Sobre as manifs

3ª parte – A panela de pressão
ou
Demoras muito FMI?

Passados estes dias e parando o turbilhão de reacções, é bom fazer uma breve meditação acerca de da motivação e impacto da manifestação de 12 Março.

Como se vem dizendo no meu programa de analise favorito, no contraditório há muito tempo que é tema de debate, a crise económica portuguesa, que é estrutural e não conjuntural, a curto ou médio prazo vai gerar mais contestação social. É inevitável. As pessoas perdem o poder de compra, perdem os empregos, as empresas vão à falência, o procura diminui, etc… As questões sociais estão à flor de pele e se as coisas piorarem é como estamos sentados num barril de pólvora…

Por outro lado um estado governamentalizado entra num estado de miopia atroz após uma década de despesismo inqualificável – entra com cortes penalizadores para as empresas e classe pobres e médias. Mas mantém o intuito de financiar obras faraónicas e elefantes brancos, pérolas a porcos e até obras de Santa Engrácia. No fundo somos governados por incompetentes e incapazes, que nos aumentam os impostos e nos retiram os beneficios que o estado nos habituou.

É neste cenário que se afigura mais gravemente a falta de cultura democrática que padece Portugal. As manifestações de rua populares – de iniciativa cívica são algo normal nas democracias sérias. Os contestatários unem-se não em volta de bandeiras partidárias e slogans sindicais ou partidários mas sim por iniciativa própria. Não são carneiros-eleitores. Espanha, Itália, França, Grécia e até Alemanha costumam ter manifestações espontaneamente, algumas até mais ou menos violentas. Os cidadãos são esclarecidos e opinativos, não apenas obedientes.

Talvez o dia 12 de Março marque um renovar de convicções apartidárias, um ponto de viragem, que una em torno do bem comum as movimentações e os novos poderes que se avizinham. Talvez um renascimento da fénix nas cinzas da falta de opinião política dos portugueses. Finalmente algo mexeu e vem fazer ondas. O país de brandos costumes pode tornar-se um vespeiro.

Afinal e ao contrario do que muitos que não querem ver, a manifestação de 12 de Março, não era um peditório de malandros que não querem fazer pela vida. É uma convulsão social, enraizada, o início do assobio da panela de pressão que começou a ferver e está prestes a estourar. 500 Mil desempregados num país de 10 milhões não é sustentável muito tempo sem que caia a compostura e se comessem a virar carros e a pilhar supermercados. Talvez os políticos actuais sejam tão autistas e dormentes de ideias que não se preocupem com isso. Talvez seja o FMI que se vai preocupar com isso…

Sobre as manifs

2ª parte – As razões
ou
Um basta à falência

Sábado dia 12 de Março, no dia que fazia dois anos de casado foi com satisfação e esperança que me dirigi até a Batalha para participar na manifestação. O porquê de me incluir nos protestos não foi por estar à rasca, uma vez que felizmente me posso considerar um desenrascado, mas sim por não poder compactuar com o meu silêncio com as políticas que transformaram Portugal, mais uma vez, num país sem futuro. E como eu, grande parte dos manifestantes. As palavras de ordem não eram muitas, mas nunca ouvi frases tipo «quero um emprego» ou algo dessa índole, mas sim só sobre a incapacidade dos políticos.

Grande parte desta ausência de futuro se deve à minha geração, que encarou a intervenção politica (muito erradamente) como coisa de fanáticos – uma reminiscência dos abusos do PREC a meu ver. Mas o que eu não entendo é que ainda haja a imagem nalguns meio que a manifestação de 12 de Março foi geracional e só acerca da precariedade dos empregos. Não foi só acerca disso. A manifestação não foi só contra a crise económica. Nem até só anti-governo. Foi tudo isso e muito mais. Espanta-me que muitas pessoas queiram reduzir tudo a pequenas parcelas da questão, a uma questão de jovens desempregados. Nas rua eles não estavam sós. Estavam as pessoas que ainda se interessam!

O que me levou a participar nessa manifestação – e que me encheu de orgulho e esperança por ter tanta adesão com a mesma motivação que eu – foi a necessidade de começar a dizer basta à actual falência politica. A falência que não é só governativa mas sim política, onde os nossos decision makers são caducos e personagens da nomenklatura partidária, agentes em última analise do status quo das últimas duas décadas. E isto sejam quais forem as siglas e cores que vestem, têm apenas o intuito de servirem o partido e os interesses e ambições pessoais e não o chamado servir a pátria e o bem-comum.

Manifestei-me contra a mediocridade dos políticos e a ausência de ideias políticas que possam regenerar o país, coisas que não abundam num regime podre e decrépito – o modelo democrático português precisa de uma transfusão sanguínea urgente. Precisa de ideias e ideais novos, e essencialmente de líderes que não estejam afastados do povo e dos cidadãos após anos de corrupção do poder partidário.

Sobre as manifs

1ª parte – mea culpa

Faz muitos anos desde que eu participei numa manifestação de cariz politico. Talvez mesmo duas décadas quando me insurgi como muitos da minha geração contra a introdução das provas PGAs pelo ministro da educação da altura.

Nessa altura tive a minha primeira experiência com a maquinaria político-partidária das juventudes que me mostrou que como são formados os actuais líderes deste país que desde jovens são habituados a viver de ambições e favorecimentos em vez de terem um ideal e tentarem fazer valer o seu valor e mérito para um bem comum. A opinião e o bem do partido sobrepõem-se ao bem do país. A partidocracia enojou-me muito cedo, neste pais que tende a votar nos partidos como se tratasse de um fervor clubístico e não de projectos para governar um país. Resumindo a democracia que temos não é de todos a mais correcta. O Povo está demasiadamente longe de que o supostamente representa.

Desde então não quis saber de política. E como eu, uma generosa parte da minha geração não se envolveu com questões sociais e polícias. Pelo menos não por motivos válidos. Vinte anos volvidos a política portuguesa passou a estar povoada de líderes que eram os delfins das jotinhas dessa geração: boys criados nas lutas palacianas e nos favorecimentos em vez de terem feito algo útil na sociedade. Demonstrativo desta situação e o actual primeiro-ministro que nunca fez nada a não ser politica e com isso sempre arranjou cargos e expedientes de enriquecimento para si e para a família, tornou-se poderoso por saber manipular e enganar. E não por mérito.

Faço a mea culpa por não ter participado em qualquer tipo de manifestações ou me ter envolvido de alguma forma no que não achava correcto ao longo destes anos. Fui apenas o cordeirinho democrático e fui meter o meu voto numa urna como cidadão cumpridor de uma república democrática. Foi com o meu compadrio, assim como da minha geração que deixou que este país governado por energúmenos e tachistas e que em alternativa nos partidos da oposição mais energúmenos e tachistas.

Mas a culpa não é dos politicos per si. Não é dos outros. É nossa. É minha. Eu não me mexi, eu não protestei, deixei com o meu papelinho dobrado em quatro numa urna fosse a minha única voz. Até agora.

Vibração nas catedrais

Depois de um fim de semana exigente, dou-me conta que desta vez a festa do solesticio de Inverno não me está a atormentar particularmente como noutros anos.
Quando penso nesta ausência de stress pré-natalício não vejo nenhuma explicação a não sei a inevitável influência da minha cara metade que vibração com qualquer alusão à época do velhinho das coca-cola. Não tenho feitio para ser o desmancha-prazeres encartado em serviço permanente e por isso forçosamente vou assistindo com mais benevolência ao preparativos mais ou menos frenéticos da quadra. 
Mas tudo isto só é suportável bem
longe das catedrais de consumo como é lógico!

Miller na mente

Estou a ler novamente Henry Miller. Nunca um escritor me deu simultaneamente tanto prazer e repulsa nos seus textos efervescentes de vida.

Um dos problemas da leitura deste deus da literatura é que não se pode ficar indiferente à corrupção da mente e holocausto da banalidades que nos são introduzidas página após página. Miller consegue transmitir o ódio à hipocrisia da sociedade e semear um sentimento de rebeldia visceral até num cordeiro como eu. 

Trópico de Câncer está ainda mais pesado para a minha mente que o poderoso estalo que recebi com Trópico de Capricórnio,  deixando a nu uma Humanidade deprimente e sempre deixando a sexualidade cavalgar desenfreada. E tudo num cenário de crise da Grande depressão, o que me recorda que nas alturas de crise se transcendem os limites da da bondade assim como da maldade dos homens. As revoluções nascem da miséria assim como a fome e o desespero são os catalisadores das mudanças mais radicais e profundas.

Décadas

Estou farto de ouvir falar em orçamentos, crises e dívidas públicas. A sociedade portuguesa há muito que está em colapso assim como a sua economia. Não é novidade. O que é novidade é a necessidade vergonhosa e urgente de tentar solucionar o desastre em que nos encontramos após décadas de más políticas governativas.

Crise

Em tempo de crise o descontentamento aumenta, assim como a pobreza e os impostos. Porém neste país a beira-mar plantado, parece que há sempre razões mais interessantes para serem alvo de preocupações. Podemos estar a beira da falência do estado mas é mais importante o debate do casamento gay, os impostos vão subir e penalizar fortemente a classe média, mas o Papa Ratzinger veio ver a malta e todos contentes ficamos com as tolerâncias de ponto.

Parece patético, mas a pura realidade é que a sociedade está doente, assim como a politica e e economia. Pior, parece que vivemos nos últimos dias do absolutismo francês logo antes da revolução francesa. Com a taxa de desemprego a atingir os 10%, a bancarrota à vista, conseguimos dotações para os partidos políticos (pagas pelos contribuintes) de 90 milhões de euros, e quando se vão fazer cortes radicais nas despesas operacionais dos hospitais, vai ser adaptado um salão na Assembleia da República que permite que os deputados possam fumar no valor de 300.000 euros. Mais vergonhoso ainda, vamos comprar dois fabulosos submarinos e construir uma linha de TGV por um número ainda não determinado de dezenas de biliões de euros, mas temos que subir os impostos para os bens alimentares, e sobre os salários penalizando os pobres mais directamente…

Muito semelhante ao pré Revolução Francesa. Acho que Portugal esta a precisar de umas guilhotinas.

Efemérides

Com tantos aniversários é fácil ficar atolado em prendas e presentes para dar e receber, assim como uns kilos a mais depois de tantos bolos de aniversários. As efemérides familiares são assim. Mas o mais importante é que elas celebram o que nos é mais importante na vida: aqueles que nós são mais próximos – a família e os amigos.

Desta vez a minha filha recebeu merecidamente a sua primeira festa de anos para os amiguinhos, que no fundo me deixou muito feliz e como que deixou em segundo plano o aniversário deste velhote que já completou demasiadas primaveras para o poder revelar com entusiasmo. Depois o nosso primeiro aniversário, que marca a nosso união judicial, mas que não deixa de ser um marco de felicidade e amor em família tão importante.

Resumindo, a vida merece estas efemérides, merece ser festejada e a sua alegria partilhada.
Parabéns!

Algures na mente

No passado assumi que seria apenas uma questão de encontrar os eixos para que a minha vida se endireitasse. Porém não foi tão fácil assim. Não havia na minha consciência qualquer discernimento no que tocava aos meus objectivos. Estava sem rumos portanto.

Foi preciso passar as passas do Algarve e bater com o nariz em muitas portas para perceber que a minha motivação imediata não me leva a nenhum ponto em concreto, mas sim e apenas me levava a correr e estrebuchar em desafios sem metas à vista.

Foi preciso cometer erros de palmatória, ser um mentecapto nos relacionamentos e hipotecar muitos dos meus princípios para compreender que a vida e o destino estão nas nossas mãos mas que não nos caem do céu. Se em muitas frentes já não consegui reerguer a obra, noutras frentes, qui ça, as mais importes na Vida consegui mostrar obra.

E algures na mente ficam novas obras em projecto, para em breve meter mãos à obra, na certeza porém de que não há certezas.