Amor fati

Que vergonha passar tanto tempo sem escrever aqui. Devo estar a amadurecer em demasia. Prefiro dizer que ao invés de envelhecer estou a amadurecer talvez porque os anos passaram sem que me desse conta e de repente estão ali ao virar da esquina os cinquenta. A pouco e pouco as brancas no cabelo vão sendo mais frequentes, porém a minha mentalidade parece mais juvenil e optimista. Isto porque muito provavelmente os anos que vivi me mostraram que o pessimismo é um obstáculo a uma vida feliz.

Fiquei recentemente familiarizado com uma das premissas do estoicismo denominada “Amor Fati“ que se traduziria em grosso modo como amar o destino. É um conceito difícil de abraçar, pois implicitamente deveríamos não só aceitar e amar tudo o que nos acontece de bom e também de mau. No fundo sermos gratos por tudo o que o destino nos reservou, mesmo que isso nos tivesse num primeiro momento causado angustia e sofrimento. E isto porque é uma das formulas que os estóicos acreditam ser a base de uma vida feliz. Aceitar que o nosso ego e vontade não altera magicamente o nosso destino mas sim só o nega e cria obstáculos. Acreditar que o que sucedeu de mau na nossa existência só nos tornou mais capazes e nos fez crescer é uma noção que venho a acarinhar cada vez mais a medida que amadureço.

Todos nós, homo sapiens somos os descendentes de lutadores estóicos que suportaram todas as adversidades que se colocaram à sua frente, desde o tempo das cavernas, passando por mil fomes, guerras e pestes desde que há memória. Ao fim de contas nós neste jardim à beira-mar plantado desde os nossos bisavós sobrevivemos à implantação da republica, à primeira grande guerra, a três ou quatro bancas-rotas, à falta de alimentos, a uma ditadura de 48 anos, a uma guerra colonial com 5 frentes no ultramar, ao isolamento internacional, a pobreza do pós-guerra, à revolução de Abril e ao PREC, ao 25 de Novembro, às maiorias absolutas, ao FMI e a geringonça.

No fim fazem-se as contas: sobrevivemos e somos mais fortes e capazes. Tal como na nossa própria vida, todas as vicissitudes são importantes para nos enriquecerem e fazerem de nós seres com mais fibra e sabedoria. E a cada ano que passa e nos afastamos daquelas comoções e contrariedades trágicas temos uma perspectiva mais salutar, uma lição que levamos aprendida para uso futuro. “Amor Fati” é abraçar o fado e sentir que nos fez quem somos e que deveríamos ser gratos pelo caminho que fizemos assim como o que se está a desenlaçar para o futuro que há de vir. E que venha ele. Estamos cá para isso.

Exemplos

Aos sessenta e seis anos, o escritor Haruki Murakami é uma referência para mim. Ele começou a escrever e a correr nas suas
trinta e tais primaveras e tem atualmente a sua obra traduzida em 55 línguas e já correu uma ultra maratona. O seu método é relativamente simples: foco e resistência com uma pitada de talento.

A sua genialidade não é unicamente baseada no talento de contador de histórias como só um amante do jazz consegue ter – é também alicerçada num empenho invejável. Levantar-se todos os dias às quatro da madrugada para escrever até ao meio dia e sinal de um compromisso que requer muita determinação. Por sinal essa determinação Murakami admite que foi buscar a sua relação com a corrida: a superação e saber os seus limites e objetivos anda de mãos dadas com o prazer e a liberdade – a corrida e a escrita são artes que requerem todo o esforço de concentração e a força mental para perseguir uma meta.

Este belo exemplo nipónico da nova literatura, um posso sem fundo de criatividade deve ser um modelo a seguir, se bem que a ideia de despertar bem cedo me pareça algo assustadora…

Felicidade

Recentemente um mexerico familiar fez-me pensar seriamente acerca da justiça da vida per si. No fundo sei que o conceito de justiça divina e Karma não são tão transparentes, e que muitas vezes a luz do nosso olhar materialista, o justo é até algo de nefasto.

Na minha infância tinha um vizinho um par de anos mais velho que era um fedelho insuportável, minorca, extremamente conflituoso e manipulador. Para piorar, ele e o irmão mais novo eram as principais crianças que eu convivi fora da escola durante um par de anos. Era frequente ele dar uma boa tareia ao irmão quatro anos mais novo, por acesso de ciúmes e dizer que fora o pobre tinha caído sozinho.

Muitas foram as ocasiões que o tal menino me quis atribuir as culpas por brinquedos partidos ou as negras que o irmão apresentava. Seria em criança o que eu hoje designaria por demónio encarnado, porém na altura eu procurava sempre que possível a sua companhia. Tentava ser seu amigo por ter falta de ter com quem brincar e também, confesso, para poder admirar fantástica cidade de Legos que o miúdo exibia no seu quarto como o seu maior tesouro e que quase cobrava bilhetes pela sua exibição.

Quando me mudei de casa lá pelos sete anos, nunca mais ouvi falar neste miúdo egocêntrico e de má índole, pois não me deixou muitas saudades ou boa recordações.
Hora hoje passadas cerca de três décadas vim a saber que o tal fedelho se tornou um dos principais ricalhaços do nosso país pois se casou com uma das herdeiras de uma das maiores empresas portuguesas cotadas em bolsa.

Porém o repudio inicial de que aquele pequeno *traste* e ambicioso puto se tenha dado bem na vida, deixou que os meus pensamentos fluíssem da inveja inicial e de juízos de valor baseados numa imagem de três décadas que pode até estar deturpada, para reconhecer que se calar aquele miúdo até se tornou em alguém de boa formação e num personagem melhor. Se em cinco anos podemos mudar radicalmente a nossa vida, acho que em trinta poderemos virar numa espécie de madre Teresa de Calcutá ou num Estaline. Tudo depende do que queremos e quais as oportunidades aproveitamos.

Pensando melhor, a ideia que alguém é milionário ou famoso não é propriamente sinonimo de sucesso e muito menos de felicidade. Mais do que as aparências formadas e dos estereótipos repetidos vezes sem conta nos media, não acredito que esse seja o sucesso da vida.
Agora até me sinto envergonhado por achar que aquele filho da puta não merecia ter dado o golpe do baú. Tamanha mesquinhes

O paradigma de ser feliz, acredito cada vez mais, não passa pelo que possuímos, pelo poder ou reconhecimento que alcançamos, esses vectores da exterioridade do que projectamos, mas sim pela simples felicidade interna que criamos para nós e para os outros. Nós podemos ser felizes mesmo na mais abjecta miséria, mesmo que isso seja quase criminoso de se dizer e provavelmente ainda mais de se alcançar e realizar. Tenho ainda na memoria presente a felicidade e doçura que muitos desgraçados que vi nas minhas viagens turísticas à América do Sol ou ao lindo mas paupérrimo S.Tomé e Príncipe.

Ser grato por ser amado e amar a vida e os outros com paixão é felicidade.

Filosofias

Não sei o que pensar sobre os tempos que correm. Já sou algo idoso para perceber que o tempo acaba sempre por nos ultrapassar e nos tornar obsoletos. Ficamos como peças anacrónicas desprovidas de utilidade num mundo que se actualiza e moderniza mais depressa do que conseguimos acompanhar.

Talvez ei não seja assim tão velho, mas sim um terrível pessimista que se deixa quebrantar por alterações do modus operandi. Talvez devesse investir no rejuvenescimento do software e instalar um sistema operativo mais recente, mais ajustado ao universo que me rodeia sem contudo perder a identidade intrínseca que me faz a essência.

Gosto de ser um ser pensante e não um mero condicionado pavloviano, e ajustado a um equilíbrio entre o quixotesco e o sancho panchismo, mas as condicionantes actuais fazem-me esconder numa carapaça com mesclas antagónicas de maquiavelismo e estoicismo.

Filosofias à parte trata-se de evoluir para sobreviver.

Escrevendo

Se pensasse duas vezes não seria capaz de encontrar uma encruzilhada, um ponto geracional no passado para o ponto que me encontro actualmente. Seriam muitos pontos, muitas decisões ou principalmente a sua ausência que foram construindo um futuro que é hoje um presente.

Mil e um caminhos afluem a este destino em que eu me posicionei. Sei que as cartas do Tarot, que eu tanto subestimo, tantas e repetidas vezes me disseram um destes presentes. Nem sempre queremos ver, ou não focamos o que um dos futuro nos destina porque viver não está escrito. Escreve-se.

O Destino escreve-se a cada esquina, a cada sorriso, a cada viagem. A cada palavra por dizer e a cada não. Espero continuar a escrever.

Coisas erradas

Mesmo um exame superficial da história revela que nós, seres humanos, temos uma triste tendência para cometer os mesmos erros repetidas vezes. Temos medo dos desconhecidos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de nós. Quando ficamos assustados, começamos a ser agressivos para as pessoas que nos rodeiam. Temos botões de fácil acesso que, quando carregamos neles, libertam emoções poderosas. Podemos ser manipulados até extremos de insensatez por políticos espertos. Dêem-nos o tipo de chefe certo e, tal como o mais sugestionável paciente do terapeuta pela hipnose, faremos de bom grado quase tudo o que ele quer – mesmo coisas que sabemos serem erradas.

in Carl SaganO Mundo Infestado de Demónios

Pantera

Eusébio, tal como Amália e a irmã Lúcia eram as três encarnações do portugalzinho baseado nos três Fs (Fátima, Futebol e Fado) que o Estado Novo e o Professor Salazar idealizaram para o Zé Povinho se orgulhar.
Estas três grandes personalidades, apesar de nada politicas foram muitos anos o estandarte de um Portugal rocambolesco com heróis da fé, da música e do desporto.

O último a nos deixar, Eusébio era um futebolista memorável e genial no seu tempo, capaz de arrebatar multidões com as suas jogadas e remates de grande craque. Apesar disso segundo consta, o grande herói desportivo tinha uma faceta mundana tal como todos nós e segundo as más-línguas depois de terminar a sua carreira futebolística afundou-se no que se costuma chamar a má vida, sendo habitual ser encontrado nos antros da capital encharcado em álcool na companhia de profissionais como só uma estrela decadente o faz tão bem. O seu alcoolismo patente, infelizmente foi sempre obscurecido pelos fãs que sempre o endeusavam. Era era sim uma estrela maior do futebol, mas não creio que fosse um Mandela, pois a sua dimensão humana grassava o enredo de uma opera bufa.

A lavagem de perfil transportando-o para um ser impoluto que habitualmente o óbito trás e os discursos de santidade póstumos, causa em mim algum asco. O clubismo histérico dos senhores da segunda circular turva a visão da realidade.

Eusébio da Silva Ferreira era um dos maiores futebolistas de todos os tempos e uma grande estrela há três quatro décadas atrás. Provavelmente merece estar no Panteão Nacional como um português nascido em Moçambique e que prestigiou a nação através dos seus feitos desportivos na época. E só.

Nós.

Com as chuvas persistentes sinto a forma agradável como o outono nos convida a ficarmos mais introspectivos e ao mesmo tempo mais dados à família.  Um tempo para nós, para os nossos pintado num quadro de céu cinzento, conforto da nossa sala e os risos de dois adultos e dois petizes.

Para quê assumir que  a vida é feita de conquistas físicas e sociais? Não o creio. A vida é tão somente vencedora num dia de sorrisos cúmplices. Nós.

 

De volta à rotina

Chegadas as primeiras chuvas de outono, chega a rotina que nos há de acompanhar durante longos e sombrios meses. Tal é a noção que nos ocorre. Mas nada é certo e na verdade não há rotinas a não ser que as abraçamos maquinalmente e as sigamos cegamente.

Este outono quero reformular muitos padrões de comportamento e assim mudar também a forma de pensar e agir perante aqueles que estão à minha volta. Pequenas alterações que juntas podem dar grandes mudanças, abrir novas portas e novos desafios. E isto sem grandes planeamentos e efeitos de choques, tão só ajustamentos graduais rumo a uma vida menos estressada e mais feliz.

Agora que a minha maturidade desaflora para uma nova etapa de renovação sabendo uma das premissas mais importantes da nossa existência :

As mudança surgem de dentro de nós.