho e esforço em vão. Marchamos contra canhões numa fútil labuta diária na perspectiva de não empobrecermos mais. Não conseguimos a empreender porque não nos deixam, com toda a burocracia, entraves e imbecilidade histórica de velhos do Restelo. O conservadorismo e status quo das chefia e do estado pseudo- democrático é alimentada por interesses instalados e não por uma nova burguesia. Por isso há que dar a imagem que há espaço para crescer, mas tão só isso a ilusão de que é possível criar e empreender, criar riqueza.

Por isso me custa tanto que tantos dos que me são queridos tenham buscado terras onde o seu trabalho seja bem compensado. É Portugal essa eterna terra de emigrantes.

Felicidade

Recentemente um mexerico familiar fez-me pensar seriamente acerca da justiça da vida per si. No fundo sei que o conceito de justiça divina e Karma não são tão transparentes, e que muitas vezes a luz do nosso olhar materialista, o justo é até algo de nefasto.

Na minha infância tinha um vizinho um par de anos mais velho que era um fedelho insuportável, minorca, extremamente conflituoso e manipulador. Para piorar, ele e o irmão mais novo eram as principais crianças que eu convivi fora da escola durante um par de anos. Era frequente ele dar uma boa tareia ao irmão quatro anos mais novo, por acesso de ciúmes e dizer que fora o pobre tinha caído sozinho.

Muitas foram as ocasiões que o tal menino me quis atribuir as culpas por brinquedos partidos ou as negras que o irmão apresentava. Seria em criança o que eu hoje designaria por demónio encarnado, porém na altura eu procurava sempre que possível a sua companhia. Tentava ser seu amigo por ter falta de ter com quem brincar e também, confesso, para poder admirar fantástica cidade de Legos que o miúdo exibia no seu quarto como o seu maior tesouro e que quase cobrava bilhetes pela sua exibição.

Quando me mudei de casa lá pelos sete anos, nunca mais ouvi falar neste miúdo egocêntrico e de má índole, pois não me deixou muitas saudades ou boa recordações.
Hora hoje passadas cerca de três décadas vim a saber que o tal fedelho se tornou um dos principais ricalhaços do nosso país pois se casou com uma das herdeiras de uma das maiores empresas portuguesas cotadas em bolsa.

Porém o repudio inicial de que aquele pequeno *traste* e ambicioso puto se tenha dado bem na vida, deixou que os meus pensamentos fluíssem da inveja inicial e de juízos de valor baseados numa imagem de três décadas que pode até estar deturpada, para reconhecer que se calar aquele miúdo até se tornou em alguém de boa formação e num personagem melhor. Se em cinco anos podemos mudar radicalmente a nossa vida, acho que em trinta poderemos virar numa espécie de madre Teresa de Calcutá ou num Estaline. Tudo depende do que queremos e quais as oportunidades aproveitamos.

Pensando melhor, a ideia que alguém é milionário ou famoso não é propriamente sinonimo de sucesso e muito menos de felicidade. Mais do que as aparências formadas e dos estereótipos repetidos vezes sem conta nos media, não acredito que esse seja o sucesso da vida.
Agora até me sinto envergonhado por achar que aquele filho da puta não merecia ter dado o golpe do baú. Tamanha mesquinhes

O paradigma de ser feliz, acredito cada vez mais, não passa pelo que possuímos, pelo poder ou reconhecimento que alcançamos, esses vectores da exterioridade do que projectamos, mas sim pela simples felicidade interna que criamos para nós e para os outros. Nós podemos ser felizes mesmo na mais abjecta miséria, mesmo que isso seja quase criminoso de se dizer e provavelmente ainda mais de se alcançar e realizar. Tenho ainda na memoria presente a felicidade e doçura que muitos desgraçados que vi nas minhas viagens turísticas à América do Sol ou ao lindo mas paupérrimo S.Tomé e Príncipe.

Ser grato por ser amado e amar a vida e os outros com paixão é felicidade.

Mais um ano…

Talvez o tempo fluía como sempre e o nosso envelhecimento nos induza na aparência que se esgota mais depressa. Talvez o pulsar do nosso coração seja mais lento e por isso os segundo esvoaçam mais rapidamente.

Muitos anos se passaram desde que escrevi aqui pela primeira vez. Muitas boas recordações estão aqui escritas neste diário, muitos pensamentos e medos aqui são descritos. Talvez um pouco abandonado e em repouso este baú de memórias.

Gostaria eu de lhe dar muitas passagens novas, muitos artigos recentes. Mas não é por falta de conteúdo ou vivências que se tem mantido este diário a ganhar pó, mas sim pelo procrastinar provocado de quem vive um emprego de horários rígidos. Desculpas evidentes de quem não consegue alimentar a criatividade da escrita e o escrevinhar laborioso e persistente que a caneta exige. Quem sabe para breve terei esse ócio necessário para tempos de satisfação de prosa escrita.

O estado da esquerda

Tirando António Costa que mal abriu a boca, o PS e a esquerda em geral têm dado um triste espectáculo da sua verdadeira natureza, que às vezes chega a roçar e a entrar na pura obscenidade. No PS, a gente de um lado e outro usa (com poucas variantes) a velha “língua de pau” de 1975, que nos fez rir durante 30 anos. Ninguém fala de política: da situação do mundo, da “Europa” ou sequer de Portugal. Ninguém fala da estratégia conveniente ou aconselhável para o partido, mas nos méritos e deméritos dos dois putativos candidatos, na “lealdade” e “gratidão” ao chefe ou nos triunfos que Costa infalivelmente trará consigo. O que estas parlapatices da hipocrisia, do oportunismo e da má-fé podem interessar ao cidadão comum é coisa que não interessa aos “notáveis” que a televisão convida ou escrevem doutoralmente para um jornal qualquer.

Nunca a “classe partidária” mostrou com maior clareza a sua vacuidade e o seu egoísmo. Trata sempre a situação do país como se tratasse do futuro de uma fábrica de sapatos: será que a baixa das vendas é irreversível ou temporária? Será que a concorrência vai aproveitar a oportunidade? Será que os lucros não são suficientes para investir e alargar o mercado? Não seria bom “lançar” um novo modelo, para aproveitar a moda? E não seria bom mudar de director? Sem o pormenor irrelevante dos “sapatos”, que diferença se consegue encontrar entre essa benemérita fábrica e um PS, que pretende reformar a “Europa” e salvar Portugal? Nenhuma ou tão ténue que não se distingue. Os campeões do socialismo não passam de uma empresa vulgar, com exclusivos critérios comerciais, tal qual como as gaba o famigerado “neo-liberalismo”.

Fica ainda a poeira da extrema-esquerda. A extrema-esquerda não sabe o que há-de fazer à vida. Gostava, como um adolescente, de ser rica e “famosa”, e de arranjar um namorado. Mas nada infelizmente a recomenda, excepto uma condenação genuína do estado do país. Só que a terapêutica que se propõe aplicar mataria o doente e 80 por cento dos portugueses percebem isso muito bem. Claro que muitas pessoas do Bloco ou do PCP, como o simpático e confuso João Semedo, merecem a nossa estima. Mas, como se sabe, a mistura entre os bons sentimentos e o espírito de missão tende a criar fanáticos; e o fanatismo leva rapidamente à intolerância e à intriga. O buraco de víboras em que se tornou o radicalismo português, além de paralisar o PS e o regime, não serve para nada e envenena o ar.

Vasco Pulido Valente in Público

E o meu voto vai para…

Estas eleições europeias afligem-me profundamente. Estas batalhas politicas pelo eleitorado prenunciam um perigoso desagregar da democracia. A partidocracia portuguesa está esvaziada de idealismos politicos e não se sabe o que está ser discutido ou votado. É um mero ajuntamento de pessoas que trocam a sua pretensa ideologia por um caciquismo politico à boa moda portuguesa – que sempre existiu desde a monarquia constitucional.

Depois de um barão laranja e a brasa da esquerda virarem a casaca ao que sempre apregoaram, parece-me cada vez mais patente a prostituição evidente que as figuras públicas fazem por um bocado de poder. Não é nada de novo, recordo-me de Zita Seabra e de Helena Roseta que mudaram substancialmente de cores partidárias. Mas era noutro contexto e com um pouco mais de pudor. Estes casos de assumido vira-cassaquismo rápido, sem periodo de nojo ou atravesia do deserto, já não são propriamente inusitados nem nos espantam tanto como seria suposto.

A ideologia partidária desapareceu ao longo dos anos. Os lanjanjas e os rosas, apesar dos nomes, são meramente liberais. Pouco se sabe do que separa o programa eleitoral dos partidos do centro (se é que existe sequer um programa e ideias) e as diferenças saldam-se por um conjunto de discursos demagógicos e não por um ideal ou programa e que mudam ao sabor do vento e da opinião pública.

Por tudo isso. acredito cada vez mais no deficit democrático português que já é crónico . A democracia ficou refém de um conjunto de caciques que orquestraram a subida ao poder através de compadrios, padrinhos, afiliações em sociedades semi-secretas como a Maçonaria e a Opus Dei. O poder não caiu à rua, nem esta na Assembleia da Republica, mas sim nos jogos de interesses colectivos de grupos selectos de jotinhas e seus patronos e patrocinadores.

Os partidos financiam-se como entidades mafiosas de lavagem de dinheiro com donativos que não se sabem as origens e como entidades fornecedoras de poder aos seus líderes. Estes chefes, parecem mais capos, que são os mais apadrinhados e os que mais favores devem, incapazes de ter ideias, mas tão só verborreia demagógica que desmentem passado 24 horas. É vergonhoso perceber que vivemos numa denominada democracia que está podre de sentido e de verdade e que num ciclo vicioso tende a piorar.

É neste clima que vou votar nas eleições europeias, tão importantes e que tanto impacto têm no nosso futuro, mas que porém ainda não vi uma linha sequer do que os euro-deputados pretendem fazer no europarlamento. Que vão votar, em que ala vão alinhar. Nada. Zero de conteudo politico democratico. Por isso o meu voto deverá ir para o partido com o logotipo mais radicalou até piroso uma vez que se vou votar no escuro, prefiro que seja num grupo radical com falta de sentido de estetica. Ou talvez vote no que tenha mais Cs ou Os. Venha o Diabo e escolha!

Filosofias

Não sei o que pensar sobre os tempos que correm. Já sou algo idoso para perceber que o tempo acaba sempre por nos ultrapassar e nos tornar obsoletos. Ficamos como peças anacrónicas desprovidas de utilidade num mundo que se actualiza e moderniza mais depressa do que conseguimos acompanhar.

Talvez ei não seja assim tão velho, mas sim um terrível pessimista que se deixa quebrantar por alterações do modus operandi. Talvez devesse investir no rejuvenescimento do software e instalar um sistema operativo mais recente, mais ajustado ao universo que me rodeia sem contudo perder a identidade intrínseca que me faz a essência.

Gosto de ser um ser pensante e não um mero condicionado pavloviano, e ajustado a um equilíbrio entre o quixotesco e o sancho panchismo, mas as condicionantes actuais fazem-me esconder numa carapaça com mesclas antagónicas de maquiavelismo e estoicismo.

Filosofias à parte trata-se de evoluir para sobreviver.

Escrevendo

Se pensasse duas vezes não seria capaz de encontrar uma encruzilhada, um ponto geracional no passado para o ponto que me encontro actualmente. Seriam muitos pontos, muitas decisões ou principalmente a sua ausência que foram construindo um futuro que é hoje um presente.

Mil e um caminhos afluem a este destino em que eu me posicionei. Sei que as cartas do Tarot, que eu tanto subestimo, tantas e repetidas vezes me disseram um destes presentes. Nem sempre queremos ver, ou não focamos o que um dos futuro nos destina porque viver não está escrito. Escreve-se.

O Destino escreve-se a cada esquina, a cada sorriso, a cada viagem. A cada palavra por dizer e a cada não. Espero continuar a escrever.

Puro prazer

Já não corria há mais um mês. O meu corpo e espírito ressentiram-se da ausência da estrada que se escapa a cada passada. Tinha saudades das minhas corridas sem rumo e de aqueles momentos Zen em que o corpo pressionado, liberta a mente e mergulha noutro plano existencial.

Para mim ser corredor não é correr mais e melhor, competir e a buscar a superação per si. Ser corredor é procurar um momento de escape e fuga rumo ao meu intimo, numa espécie de meditação não-transcendental onde apenas falo com os metros à frente de um destino algo confuso mas que persigo com prazer.

Voltar foi custoso e as pernas e os pulmões deram muitos sinais de fadiga precoce mas que é apenas um desafio a superar e que dentro de semanas tudo terá voltado à normalidade com várias dezenas de quilómetros de puro prazer.

Pantera

Eusébio, tal como Amália e a irmã Lúcia eram as três encarnações do portugalzinho baseado nos três Fs (Fátima, Futebol e Fado) que o Estado Novo e o Professor Salazar idealizaram para o Zé Povinho se orgulhar.
Estas três grandes personalidades, apesar de nada politicas foram muitos anos o estandarte de um Portugal rocambolesco com heróis da fé, da música e do desporto.

O último a nos deixar, Eusébio era um futebolista memorável e genial no seu tempo, capaz de arrebatar multidões com as suas jogadas e remates de grande craque. Apesar disso segundo consta, o grande herói desportivo tinha uma faceta mundana tal como todos nós e segundo as más-línguas depois de terminar a sua carreira futebolística afundou-se no que se costuma chamar a má vida, sendo habitual ser encontrado nos antros da capital encharcado em álcool na companhia de profissionais como só uma estrela decadente o faz tão bem. O seu alcoolismo patente, infelizmente foi sempre obscurecido pelos fãs que sempre o endeusavam. Era era sim uma estrela maior do futebol, mas não creio que fosse um Mandela, pois a sua dimensão humana grassava o enredo de uma opera bufa.

A lavagem de perfil transportando-o para um ser impoluto que habitualmente o óbito trás e os discursos de santidade póstumos, causa em mim algum asco. O clubismo histérico dos senhores da segunda circular turva a visão da realidade.

Eusébio da Silva Ferreira era um dos maiores futebolistas de todos os tempos e uma grande estrela há três quatro décadas atrás. Provavelmente merece estar no Panteão Nacional como um português nascido em Moçambique e que prestigiou a nação através dos seus feitos desportivos na época. E só.

Começar o ano

Se eu pudesse concretizar todas as metas que me propus atingir em 2014 seria um super-homem. Já metade seria uma enorme façanha.
Apesar de saber como é difícil ir atrás desse objectivos demasiado optimistas feitos com o auxilio de vapores de espumantes é importante fazer a nossa parte e pelo menos tentar fazer algo em prol do que queremos.

Se há algo que aprendi nos últimos anos, em particular no mundo da corrida, é que nada se atinge se pelo menos não se der o primeiro passo. Não se pode terminar uma corrida se não nos levantarmos do sofá, calçarmos as sapatilhas e começarmos a correr. Assim também é na vida. Sem motivação e sem o desejo de começar não há melhorias na nossa vida. Desenvolvimento só existe se estivermos cientes que queremos evoluir: melhorar começa por querer. Mas isso é o primeiro passo da corrida, muito embora seja o que talvez custa mais, mas não basta. Correr é perseverança e reflexo da vida nenhuma meta se atinge se desistimos a meio do trajecto.

Nós.

Com as chuvas persistentes sinto a forma agradável como o outono nos convida a ficarmos mais introspectivos e ao mesmo tempo mais dados à família.  Um tempo para nós, para os nossos pintado num quadro de céu cinzento, conforto da nossa sala e os risos de dois adultos e dois petizes.

Para quê assumir que  a vida é feita de conquistas físicas e sociais? Não o creio. A vida é tão somente vencedora num dia de sorrisos cúmplices. Nós.

 

Votar ou não votar, eis a questão

No rescaldo das eleições autárquicas fico com a noção que a democracia tal como a entendemos desde o 25 de Abril chegou a um momento de profunda degeneração e desarticulação.

A descrença na classe politica e da tal partidocracia,  ou seja desses clubes de tachistas, compadrios e associações semi-criminosas,  chamados partidos políticos,  atingiu tal nível que os votos nulos e brancos duplicaram.    Isto porque tudo somado as opções partidárias capazes de governar são do estilo da Coca-cola versus Pepsi-cola: ambas fazem mal à saúde, são um combinado de açucares e corantes e vivem à custa de publicidade para venderem o seu equivoco.

Eu cá vou começar a  preferir água da torneira.

De volta à rotina

Chegadas as primeiras chuvas de outono, chega a rotina que nos há de acompanhar durante longos e sombrios meses. Tal é a noção que nos ocorre. Mas nada é certo e na verdade não há rotinas a não ser que as abraçamos maquinalmente e as sigamos cegamente.

Este outono quero reformular muitos padrões de comportamento e assim mudar também a forma de pensar e agir perante aqueles que estão à minha volta. Pequenas alterações que juntas podem dar grandes mudanças, abrir novas portas e novos desafios. E isto sem grandes planeamentos e efeitos de choques, tão só ajustamentos graduais rumo a uma vida menos estressada e mais feliz.

Agora que a minha maturidade desaflora para uma nova etapa de renovação sabendo uma das premissas mais importantes da nossa existência :

As mudança surgem de dentro de nós.

Faz para aí 25 anos ou mais…

«Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que toda a nossa vã filosofia»

 

Já o dizia Shakespeare. E com toda a razão. Talvez com o passar dos anos e do amadurecimento do corpo a alma também se torne adulta e procure os porquês internos que na juventude parecem melodramas de fé e crenças. Esses porquês levam a mudanças do entendimento do que somos e do que queremos. Podemos ter o sucesso de carreira, a satisfação amorosa, o regozijo de ter uma nova família, mas fica ao ponto de interrogação. O que é?...

 

Nessas deambulações tive a sorte e talvez o azar de muito cedo ter um destino taçado com um enorme borrão de tinta que me abalou as fundações. A certeza de que há algo mais que o existo porque penso, foi me imposta numa casualidade que me (quase) tirou a vida quando tinha apenas 14 anos. Nessa altura tive a noção que segundos podiam ser eternidades, a eternidade se condensava num único instante e que as certezas do desenlace eram tão fortes, tão convictas quando regressei que sabia que aquela luz não era um alucinar de um cérebro em débito distólico.

Posso ter sido uma ave com a asa quebrada (quase literalmente) mas segui inúmeros caminhos desde então, quase sempre atalhos mal pensados, fugindo  e enterrando parte do que sou e fui para tentar não enfrentar o infortúnio que no fundo era também uma dádiva. Seguia um carpe diem irreflectido, como um adolescente que sente que lhe roubaram a adolescência e que persegue mil e um engodos.

Hoje sinto  o quanto foram bons estes 25 anos de aprendizagem, de tentativas e erros. De como tantas asneiras (que ainda hoje as cometo) me tornam cada vez um bocadinho menos ignorante. Vejo a pouco e pouco aquela luz que vi faz 25 ou 26 anos. Ela brilha e traz consigo aquela paz e as respostas que me recusei a procurar e que hoje vou encontrando a cada dia que passa, em especial nos sorrisos dos meus filhotes.  Um dia talvez perceba que luz é essa.  Até lá quero crescer e ajudar no pouco que possa outros a descobrir que …

 

«Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que toda a nossa vã filosofia»

Apressadamente

As férias passam apressadamente quando estamos felizes com a família ou com os amigos. Possivelmente estar feliz é sinónimo de o nosso cérebro abrandar dando assim a impressão que o tempo se desloca de uma forma mais rápida.

Hoje que as férias se esfumaram o meu cérebro está a processar a todo o ritmo e os segundos do meu Casio teimam se sucederem cada vez mais lentamente. É isto a relatividade do tempo…

Tempo para sonhar

Como as ondas que se debatem uma após outra, num perpetuar eterno de movimento, no meu âmago desperta o gozo pela escrita. Mesmo sentindo que o meu talento para a escrita é de uma mediocridade tal que seria preferível não gastar tinta sinto uma compulsão forte que sou se acalma quando descargo alguma linha ou outra.

Que saudades eu já tinha de dispor de alguns momentos para soltar livremente tais pensamentos ou ideias. A triste sina do envelhecimento é que de facto o tempo como que não sobeja para nenhum momento de lazer e que a vida segue espartilhada pela rotina cada vez mais exigente. Algures há que soltar o tempo necessário para sonhar…

No dia em que o palhaço falou

Num desabafo rápido só quero apontar que realmente neste jardim à beira-mar plantado vivemos dias muito semelhantes à queda da Primeira República, em que políticos medíocres envolvidos em guerras palacianas afundavam o país numa profunda crise económica e social.

Sem dois dedos na testa alguns esticam a corda bamba da crise com piruetas ansiando por poder, enquanto outros igualmente desmiolados impõe regras de  interpretação dúbia e impraticáveis. Só não entendem que estendem o tapete à descrença na democracia. Um Salazar disfarçado de D.Sebastião  arrisca-se a tomar conta disto não tarda nada.

Mar de rosas

A tecnologia informática  tem avançado enormemente desde que cometi a improcedência de iniciar um blog.  Actualmente  a simplicidade e variedade das ferramentas dirigidas a um diário online é tanta que tenho impressão que há doze anos atrás estava a usar uma espécie de pedra lascada. Porém isto não é um mar de rosas, nem existe uma situação idílica que me deixa extravasar livremente palavras a gosto na web.

Para quem escreve ou tenta escrever algo nos seus tempos livres  tanta tecnologia em vez de auxiliar a caneta, torna o momento da  escrita algo insípido. Isto para não falar nos tantos pontos de distração que levam a mente a divagar para mil zonas nas redes sociais ou nas mensagens instantâneas.
Mas talvez haja salvação. Seguir a velha máxima:

Keep it simple

Votos de bom ano novo.

Um novo ano se inicia, marcando um ciclo diferente que começa. Talvez porque tenho já alguns cabelos brancos ou porque eu sinto o misto de alegria e peso da responsabilidade de ser pai de duas ternas almas, sinto que estou numa fase mais madura.

Neste ciclo complicado, muitas portas se fecham, muitas oportunidades são aparentemente perdidas. Acredito piamente que quando o Destino nos coloca entraves e dificuldades apenas estamos a entrar num novo ciclo, que no aparentemente nos parece negro. Abrindo bem os olhos existe sem uma luz ao fundo do túnel. E isso nem mesmo a crise economia pode esmagar.

Muitas vezes usamos padrões de felicidade que nos foram impostas, ou melhor, incutidas repetidamente pelos vendilhões do templo. O sucesso, a fama e a felicidade não devem ser quantificadas em dólares como sempre nos publicitaram. O exterior reluzente não e fonte de prazer e alegria. São apenas euforia passageira que não traduz o vazio intrínseco que a acompanham.

Neste mundo tão materialista e capitalista em falência talvez seja tempo de nos debruçarmos sobre nós próprios e investir no verdadeiro enriquecimento e dar aos nossos próximos o que nós temos de mais precioso: amor e amizade.

Crise

São tempos em que a crise económica se abateu definitivamente sobre os pobres lusitanos. Estamos numa perlongada falência política e financeira, ou pelo menos, fez-se luz para todos como nós portugueses andaramos a inconscientemente cavar a nossa própria sepultura. É exactamente agora, nos tempos de carência que se torna imperativo sair do espiral consumista e de ausência de valores que nos levou a onde nos encontramos.

Não quero falar nos mil erros de desenvolvimento, desperdício, de despesas descontroladas que levaram a uma divida soberana do estado português insuportável, nem a toda a conjuntura negativa , ou problemas estruturais crónicos. Do mesmo de sempre não serve de nada falar. A crise económica foi sempre um tema permanente em Portugal. Salvo raros intervalos contra cíclicos estamos em crise. Por isso milhões de luso descendentes estão espalhados pelo mundo. No meu ponto de vista crise é o nome do meio do português. Nada de novo aqui portanto.

O problema presente é a meu ver muito mais grave. O que tem uma nova crise, aquilo que está verdadeiramente falido não é a economia portuguesa mas sim a nossa pobre democracia que a meu parece estar a prazo.

Tantos anos

Dizem que o tempo passa a correr. Talvez só com a idade possamos entender a profundidade desta afirmação tão popular.
Faz mais um ano que eu estava perdido na grande cidade, vulgarmente designada por Lisboa, pensando que estava a construir um novo destino que não estava escrito e muito menos estava predestinado a acontecer.

No calor desse verão longínquo antecipava um amor perdido para sempre e alimentava um gosto por caminhar junto ao precipício como se fosse a saída de um beco do Destino. Sem rédeas ou planos mergulhei de cabeça sem saber se tinha fundo. Apenas queria afastar-me do passado e buscar um futuro radicalmente diferente e se possível melhor. Porém não consegui cortar todas as amarras e inocentemente achei que a minha tábua de salvação seriam os desabafos neste blogue, para que os meus melhores amigos me pudessem seguir, numa forma de falsa proximidade.

Logo num par de meses pude ver que a minha fibra não era a de um workaholic que deixa tudo para trás e faz tábua rasa das suas paisagens nem das suas emoções. Julguei ser forte mas as emoções e a falta de norte literalmente me levaram para futuros menos incertos mesmo que ainda não fosse capaz de delinear qualquer plano para a minha vida. Foi um momento em que este diário me sugou ânimo mas me deu em retorno muita esperança de melhores dias.

Tornei-me dependente deste curioso amigo sem alma própria que aos poucos me mostrou que muitas vivências devem ser relativizadas. Muitos tropeções e asneiras asseninas ainda vim a fazer na sua companhia, altos e baixos psicoticos na verdadeira ascensão da palavra, mas que me foram moldando e amadurecendo.
Passados 11 longos mas céleres anos quero dizer Parabéns. Parabéns psicotico.com.

Falta de civismo

Recebi há dias um colega inglês que, vagamente conhecedor da situação portuguesa, esperava encontrar o país em alvoroço.

Quando verificou que nada disso se passava ficou verdadeiramente intrigado. Expliquei-lhe que o meu salário tinha sido cortado em 30%, que esse corte tinha sido superior para alguns colegas, que vários outros estavam a ser despedidos, etc. O seu espanto foi então redobrado: “Como é possível que não existam manifestações, greves contínuas, etc.? Por que razão está a universidade a funcionar normalmente?”

Este espanto diante da situação portuguesa é genuíno. Não passa um dia sem que leia na imprensa ou ouça de viva voz o elogio de algum responsável político europeu à peculiaridade da nossa situação: Portugal é verdadeiramente excepcional porque tem conseguido manter a ordem e a paz social. O contraste com a agitação popular na Grécia é enorme. Mas não deixa de ser também assinalável a diferença da situação portuguesa face à turbulência social a que se assiste já em Itália ou em Espanha, por exemplo.

Será difícil negar que a ordem e a paz social até agora existentes acabam por ser benéficas para o país. Mas por que é que as coisas se passam assim entre nós? Aquilo que os responsáveis europeus não sabem – e os nossos governantes fazem de conta que não sabem – é que a ordem e a paz social resultam de um aspecto especialmente negativo, de um “mal” que de há muito afecta a sociedade e a democracia portuguesa. Ainda no passado fim-de-semana, numa conferência no Porto, a politóloga Marina Costa Lobo chamava a atenção para isso mesmo, recordando a debilidade da participação política, convencional e não convencional, no nosso país, por comparação com o que se passa nos outros países europeus. Entre nós, a atitude de desconfiança face à política é enorme e a apatia estende-se também à participação cívica num sentido mais alargado.

Diante da crise e das medidas tomadas pelo Governo, muitas vezes de forma arbitrária e injusta, face ao empobrecimento de muitos e ao enriquecimento de alguns, face à venda ao desbarato dos nossos melhores activos, à destruição do tecido empresarial, à transformação do Estado social numa instituição assistencialista, e por aí adiante, que fazem os portugueses? Cada um procura tratar de si e sobreviver, no silêncio e, por vezes, na vergonha. A política e a acção cívica parecem-lhes algo demasiado longínquo. Preferem sofrer em privado do que contribuir para uma mudança na esfera pública.

Assim, os bens da ordem e da paz social são, em última instância, uma consequência da nossa desconfiança face aos outros, do atavismo secular, do alheamento face à política, da famosa “falta de civismo”. São, forçando um pouco a frase, bens que vêm por mal.

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in Economico João Cardoso Rosas, Professor Universitário