democracia

Num desabafo rápido só quero apontar que realmente neste jardim à beira-mar plantado vivemos dias muito semelhantes à queda da Primeira República, em que políticos medíocres envolvidos em guerras palacianas afundavam o país numa profunda crise económica e social.

Sem dois dedos na testa alguns esticam a corda bamba da crise com piruetas ansiando por poder, enquanto outros igualmente desmiolados impõe regras de  interpretação dúbia e impraticáveis. Só não entendem que estendem o tapete à descrença na democracia. Um Salazar disfarçado de D.Sebastião  arrisca-se a tomar conta disto não tarda nada.

Um Povo Resignado e Dois Partidos sem Ideias

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [.]

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.

Guerra Junqueiro, in ‘Pátria (1896)

1ª parte – mea culpa

Faz muitos anos desde que eu participei numa manifestação de cariz politico. Talvez mesmo duas décadas quando me insurgi como muitos da minha geração contra a introdução das provas PGAs pelo ministro da educação da altura.

Nessa altura tive a minha primeira experiência com a maquinaria político-partidária das juventudes que me mostrou que como são formados os actuais líderes deste país que desde jovens são habituados a viver de ambições e favorecimentos em vez de terem um ideal e tentarem fazer valer o seu valor e mérito para um bem comum. A opinião e o bem do partido sobrepõem-se ao bem do país. A partidocracia enojou-me muito cedo, neste pais que tende a votar nos partidos como se tratasse de um fervor clubístico e não de projectos para governar um país. Resumindo a democracia que temos não é de todos a mais correcta. O Povo está demasiadamente longe de que o supostamente representa.

Desde então não quis saber de política. E como eu, uma generosa parte da minha geração não se envolveu com questões sociais e polícias. Pelo menos não por motivos válidos. Vinte anos volvidos a política portuguesa passou a estar povoada de líderes que eram os delfins das jotinhas dessa geração: boys criados nas lutas palacianas e nos favorecimentos em vez de terem feito algo útil na sociedade. Demonstrativo desta situação e o actual primeiro-ministro que nunca fez nada a não ser politica e com isso sempre arranjou cargos e expedientes de enriquecimento para si e para a família, tornou-se poderoso por saber manipular e enganar. E não por mérito.

Faço a mea culpa por não ter participado em qualquer tipo de manifestações ou me ter envolvido de alguma forma no que não achava correcto ao longo destes anos. Fui apenas o cordeirinho democrático e fui meter o meu voto numa urna como cidadão cumpridor de uma república democrática. Foi com o meu compadrio, assim como da minha geração que deixou que este país governado por energúmenos e tachistas e que em alternativa nos partidos da oposição mais energúmenos e tachistas.

Mas a culpa não é dos politicos per si. Não é dos outros. É nossa. É minha. Eu não me mexi, eu não protestei, deixei com o meu papelinho dobrado em quatro numa urna fosse a minha única voz. Até agora.